segunda-feira, 22 de dezembro de 2014

A Igreja Matriz do Corpo Santo

A mais antiga igreja do Recife e núcleo da cidade foi, lamentavelmente, demolida em nome do progresso.

A Igreja do Corpo Santo foi erguida no local onde havia a ermida de São Frei Pedro Gonçalves ou São Telmo, santo protetor dos pescadores e homens do mar. Ao seu redor, que hoje seria próximo ao Marco Zero, foram sendo construídas casas e armazéns das pessoas que viviam e trabalhavam do mar, para onde estava voltada a fachada da igreja.

Com a invasão dos holandeses em 1630, a igreja foi transformada em templo calvinista, inclusive servindo de cemitério para importantes figuras do Brasil holandês, como o irmão do Conde Maurício de Nassau, João Ernesto de Nassau, o conselheiro político e depois senhor-de-engenho, Servaes Carpentier e do almirante Lichthart. Segundo o arquiteto José Luiz Mota Menezes, os holandeses acrescentaram ao prédio uma torre sineira conforme o estilo arquitetônico neerlandês da época.

Expulsos os holandeses em 1654, a igreja foi reconciliada e começou a ocorrer a Procissão dos Passos, segundo promessa dos oficiais luso-brasileiros e cumprida até hoje, na quinta e sexta-feira, que antecedem em duas semanas a Semana Santa. Naquela época foi criada a Venerável Irmandade do Senhor Bom Jesus dos Passos do Corpo Santo. A procissão saia da Igreja do Corpo Santo para a igreja do Convento de Nossa Senhora do Carmo em Olinda.

No século XVIII a igreja foi ampliada, tornando-se um imponente prédio.

Em 06 de março de 1913 ocorreram os últimos eventos religiosos da Matriz do Corpo Santo, tendo sido rezada missa, com a comunhão e posterior transferência do Santíssimo Sacramento para a Igreja da Madre de Deus.  

Em outubro de 1913 a igreja começou a ser demolida, sendo concluído o processo no ano seguinte, para a construção da Av. Marques de Olinda e a ampliação do porto do Recife.

Conforme fotografias da época, a igreja tinha cinco portas na fachada principal, tendo a porta central cerca de 6 m de altura. O prédio mediria 25x50 m, com três pavimentos somando 15 m de altura até o alto da torre sineira.

quinta-feira, 4 de dezembro de 2014

João Fernandes Vieira II

Em agosto de 1644, André Vidal de Negreiros, vindo da Bahia, começa a fomentar a Insurreição no Recife e cercanias. Nessa época o Conde de Nassau já havia retornado à Europa e tudo apontava para a revolta. Também de larga importância nesse contexto é a restauração do trono lusitano através de D. João IV no final de 1640.

Na várzea do Capibaribe, em 23 de maio de 1645, é assinado, inclusive por Vieira, um compromisso de honra pelos patriotas que se comprometem a lutar e ajudar, inclusive financeiramente, para a expulsão dos holandeses do Brasil. No mês seguinte, apos receber diversas denuncias da iminente insurreição, o Alto Conselho manda prender Vieira, seu sogro Francisco Berenguer e outros lideres do movimento. Os insurretos reunem-se no engenho de Luis Bras Bezerra, também na várzea,  e juntam armas e homens para o combate.

Seguindo para o interior os luso-brasileiros chegam até o Monte das Tabocas, hoje Vitória de Santo Antão, aonde enfrentam e vencem as tropas holandesas. Foi a primeira grande batalha pela libertação do domínio neerlandês. Seguem-se vários combates com a ação de Vieira na frente de batalha como engenho Casa Forte e Forte de Nazaré (Cabo de Santo Agostinho), além de locais mais distantes como em Porto Calvo e Penedo.

Em 07 de outubro de 1645 os membros mais importantes do clero, da nobreza e das armas de Pernambuco elegem João Fernandes Vieira governador da capitania, com poderes civis e militares, ficando em pé de igualdade com os enviados pelo governador-geral em Salvador, André Vidal de Negreiros e Martim Soares Moreno. Um dia antes, em Salvador, o próprio governador Antônio Telles havia designado Vieira como mestre-de-campo do Terço de Pernambuco, com a missão de fazer a guerra de restauração.

Sem conseguir eliminar por completo os invasores, a guerra entra numa fase semelhante ao inicio da invasão com pouca movimentação das tropas de ambos os lados.  Não havia armas, munições nem suprimentos suficientes para os luso-brasileiros nem para os holandeses empreender uma ofensiva decisiva. O prestigio de Vieira fica abalado frente aos insurretos, ocorrendo até uma emboscada contra ele, que escapou ferido à bala.  Apesar das vitórias anteriores, o período 1647 – 1648 é muito duro para os revoltosos, principalmente pela pouca ajuda recebida do Reino, e o ataque dos piratas da Zeelandia à navegação entre Europa e Brasil onde apreenderam mais de 200 navios portugueses nesse tempo.

Em 1648 e 1648 as duas batalhas dos Guararapes acabam de vez com as chances da conquista holandesa no Brasil. Vieira atuou de forma pessoal e decisiva nos dois combates onde seu Terço, que era o de maior efetivo, preencheu o centro do dispositivo das tropas do mestre-de-campo-general Barreto de Menezes, garantindo a derrota dos mercenários da WIC.

Na ofensiva final contra os holandeses no Recife o Terço de Vieira outra vez ataca na vanguarda das forças que investem contra o Forte do Rego ou das Salinas, onde hoje existe a Igreja de Santo Amaro, origem do bairro de mesmo nome. Alguns dias depois, acertada a rendição dos holandeses, as tropas de Barreto de Menezes, com os homens de Fernandes Vieira novamente à frente, entram no Recife em 27 de janeiro de 1654.

Em reconhecimento aos feitos na guerra de libertação, o Rei concedeu a João Fernandes Vieira diversas honrarias como os governos da Paraíba, Angola e Maranhão, titulo de mestre-de-campo, comenda da Ordem de Cristo, superintendente das fortificações do Nordeste, além de terras em diversas localidades nordestinas. 

Citado em documentos como proprietário de mais de 16 engenhos, possuía terras em Pernambuco, Paraíba, Rio Grande, não só nas sedes das capitanias como no “sertão” como eram denominados os territórios afastados do litoral. A ele foi doado, inclusive, o sobrado que abrigava a sinagoga da Rua dos Judeus no Recife. Tinha também casas e uma quinta em Lisboa.

Apesar de muito criticado pelo período que esteve ligado aos holandeses e pelas suas inúmeras dívidas junto aos invasores e depois ao Reino, Vieira é justamente reconhecido como um dos heróis da Insurreição Pernambucana, tendo despendido grandiosos esforços e recursos materiais para sustentar a guerra contra o invasor neerlandês, durante largo período sem auxilio de Portugal.

Faleceu em 10 de janeiro de 1681 em Olinda, sendo sepultado na Igreja do Carmo. Em 1942 seus restos foram trasladados para a Igreja de Nossa Senhora dos Prazeres, nos Montes Guararapes.