segunda-feira, 13 de maio de 2013

Recife, Cidade Sitiada

"Entretanto, enquanto as cousas se desenrolavam com fortuna vária e os socorros da Holanda tardavam, a penúria se acentuava diariamente no Recife.

Os gatos e cachorros, dos quais tínhamos então abundância, eram considerados finos petiscos. Viam-se negros desenterrando ossos de cavalo, já meio podres, para devorá-los com incrível avidez. Nem era menos insuportável a falta de água potável, devido ao rigor do verão e ao uso constante de carnes salgadas; todos os poços que se abriam minavam água salobra.

Finalmente a situação se agravou de tal sorte que mesmo a ração de uma libra [453 g] de pão por semana foi suspensa ao povo para ser concedida aos soldados que, induzidos pelos portugueses e atraídos por uma ração dobrada, começaram a desertar rapidamente.

Quando já tinhamos atingido ao auge da penúria e devorado todos os cavalos, gatos, cachorros e ratos, e um alqueire [15 Kg] de farinha chegou a ser negociado à razão de 80 e 100 florins, finalmente, a 22 de junho avistamos dois navios desfraldando o pavilhão do Príncipe, que rumavam para o Recife a todo pano. Esses dois navios, denominados Valk e Elizabeth foram fretados pela Câmara de Amsterdã e haviam zarpado de Texel a 26 de abril.

Os capitães de ambos os navios receberam medalhas de ouro com a seguinte inscrição: O Falcão e o Elizabeth salvaram o Recife."


Descrição de Joan Nieuhof (Memorável Viagem Marítima e Terrestre ao Brasil) do cerco imposto pelos luso-brasileiros aos holandeses no Recife a partir de 1645, quando a única via de acesso à cidade era por mar, ainda dominado pelos neerlandeses.

sexta-feira, 3 de maio de 2013

O Governador dos Negros

Até o ano de 1633 quase não existe informação confirmada sobre o negro Henrique Dias.

Não se sabe o ano de seu nascimento. O certo é que era pernambucano.

Francisco de Brito Freyre, almirante português, afirma que ele nasceu escravo, enquanto Duarte Coelho Pereira, donatário de Pernambuco, relata sua condição de homem livre.

Henrique Dias apresentou-se em 14 de maio de 1633 ao general Matias de Albuquerque no Arraial do Bom Jesus, juntamente com sua tropa de negros. A situação dos luso-brasileiros só fazia piorar após a deserção de Calabar, que levou os holandeses a diversas conquistas. Dias permaneceu no Arraial mesmo depois da rendição que ocorreu por não haver mais mantimentos nem munição no forte.

Se ferimentos em combate podem medir a coragem de um soldado, Henrique Dias foi o mais corajoso da chamada Guerra Brasílica. Quase uma dezena de relatos atestam os danos recebidos por ele, inclusive aquele no combate de 18 de fevereiro de 1637 em Mata Redonda, Alagoas, onde um pelouro destroçou sua mão esquerda que teve de ser amputada acima do pulso.

No ataque que Maurício de Nassau procedeu a Salvador em 1638, Dias integrou a tropa de veteranos de Pernambuco que ajudou a defender a então capital do Brasil e fez retroceder os homens da Cia. das Índias Ocidentais.

Em 1639 chega ao Brasil o Conde da Torre, Governador e Capitão General de Terra de Mar, com a missão de recuperar os territórios tomados pelos holandeses. São enviados ao Brasil holandês os chamados campanhistas, guerrilheiros que deveriam atacar as posições neerlandesas e queimar seus canaviais. Entre eles estava Henrique Dias com seus negros.

No final de 1639 a tropa de Henrique Dias integra uma poderosa força que embarca para atacar os invasores holandeses no Recife e em outros pontos da costa nordestina. A missão não tem sucesso e após diversos confrontos com navios neerlandeses a frota luso-hispana é fragmentada e em parte destruída. Os homens de Dias desembarcam em Pipa, Rio Grande do Norte retornando pelo interior, onde se engajam em diversos combates com os holandeses até alcançarem a Bahia.

Em 1645 tem início as batalhas pela Restauração Pernambucana: Monte das Tabocas, Casa Forte, Cabo, etc. O Terço de negros de Henrique Dias está sempre na vanguarda dos combates e seu comandante vai colecionando vitórias e mais ferimentos.

Os luso-brasileiros cercam os holandeses praticamente no Recife e Dias se instala em habitações à margem do Capibaribe, atual bairro dos Coelhos, tão próximo ao inimigo que as escaramuças são diárias.

No inicio de 1648 ele e seu Terço seguem para o Rio Grande do Norte a fim de expulsar os neerlandeses da capitania. Na volta a Pernambuco atua bravamente na 1ª Batalha dos Guararapes (19 de abril). Quase um ano depois vem a 2ª Batalha dos Guararapes (18 de fevereiro) e Henrique Dias é mais uma vez ferido, com um tiro no flanco.

A rendição dos holandeses ocorre em 27 de janeiro de 1654 no Recife. Em março daquele ano H. Dias acompanha André Vidal de Negreiros a Portugal, onde este comunica ao rei D. João IV a vitória das armas luso-brasileiras sobre os neerlandeses. Henrique Dias escreve ao rei solicitando as benesses prometidas por seus comandantes durante a guerra de libertação.

Pela coragem extrema e derramamento de seu próprio sangue em situações diversas, a 27 de abril de 1654 o rei de Portugal concede por decreto ao negro Henrique Dias a comenda dos Moinhos do Soure da Ordem de Cristo com todas as honras devidas. Ao voltar a Pernambuco o general Barreto de Menezes, comandante do exército luso-brasileiro, expede alvará concedendo a Dias algumas casas no Recife, as mesmas que ele e seus homens haviam ocupado no cerco aos invasores junto ao Capibaribe.

Em 1656 o fidalgo negro volta a Portugal. Sua missão agora é garantir aos seus bravos comandados a liberdade que seus senhores lhes haviam prometido para lutarem pela liberdade do Brasil. Pedia ainda que seu Terço de homens negros fosse equiparado aos demais Terços de combatentes das forças portuguesas no Brasil. O Conselho Ultramarino atendeu ao pedido de Henrique Dias, seu Terço foi mantido e ele recebeu a patente de Mestre-de-Campo.

