terça-feira, 29 de julho de 2014

Carta de Doação de Olinda

Duarte Coelho, Fidalgo da Casa de El-Rei Nosso Senhor, Capitão Governador destas Terras da Nova Lusitânia por El-Rei Nosso Senhor.

No ano de 1537 deu e doou o senhor governador a esta sua Vila de Olinda, para seu serviço e de todo o seu povo, moradores e povoadores, as cousas seguintes: Os assentos deste monte e fraldas dele, para casaria e vivendas dos ditos moradores e povoadores, os quais lhes dá livres de foros o isentas de todo o direito para sempre, a as Varzeas das Vacas e de Beberibe e as que vão pelo caminho que vai para o Paço do governador, e isto para os que que não têm onde pastem os seus gados, e isto será nas campinas para pacigo, e as reboteiras de matos para roças a quem o conselho as arrendar, que estão das campinas para o alagadiço e para os mangues, com que confinam as terras dadas a Rodrigo Álvares e outras pessoas.
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A ribeira do mar até o arrecife dos navios, com suas praias, até o varadouro da galeota, subindo pelo rio Beberibe arriba, até onde faz um esteiro que está detrás da roça de Brás Pires, conjunta com outra de Rodrigo Álvares, tudo isto será para serviço da Vila e povo dela, até cinquenta braças do largo, do rio para dentro, para desembarcar e embarcar todo o serviço da Vila e povo dela, e daí para riba tudo que puder ser, demais dos mangues, pela várzea e pelo rio arriba é da serventia do Concelho.
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O Monte de Nossa Senhora do Monte, águas vertentes para toda a parte, tudo será para serviço da Vila e povo dela, tirando aquilo que se achar ser da casa de nossa senhora do monte, que é cem braças da casa ao redor de toda parte, e assim o Valinho que é da banda do nortee rodeia todo o monte pelo pé, até o caminho que vai da