O grande patriota Henrique Dias morreu a 07 de junho de 1662 no Recife, sendo enterrado no Convento de Santo Antônio. Era casado e teve quatro filhas.

quinta-feira, 4 de abril de 2013

Joan Nieuhof

Natural da cidade de Uelzen, norte da Alemanha, Joan Nieuhof nascido em 22 de julho de 1618, alistou-se na Cia. das Índias Ocidentais (WIC) em 1640 chegando ao Brasil em dezembro do mesmo ano na condição de comissário.

Esteve em Pernambuco por mais de 8 anos, voltando à Holanda em julho de 1649. Contratado pela Cia. das Índias Orientais (VOC), segue para a Batávia, colônia holandesa na Indonésia, China, Ceilão, Malabar e Sumatra. Tendo como missão negociar com os príncipes da costa do Malabar, chegou a ser governador do Ceilão.

Voltou a Holanda em 1670, tendo sido enviando dois anos depois para a ilha de Madagascar onde desapareceu em viagem pelo interior. Foi enviada uma expedição pela VOC para localiza-lo, mas sem sucesso.Em sua estada na Holanda, entregou a seu irmão Hendrick Nieuhof os originais de um livro que seria publicado em Amsterdam, 1682 com o título: Zee em Lant Reize door verscheidene gewesten van Oost Indiae (Viagem Marítima e Terrestre por Diversas Regiões da Índia Ocidental).

No livro, Nieuhof descreve em pormenores desde sua viagem da Holanda ao Recife até aspectos geográficos das capitanias do Brasil holandês, seus habitantes, animais e plantas. São abordadas as negociações entre os holandeses e o governo de Salvador para cessação das hostilidades no Brasil, bem como os subornos propostos por ambos os lados para a tomada de fortificações e a deserção de civis e militares. São descritos vários combates da guerra que assolava a colônia tanto em terra quanto no mar.

A narrativa não segue uma linha lógica, estando misturados diversos assuntos diferentes. Vários trechos do livro, notadamente aqueles que tratam da fauna e da flora, são copiados dos trabalhos de Georg Marcgrave e de Willem Piso. Assim mesmo, trata-se de importantíssimo documento de um alto funcionário da WIC que esteve por quase uma década no Brasil holandês.

O livro foi publicado em inglês em 1703 e em português (1981) segundo tradução de Moacir Vasconcelos e comentários de José Honório Rodrigues, confrontado com a edição holandesa. O título em português é: "Memorável Viagem Marítima e Terrestre ao Brasil".

domingo, 10 de março de 2013

A Escolha de Nassau

"Era essa mais ou menos a situação do Brasil e da América, quando Nassau assumiu o governo. Todos o desejavam nesse posto, porque, prático na milícia européia, sob o Príncipe de Orange, reconquistara, com sua dedicação e diligência, o que antes dele ninguém conseguira, a praça de Schenken, a qual, situada no divórcio das águas do Reno, defende a Batávia.
 

Gozava ele por isso o favor público dos holandeses, acrescendo a esses títulos o lustre de sua família, ligada pelo sangue aos imperadores e por matrimônio aos reis, além da autoridade, da galhardia, da lealdade, da boa fortuna e de outras muitas virtudes e honras. Tudo isso exigia fosse ele arrastado sem detença ao comando supremo e não consultado em longas deliberações. Demais, ostentava ele no porte e no corpo a bizarria e gentileza não só própria de idade viril, mas também congruente na dignidade com a relevância do seu alto cargo. Para auxiliar os príncipes alemães, já antes participara, como cavaleiro, da expedição que, sob Frederico Henrique de Nassau, se mandara ao Palatinado contra o Marquês de Spinola.

Fora alferes e comandara como capitão uma companhia, subindo logo de posto, sob Ernesto, governador de Frísia, e depois sob o príncipe Maurício de Orange, stathouder de Holanda, Zelândia e Frísia. Sob S. A. o príncipe Frederico Henrique, já supremo defensor das Províncias-Unidas, celebrizou-se Nassau nos famosos assédios de Groel, Bois-le-Duc, Vanloe, Maestricht (onde sustentou e repeliu com valentia o ataque contra a sua posição feito por Pappenheim, general das forças imperiais) e de Rheinberg. Assim, depois de desempenhar, no Velho Mundo, todas as funções militares, viria exercer outras novas no Novo Mundo.


Acompanhava-o a opinião – era verdadeira – de que se lhe dava a província do Brasil, não por insinuação ou pedido seu, mas por ser dela julgado digno e capaz. A voz pública não errava, antes escolhia o melhor. E o que é mais para louvar, logrou ele, por suas virtudes, fosse a Companhia antes pedir de empréstimo um governador aos alemães que escolhê-lo entre os próprios holandeses. Os Estados-Gerais e o Príncipe de Orange ratificaram os poderes a ele conferidos pelos diretores da Companhia.

A princípio foi prometida ao Conde uma esquadra de trinta e duas naus para ele ir tentar fortuna no Novo Mundo. Entretanto os diretores, diminuindo a sua avidez de ousadias, convieram depois em doze, que levariam 2.700 soldados.

Para evitar uma delonga prejudicial, companheira das grandes empresas, Nassau, já disposto para os trabalhos e as fadigas, resolveu partir numa esquadra ainda desapercebida, como acontece de ordinário em tais circunstâncias, e com soldados mal aprestados, com os quais ia passar à América, em quatro navios somente.


No outono do ano da graça de 1636, zarpou ele do porto de Texel, com o pleno assentimento e a mais firme esperança de todas as classes sociais. O navio que conduziu o capitão-general tinha o nome de Zutphen. Os soldados não excediam 350, que mal o garantiriam contra os ataques dos espanhóis de Flandres e de Dunquerque.


À sua partida, foram dele despedir-se e levar-lhe os votos de felicidade e boa viagem os membros dos Estados-Gerais, o Príncipe de Orange, os diretores da Companhia e os cidadãos mais considerados, persuadidos de que iria ele dar um exemplo novo de felicidade e de sabedoria política e militar."

Gaspar Barléus
Rerum per Octenium in Brasilia...
Amsterdam, 1647

sábado, 23 de fevereiro de 2013

Zacharias Wagener

Nascido em Dresden, Alemanha, no dia 10 de maio de 1614, Zacharias Wagener, filho de um pastor protestante, ainda jovem foi para Hamburgo e em seguida trabalha na livraria de Joan Blaeu, afamado editor de Amsterdam. Em 1634 alista-se na Cia. das Índias Ocidentais e é enviado ao Recife como soldado.

Com a chegada de Maurício de Nassau em 1637, Wagener, que já aprendera a língua portuguesa e convivia com os índios, é nomeado despenseiro do Conde. Influenciado pelos artistas da corte de Nassau, Wagener passa a registrar através de aquarelas, aspectos da fauna, flora e dos habitantes do Brasil holandês.

Zacharias Wagener colecionou 109 aquarelas em um livro denominado Thier Buch (Livro dos Animais). Neste trabalho estão representados mamíferos, aves, peixes, crustáceos, insetos, vermes, diversas frutas e plantas encontrados no Brasil holandês. Wagener pintou também índios, negros e mestiços que habitavam nossa terra naquela época. Todas as figuras eram acompanhadas do nome e às vezes de uma descrição. Mostrou cenas do cotidiano do Recife, inclusive da Rua dos Judeus (hoje Rua do Bom Jesus) quando da venda de escravos africanos.

Wagener, apesar de ter convivido com artistas e intelectuais desde a Europa, não tinha formação científica nem artística, mas foi um dos primeiros a retratar a fauna, flora e habitantes não europeus do Brasil e um dos poucos a apresentar o que ele próprio viu. Procurou faze-lo de maneira fidedigna, afastando as crenças fantasiosas sobre animais e plantas monstruosas que as pessoas do Velho Mundo acreditavam existir na América.

Em 1641, Zacharias Wagener voltou para a Europa, primeiro para a Holanda e depois seguindo para a Alemanha a fim de rever sua família. Como aventureiro que era, poucos meses depois retorna a Amsterdam onde alista-se agora na Cia. das Índias Orientais (VOC) viajando por todo o Oriente. Ocupou diversos cargos de expressão na VOC inclusive o de Governador da Cidade do Cabo. Morreu em 1° de outubro de 1668 em Amsterdam, onde foi enterrado.

No Thier Buch estão as oito figuras humanas (índios e negros) que foram posteriormente pintadas por Albert Eckhout na Holanda com pequenas alterações e com estética mais suave.

domingo, 10 de fevereiro de 2013

Pernambuco: tradição de revolução e liberdade

Após expulsar os holandeses em 1654, o sentimento nativista pernambucano mantém a tradição libertária e revolucionária que se mostra em várias ocasiões contra o poder central monarquista. O povo pernambucano não aceita a imposição de leis e a cobrança de impostos exorbitantes aos seus filhos que, no dizer do poeta César Leal, "edificaram a fogo, a faca e patas de cavalos o orgulho nacional em Guararapes."

Em 1666, foi nomeado pelo rei D. Afonso VI, como governador da província de Pernambuco o general português Jerônimo de Mendonça Furtado. Os pernambucanos esperavam que o cargo fosse ocupado por uma liderança local em face da reconquista desta parte do Brasil pelos homens da terra. O governador Furtado foi apelidado de Xumbergas por usar um bigode semelhante ao do general alemão Von Schomberg, que lutara na guerra de restauração do trono português. Ele se indispôs com os líderes locais e terminou por ser preso durante uma procissão organizada por eles no dia 31 de agosto daquele ano. Da fortaleza do Brum foi enviado a Bahia e posteriormente a Portugal.

O confronto com os portugueses teve novo episódio em 1710 com a elevação do Recife a condição de Vila. Os homens tradicionais de Olinda, sede da província, não aceitaram a situação da nova vila onde viviam os mascates portugueses e os atacaram, destruindo o pelourinho e provocando a fuga do governador Sebastião de Castro Caldas para a Bahia. Esses eventos ficariam conhecidos como a Guerra dos Mascates.

O mais importante movimento separatista e republicano de Pernambuco ocorreu em 1817 e chegou a se espalhar pelas províncias vizinhas. Os maçons do Recife divulgavam os ideais de liberdade e igualdade para todos, inclusive na libertação dos escravos. Os religiosos também tiveram papel relevante na disseminação dos regimes implantados nos Estados Unidos (1776) e França (1789).

Informado da revolta iminente, em 06 de março de 1817 o governador Caetano Pinto de Miranda Montenegro convoca os oficiais comandantes do Recife para prender os civis e militares apontados como conspiradores. O capitão José de Barros Lima, o "Leão Coroado", ataca o brigadeiro português Manuel Barbosa de Castro, que acusava os oficiais pernambucanos, dando início a revolta. O governador Montenegro, seus familiares e outros portugueses foram presos e enviados ao Rio de Janeiro. Foi nomeado um governo provisório e encaminhados emissários às províncias da Paraíba, Rio Grande do Norte, Ceará e Bahia, além de Estados Unidos e Inglaterra. Uma nova bandeira foi instituida que é até hoje a bandeira de Pernambuco.

O mais importante é que, pela primeira vez no Brasil, foi proclamada a liberdade de pensamento, de religião e da imprensa além da liberdade progressiva dos escravos. Em maio, o governo imperial envia tropas e navios de guerra para sufocar a rebelião e acaba com o sonho liberal pernambucano.

Sete anos depois (1824) eclode nova revolta em Pernambuco que ficou conhecida como Confederação do Equador. Em 1823, D. Pedro I havia dissolvido a Assembléia Constituinte e centralizado fortemente o poder. O presidente da província Francisco Paes Barreto é pressionado pelos liberais republicanos e renuncia ao cargo. Pedro I envia duas belonaves ao Recife para reempossar o antigo presidente mas, sem sucesso. Resolve então nomear outro presidente, Mayrink Ferrão, mineiro ligado aos liberais que também é rejeitado pelos revoltosos no Recife. Em 02 de julho é proclamada a independência da Província de Pernambuco, sendo enviados emissários às províncias vizinhas para formar a Confederação do Equador. Em agosto, o imperador manda uma esquadra com tropas para dominar o Recife. O comandante, o inglês Thomas Cochrane, tenta convencer os separatistas a se renderem não obtendo resposta positiva. As tropas imperiais que haviam desembarcado em Maceió e receberam a adesão dos fiéis a D. Pedro I chegam ao Recife e conseguem reconquistar a cidade.

As lideranças do movimento foram presas, destacando-se frei Caneca, que foi condenado a morte e executado em 13 de janeiro de 1825 nos muros do Forte de Cinco Pontas.

Em represália aos movimentos libertários, Pernambuco teve seu território apartado das Comarcas de Alagoas em 1817 e da Comarca do São Francisco em 1824. Perdemos mais de 150.000 km² de terras que foram provisoriamente tomadas como castigo imposto pelos poderes imperiais.

terça-feira, 29 de janeiro de 2013

Calabar

Dentre as várias figuras polemicas que povoam as páginas históricas do Brasil holandês, sem dúvida, a mais destacada foi a de Domingos Fernandes Calabar.

Nascido no ano de 1609, filho de um português e uma negra, na Capitania de Pernambuco, povoação de Porto Calvo, hoje Alagoas, Calabar foi educado pelos padres jesuítas. Praticou o contrabando e chegou a possuir algumas terras. Quando os holandeses invadem Pernambuco em fevereiro de 1630, Calabar ingressa nas forças de resistência e combate duramente as tropas da Cia. das Índias Ocidentais (WIC).

Em 20 de abril de 1632 Calabar passa para o lado dos invasores. Profundo conhecedor da geografia da região e com bom relacionamento com os índios, orienta os holandeses na conquista de diversas localidades, dentre as quais Igarassú, Rio Formoso, Itamaracá, Cabo, Paraíba e Rio Grande do Norte.

Aprendeu rapidamente a língua holandesa e devido aos seus bons serviços privava da amizade dos comandantes e dos conselheiros da WIC.

Em 06 de junho de 1635 cai o Arraial do Bom Jesus, último baluarte luso-brasileiro na região de Olinda e Recife. As tropas remanescentes de Matias de Albuquerque seguem juntamente com os retirantes do Bom Jesus para Salvador, Bahia. Na passagem por Porto Calvo, conseguem tomar aquela vila, então sob o comando do major Alexander Picard. Calabar, que se encontrava em Porto Calvo, é sumariamente julgado e condenado a morte por traição. Foi executado em 22 de julho de 1635, sendo garroteado e em seguida esquartejado. Seus restos mortais foram expostos na estacada da vila.

Não se sabe ao certo os motivos da deserção de Calabar. Cita-se o assassinato de uma mulher e também desfalques nos cofres da Coroa. A deserção era fato comum naqueles tempos, haja visto os maus-tratos aos negros, índios e mestiços e as perseguições religiosas por parte dos portugueses. Pelo lado dos holandeses vale lembrar que o exército da WIC era composto em sua grande maioria por mercenários, sem contar com a falta de alimentos, armas e vestuário para os invasores.

O historiador Evaldo Cabral de Mello afirma que Calabar foi morto para não divulgar informações que tinha sobre o colaboracionismo com os holandeses de pessoas destacadas na sociedade portuguesa em Pernambuco. O frei Manuel Calado que ouviu sua confissão antes da execução diz que Calabar havia citado que não eram os mais humildes os culpados pela colaboração com os invasores.

Pelos bons serviços prestados, os holandeses concederam uma pensão de oito florins por mês a cada um dos três filhos de Domingos Fernandes Calabar.


sábado, 19 de janeiro de 2013

A Escravidão no Brasil Holandês

A escravidão era comum a quase todas as civilizações da antiguidade, sendo praticada em culturas do oriente, oriente médio e ocidente.

No Novo Mundo a escravidão já existia entre os índios, que escravizavam os vencidos nas guerras. Com a chegada dos espanhóis e portugueses os escravos eram comercializados com os colonizadores. No Brasil, os índios não se prestavam aos duros trabalhos que lhes eram impostos, como a extração do pau-brasil e o cultivo da cana-de-açúcar, sendo substituídos pelos negros africanos. Como os negros eram considerados infiéis e por isso inimigos da Igreja Católica, o Papa Eugênio IV já havia autorizado em 1436 a escravatura dos africanos.

Com o aumento da produção açucareira no final do século XVI, o tráfico negreiro cresceu assustadoramente, estimando-se em 30.000 negros sequestrados da África para trabalharem no Brasil até 1600, principalmente nas lavouras de cana-de-açúcar.

Os invasores holandeses logo observaram que o braço escravo era imprescindível à produção do açúcar, seu objetivo primário, tratando de implantar entrepostos na própria África para garantir um fluxo constante de negros para os engenhos do Brasil holandês. Nassau envia expedições à São Jorge da Mina e São Paulo de Luanda conquistando as fortalezas portuguesas daquelas localidades.

Os escravos eram transportados em condições sub-humanas, amontoados em navios sem nenhuma higiene e quase sem alimento e água. A mortandade era tamanha que o próprio Nassau, em 1644, envia relatório aos Estados Gerais na Holanda assinalando que um quarto dos negros embarcados na África morria devido às péssimas condições da travessia.

A Cia. das Índias Ocidentais traficava e vendia os negros escravos para os senhores-de-engenho com grande lucro. Eram comprados na África por valores entre 12 e 75 florins e vendidos no Recife, na Rua dos Judeus, por 200 a 300 florins. Os escravos eram utilizados, além da cultura da cana e produção açucareira, nas tarefas domésticas, na extração do pau-brasil, na criação de gado e também como soldados nas guerras.

O engenheiro e historiador Roberto Simonsen em seu livro História Econômica do Brasil (1937) estima que 350 mil negros foram trazidos da África para o Brasil no século XVII.  

A importância dos escravos no Brasil era tão evidente que o padre Antônio Vieira afirmou em 1648: Sem negros não há Pernambuco.

quarta-feira, 26 de dezembro de 2012

Forte Orange

Após a tomada de Olinda e do Recife em 1630, os holandeses começaram a expandir a conquista e no ano seguinte decidiram atacar a vizinha Capitania de Itamaracá. Para tanto construíram um ponto forte no extremo sul da ilha, que foi denominado Schans Oranje (trincheira Orange), em homenagem a Casa Real da Holanda. Partindo deste local em 1633, as tropas do coronel alemão Sigmund von Schkoppe poderam vencer as defesas luso-brasileiras e tomar a vila de Conceição (hoje Vila Velha) após cerco de dois anos. O local passou a ser chamado Vila Schkoppe.

Pela sua importância na defesa da entrada do canal que dava acesso à Vila Schkoppe, seu porto e Igarassú, o Forte Orange foi sendo ampliado e artilhado pelos holandeses. Algumas tentativas das forças portuguesas para retomar o forte foram rechaçadas pelos invasores.

Em 1654, com a rendição dos holandeses, o Forte Orange passou para o controle dos portugueses sendo renomeado como Fortaleza de Santa Cruz.

Foi reparado em 1696 e novamente em 1777. No início do século XIX encontrava-se abandonado e em ruínas. Sofreu novos reparos em 1817, sendo ocupado por tropas do Padre Tenório na Revolução Pernambucana no mesmo ano.

Tombado pelo Serviço do Patrimonio Historico e Artistico Nacional em 1938, foi administrado por diversos orgãos públicos como o Exército Brasileiro, Prefeitura de Itamaracá (inclusive através de José Amaro de Souza Filho), Ministério da Cultura e FADE. Esta última coordenou um projeto de pesquisa arqueológica envolvendo a UFPE, MOWIC Foundation (holandesa), IPHAN e Governo de Pernambuco.

Existe um projeto para recuperação do forte com a implantação de museu e algumas facilidades, além de adequação do entorno para a visitação e lazer.

sexta-feira, 30 de novembro de 2012

A Capitania de Pernambuco

A conquista das regiões do Brasil feita, com o favor de Deus, pelas armas da Companhia Geral das Índias Ocidentais, compreende quatro capitanias, a primeira das quais, a maior, a mais rica, a mais produtiva e populosa, é a Capitania de Pernambuco.

Esta capitania de Pernambuco tem os seguintes limites: ao Sul extrema com a Capitania de Sergipe d'el Rei pelo rio São Francisco, que demora aos 10°20' de latitude meridional e ao Norte com a Capitania de Itamaracá, situando-se a linha divisória a meio rio adiante da pequena cidade Schkoppe [Vila Velha] sita na ilha de Itamaracá, e correndo daí diretamente ao ocidente, segundo a bússola, e indo encontrar a terra firme defronte da mesma ilha, no lugar onde foram fixados os marcos na altura de 75°50'.

Do rio São Francisco ao cabo Santo Agostinho a costa corre geralmente sudoeste nordeste por espaço de 33 milhas, e do dito cabo até a ilha de Itamaracá norte quarta a oeste e sul quarta a leste obra de 13 milhas. Assim esta capitania tem um litoral de 46 milhas.

Os seus portos principais, próprios para abrigar navios grandes, são o Recife de Olinda, Cabo Santo Agostinho, atrás da ilha de Santo Aleixo, Barra Grande, no das Pedras, o seu Lagamar, porto de Jaraguá, porto dos Franciscos, Coruripe. Tem também, rios próprios para barcos e embarcações pequenas, como o das Jangadas, de Serinhaém, Formoso, Una, Camaragibe, Santo Antônio Grande, as Alagoas, São Miguel e rio São Francisco, o qual, apesar de ser um grande rio, não tem barras ou portos capazes.

Esta capitania de Pernambuco se divide em quatro jurisdições, das quais a principal é a câmara da cidade de Olinda; a segunda e a mais antiga é a câmara de Igarassú; a terceira, é a câmara da Vila Formosa de Sirinhaém; a quarta, que nunca teve câmara, sendo dirigida pro libitu do mais poderoso do lugar, começa ao sul da jurisdição de Serinhaém e se estende até o rio São Francisco.

  
Breve discurso sobre o estado das quatro capitanias conquistadas de Pernambuco, Itamaracá, Paraíba e Rio Grande, situadas na parte setentrional do Brasil

J. Maurice Conte de Nassau
M. van Ceullen
Adriaen van der Dussen

14 de janeiro de 1638, Recife


traduzido por José Hygino Duarte Pereira
revisado por José Antônio Gonsalves de Melo

terça-feira, 13 de novembro de 2012

Antônio Dias Cardoso

Nascido na cidade do Porto, Portugal, no início do século XVII, Antônio Dias Cardoso veio ao Brasil com a família ainda criança.

Assentou praça na Bahia em 07 de fevereiro de 1624, participando da expulsão dos holandeses de Salvador no ano seguinte, usando táticas de guerrilhas emprestadas aos índios. O emprego das emboscadas vai marcar sua atuação no comando de diversas tropas na chamada "Guerra Brasílica".

Foi promovido a alferes em 1635 e a após participar da defesa de Salvador contra as tropas de Maurício de Nassau em 1638 alcançou o posto de capitão. Em 1640 pediu reforma, mas foi reconvocado em 1645 para participar da Insurreição Pernambucana.

Participou ativamente da batalha do Monte das Tabocas, comandando um Terço de Emboscadas com cerca de 1000 homens entre portugueses e gente da terra. Tomou parte importante também na batalha de Casa Forte. Nas duas ocasiões, comandando pessoas sem treinamento militar conseguiu vencer, juntamente com outros destacamentos, tropas mercenárias invasoras com efetivo igual, bem melhor armadas e acostumadas às batalhas.

Incumbido por André Vidal de Negreiros, percorreu o interior de Pernambuco e Bahia com suas tropas coletando informações sobre os efetivos e os locais ocupados pelos holandeses, além de arregimentar homens para a causa da Insurreição.

Sua atuação também foi destacada nas duas batalhas dos Guararapes (1648 e 1649) comandando um Terço de Emboscadas no ataque frontal na 1ª batalha e contra o flanco do inimigo postado na parte alta do terreno na 2ª batalha.

Em 4 de fevereiro de 1655, Dias Cardoso foi armado Cavaleiro da Ordem de Cristo e em 12 de maio de 1656 foi nomeado Mestre de Campo.

Durante alguns meses do ano de 1657, Dias Cardoso, nomeado por Vidal de Negreiros, assumiu o governo interino da Paraíba.

Antônio Dias Cardoso faleceu no Recife por volta de setembro de 1670, estando na época ao comando do Terço anteriormente liderado por João Fernandes Vieira.

A Lei nº 12701 de 06/08/2012 determinou que o seu nome fosse inscrito no Livro de Heróis da Pátria, conhecido como "Livro de Aço", que está depositado no Panteão da Pátria e da Liberdade Tancredo Neves na praça dos Três Poderes em Brasília.

Dias Cardoso é o patrono do 1º Batalhão de Forças Especiais do Exército e do Regimento de Polícia Montada da Polícia Militar de Pernambuco.

quarta-feira, 3 de outubro de 2012

Apresentando o Brasil ao Mundo

Chegando ao Recife em março de 1638, Georg Marcgrave foi incumbido por Nassau de fazer um levantamento da fauna e flora do Brasil holandês. Após 5 anos de expedições pelo Nordeste coletando amostras de animais e vegetais e fazendo desenhos e pinturas de paisagens, nativos, plantas e bichos de centenas de espécies, Marcgrave havia conseguido uma coleção de informações que ainda não havia sido feita em terras do Novo Mundo.

Em 1648, Joannes de Laet publica na Holanda sob o patrocínio de Nassau, o livro Historia Naturalis Brasiliae, apresentando a pesquisa de Marcgrave em conjunto com o trabalho do médico Willem Piso. Escrito em latim, o livro é dividido em duas partes: De medicina brasiliensi com quatro livros de Piso e Historiae rerum naturalium Brasiliae com oito livros de Marcgrave:
Qui agit de Herbis (ervas); Qui agit de Plantis Frutescentibus & Fruticibus (arbustos); Qui agit de Arboribus (árvores); Qui agit de Piscibus Brasiliae (peixes); Qui agit de Avibus (aves); Qui agit de Quadrupedipus & Serpentibus (quadrupedes e serpentes); Qui agit de Infectis (insetos) e Qui agit de ipsa Regione & Indigenis (região e indigenas).

Segundo o professor Dr. Matsuura: "tendo assimilado na Universidade de Leiden [Holanda] o apreço pela observação e experimentação, Marcgrave estava longe das especulações metafísicas que o precederam.  Historia Naturalis Brasiliae foi uma obra revolucionária na época não só pelo seu conteúdo original, mas também pela maneira como descrevia a natureza. As notas baseadas em observações pessoais estabeleceram um marco na emergência gradual de uma história natural moderna."

Apesar de sua obra servir como principal referência de história natural do Brasil até meados do século XIX, Georg Marcgrave não chegou a ver a importância dela pois morreu no início de 1644 em Angola, aonde foi enviado para fazer levantamento cartográfico, outra de suas várias habilidades, vítima de doença tropical. Mesmo assim, seu nome está gravado no rol dos primeiros cientistas da América e destaca o Recife como Marco Zero da ciência no Brasil.

terça-feira, 11 de setembro de 2012

André Vidal de Negreiros

Paraibano de Santa Rita, nascido em 1606 no engenho São João, pertencente aos seus pais, Francisco Vidal e Catarina Ferreira, Vidal de Negreiros foi um dos heróis da Insurreição que expulsou os holandeses do Brasil em 1654.

Em 1624, Vidal foi a Salvador lutar contra as forças de invasão que os holandeses enviaram à Bahia. Vencidos os invasores no ano seguinte, ele seguiu para a Europa onde esteve por oito anos entre Portugal e Espanha.

Após a invasão de Pernambuco em 1630, os holandeses dominaram grande parte do território nordestino. Em sua expansão máxima, o chamado Brasil holandês ia do Maranhão ao Rio São Francisco. Vidal de Negreiros se engajou na luta sendo seu nome citado na defesa contra o ataque do Conde Maurício de Nassau a Salvador em 1638.

Foi nomeado governador da capitania do Maranhão em 1645 mas permaneceu na Bahia onde liderou um Terço de Emboscadas que provocava os invasores em guerrilhas pelo interior, levando Nassau a instituir um premio pela sua cabeça.

Seguindo para Pernambuco em agosto de 1645, Vidal de Negreiros participou ativamente de todos os combates da Insurreição Pernambucana como Casa Forte, Pontal de Nazaré, Guararapes (1ª e 2ª) e finalmente da tomada do Recife em janeiro de 1654.

André Vidal de Negreiros foi incumbido de levar a notícia da vitória em Pernambuco ao rei D. João IV que o condecorou com a Ordem de Cristo. Foi nomeado governador do Maranhão, de Pernambuco em duas oportunidades e de Angola.

Faleceu em 1674 no Engenho Novo em Goiana, sendo seus restos mortais trasladados posteriormente para a Igreja de Nossa Senhora da Conceição nos Montes Guararapes.

quarta-feira, 22 de agosto de 2012

A Tomada de Porto Calvo

Depois da minha partida da Inglaterra, que teve lugar a 6 de dezembro, cheguei, graças a Deus, felizmente e com saúde ao Recife, no Brasil. Immediatamente tratei de levantar todas as tropas que as guarnições podiam dispensar e reunindo-as à pouca gente que commigo veiu, puz-me à frente de 3000 soldados, 800 marinheiros armados de fuzil e 600 brasilienses, com os quaes marchei contra o inimigo, cujo grosso achava-se postado perto do forte de Povoação em Porto Calvo, em numero de 3000 sem contar os habitantes.

A 18 de fevereiro encontramos, em um passo que deviamos atravessar, 1800 homens entrincheirados, bem providos de palissadas e com os flancos cobertos por abatizes. Atacamos os contrarios por tres lados differentes, e, com o auxilio de Deus, batemol-o com perda de 300 homens, entre os quaes muitos officiaes, havendo da nossa parte apenas 6 mortos e 35 feridos. Proseguindo na marcha em direcção ao forte, onde o Conde de Bagnuolo se tinha entrincheirado sobre dous outeiros proximos, verificamos ter abandonado estas trincheiras e haver retirado-se em grande desordem para as Alagôas deixando duas peças de bronze.

Depois de sitiar o forte e avisinharmo-nos com os nossos aproxes dos seus defensores, estes a 3 do mesmo mez, renderam-se mediante condições.

O governador era um hespanhol chamado Miguel Giberton, tenente general da artilharia... Dentro do mencionado forte encontramos 22 bonitas peças de bronze, 5 de ferro, 4 grandes morteiros, 372 granadas grandes, algumas granadas de mão, 500 barris de polvora e grande quantidade de murrões e outra munições de guerra.

Logo que a nossa gente estiver provida de viveres marcharemos ao encalço do inimigo afim de, com o auxilio de Deus, obrigal-o a transpor o Rio de S. Francisco.

Vosso leal e obediente servidor
MAURICIO, Conde de Nassau

No acampamento junto a povoação de Porto Calvo, 8 de março de 1637.

Carta de Nassau aos Estados Gerais, traduzida por Alfredo de Carvalho e publicada na Revista do Instituto Archeologico e Geographico Pernambucano em 1902

terça-feira, 21 de agosto de 2012

D. Anna Paes

Apesar de proibido pelas autoridades da Cia. das Índias Ocidentais, ocorreu no Brasil holandês o relacionamento íntimo entre vários europeus e mulheres da terra. Em alguns casos houve até o casamento e a formação de famílias entre holandeses e luso-brasileiras.

Ficou bem marcado o casamento de Gaspar van Niehof van der Ley, batavo que adquiriu o engenho Algodoais no Cabo de Santo Agostinho, com Maria Gomes de Mello, filha de outro senhor-de-engenho. Desta união surgiu a família Wanderley.

O caso mais peculiar entre holandeses e brasileiros foi o de Anna Gonsalves Paes de Azevedo, filha dos portugueses Jerônimo Paes de Azevedo, senhor do engenho Casa Forte e Izabel Gonsalves Paes.

Com a invasão dos holandeses em 1630, D. Anna Paes que era casada com o capitão Pedro Correia da Silva, ficou viúva devido ao ataque ao forte São Jorge, na área do porto, onde seu marido morreu.

Apesar de educada nos moldes tradicionais, tinha uma cultura incomum para as damas da época, e herdando o engenho Casa Forte pode administra-lo de modo a mantê-lo entre os melhores de Pernambuco.

Em 1637 casa-se com o capitão Charles de Tourlon, comandante da guarda pessoal do conde Maurício de Nassau, com quem teve uma filha, Isabel de Tourlon. Haviam rumores que Anna tinha um romance secreto com o conde de Nassau. O fato é que Nassau acusou o capitão Tourlon de traição junto aos portugueses e o mandou de volta para a Holanda onde faleceu em 1644.

Ao tomar conhecimento da morte de Tourlon, D. Anna Paes casa-se pela terceira vez, em 1645, com Gilbert de With, conselheiro de justiça do governo holandês no Recife. Com ele teve dois filhos, Kornelius e Elizabeth.

Seus três filhos eram batizados na religião calvinista holandesa.

Expulsos os holandeses em 1654, Anna Paes foi considerada holandesa, teve seus bens imóveis confiscados mas pode embarcar para a Holanda com o marido e os filhos.

D. Anna Paes morreu no dia 21 de dezembro de 1674, aos 57 anos, em Dondrecht, Holanda, onde morava com sua família.

domingo, 12 de agosto de 2012

O Arraial do Bom Jesus

Após o desembarque e conquista de Olinda e Recife pelos holandeses, as tropas luso-brasileiras sob comando de Matias de Albuquerque fogem em direção ao interior.

Para fazer frente aos invasores e impedir a conquista dos engenhos de açúcar mais afastados do litoral, Albuquerque determina ainda em 1630 a construção de um ponto forte em uma pequena elevação equidistante uma légua da vila (Olinda) e do porto (Recife), na casa que pertencia a Antônio de Abreu.

Segundo Diogo Lopes Santiago em História da Guerra de Pernambuco:
e para isso buscou um sítio acomodado em um outeiro aonde trabalhou tanto que em breve se fez, cercando-o de uma forte trincheira, com seus terraplanos, parapeitos, plataformas e esplanadas, donde se descortinasse o campo, fazendo-lhe duas cavas bem alteadas e fundas, e junto delas edificaram muitos moradores suas casas, para que com seu amparo pudessem ficar seguros do inimigo, e assim se fez em breve uma razoada povoação, fortificou e forneceu esta força com artilharia, em que havia algumas peças de bronze.

O local foi batizado de Forte Real do Bom Jesus ou Arraial do Bom Jesus. Deste ponto partiam os Terços de Emboscada, pequenos destacamentos que, utilizando táticas de guerrilha, atacavam as tropas holandesas que se aventuravam fora dos limites do Recife para coletar alimentos e lenha.

A partir de 1632 com a conquista de diversos pontos ao redor e do acesso ao rio Capibaribe, os holandeses montaram um cerco fechado ao Arraial e após baterem com sua artilharia demoradamente as defesas, obrigaram a rendição dos ocupantes do Forte Real no dia 08 de junho de 1635. Os sitiados não tinham mais nenhuma munição de guerra ou de boca, já tendo inclusive consumido os animais domésticos como cães, gatos e cavalos.

Foi assinado um acordo de rendição em que os holandeses, comandados pelo coronel polonês Chrestofle Arciszewski, garantiam aos luso-brasileiros sua vida e a posse de seus bens que pudessem carregar. Houve, no entanto, grande crueldade dos invasores que torturaram os rendidos em busca de ouro, prata e objetos de valor.

Atualmente o local é parte do Sítio da Trindade no bairro de Casa Amarela, tendo sido alvo de pesquisa arqueológica pela UFPE em 1968/1969 e 1988.

segunda-feira, 23 de julho de 2012

Batalha do Monte das Tabocas

Senhores camaradas: esta guerra,
É mais vossa, que minha, pois nasci
(Se nesta terra vós) eu noutra terra,
Distante mais de mil léguas daqui,
Se amor da liberdade em vós se encerra,
Por vos servir é certo, que perdi
Cinco engenhos reais, meu ouro e prata,
E convosco me vim para esta mata.

Aqui vos tenho dado o mantimento,
E as armas que em segredo ajuntar pude,
E nas angústias do maior tormento
Não tenhais arreceios que me mude;
de vos servir, e a Cristo tenho intento,
E estou certo que a Mãe de Deus me ajude
A libertar a vossa pátria amada
Da canalha holandesa depravada.

Acham-se neste bélico teatro,
O católico povo e luterano,
Qual ardendo com fúria do Baratro,
Qual defendendo o ser pernambucano;
Não viu tão suntuoso anfiteatro,
Batalha mais gostosa algum romano,
No campo vencedor o luso fica,
E por vencido o belga se publica.

Durou a briga horrenda e trabalhosa,
Quatro horas inteiras, sem perigo
Dos nossos, que enfim era empresa honrosa
Da Sacra Virgem, como canto, e digo;
Na primeira investida gloriosa,
Tiveram morte em nosso bando amigo
Dois Hércules cristãos, dois Viriatos
João Pais Cabral e João de Matos.

O Valeroso Lucideno
Frei Manoel Calado


A batalha do Monte das Tabocas ocorreu no dia 03 de agosto de 1645 na área rural da atual cidade de Vitória de Santo Antão, sendo considerado o primeiro grande combate da Restauração Pernambucana.

sexta-feira, 6 de julho de 2012

Cabeças a Prêmio

Andava o capitão André Vidal de Negreiros pelo interior com seu terço de emboscadas deixando os holandeses acuados nas fortificações do Recife sem poder sair para apanhar lenha, água nem alimentos.

As expedições de busca que os invasores empreendiam nunca conseguiam apanhar nenhum dos insurretos pelo sistema de vigias que eles empregavam, fugindo para o mato quando necessário.

O governador, conde Maurício de Nassau, resolveu então mandar fixar em toda a capitania e nas vilas vizinhas um edital em que prometia um premio de 2 mil florins a quem lhe entregasse a cabeça de Vidal de Negreiros, perdoando também qualquer crime que tivesse cometido.

Tomando conhecimento do edital de Nassau, Negreiros respondeu na mesma moeda publicando o seguinte:

André Vidal de Negreiros, capitão da infantaria d'El-Rei de Portugal, meu senhor, por este crédito por mim assinado, prometo seis mil cruzados em ouro pagos à vista, a quem me trouxer a cabeça de João Maurício, conde de Nassau, ou me fizer certo como o matou.

segunda-feira, 2 de julho de 2012

2ª Batalha dos Guararapes

Após a derrota na batalha dos Guararapes ocorrida em 19 de abril de 1648 os holandeses ficaram restritos apenas a ofensivas por mar.

O Conselho do Recife, pressionado pelo Conselho dos XIX na Holanda, cobrava dos chefes militares alguma ação que diminuisse o cerco sobre as localidades ainda sob domínio holandês no litoral. Os oficiais holandeses eram contra, por receio das emboscadas armadas pelos luso-brasileiros e pela carência de víveres e munições.

Sem ter como conviver mais com o cerco, no dia 17 de fevereiro de 1649 os holandeses deslocam uma força armada com 3500 homens saindo do Recife, passando por Afogados, depois pelo curral de Antônio Cavalcanti (hoje Boa Viagem) e finalmente ocupando os montes Guararapes e a passagem para o mar.

Ao tomar conhecimento da disposição dos holandeses, o general Barreto de Menezes posiciona suas tropas do outro lado dos Guararapes, o que hoje seria o Ibura, na localidade conhecida como Oitiseiro. Durante a tarde e a noite houve apenas pequenas escaramuças com patrulhas de ambos os lados.

As escaramuças duraram até o meio-dia seguinte (18/2), quando o sol forte e a falta d'água obrigaram ao coronel van den Brinck a tentar uma retirada de volta a Afogados. Por volta das 3 horas da tarde as tropas holandesas começam a abandonar as posições nas alturas descendo para o boqueirão. Vendo a ação do inimigo, Barreto de Menezes ataca sua retaguarda que opõe resistência mas é batida pela cavalaria luso-brasileira.

A confusão se instala nas forças holandesas que sofrem derrota maior que na batalha do ano anterior. Além do seu comandante van den Brinck, morrem mais 173 oficiais e 855 soldados, tendo sido aprisionados 90. Ficaram no campo de batalha 05 peças de artilharia de campanha e cinco bandeiras.

Os luso-brasileiros perderam 45 combatentes e 200 feridos inclusive o mestre-de-campo Henrique Dias. Também participaram dos combates João Fernandes Vieira, André Vidal de Negreiros e Antônio Dias Cardoso. Em homenagem à vitória, o general Barreto de Menezes mandou construir uma capela no local, que hoje é a igreja de Nossa Senhora dos Prazeres.

sábado, 16 de junho de 2012

Construindo Mauritsstadt

Maurício de Nassau tinha como grande paixão a arquitetura e o urbanismo. Além de cercar-se de grandes nomes como Jacob van Campen e Pieter Post, empenhava-se pessoalmente nos projetos e na sua execução como pode ser notado na descrição do frei Manoel Calado em "O Valeroso Lucideno":

Andava o conde de Nassau tão ocupado em fabricar a sua nova cidade que para afervorar os moradores a fazerem casas, ele mesmo, com muita curiosidade, lhe anelava deitando as medidas e endireitando as ruas, para ficar a povoação mais vistosa, e lhe trouxe a entrar por o meio dela, por um dique, ou levada, a água do rio Capibaribe a entrar na barra, por o qual dique entravam canoas, batéis e barcas para o serviço aos moradores por debaixo das pontes de madeira, com que atravessou em algumas partes este dique a modo da Holanda, de sorte que aquela ilha ficava toda rodeada de água.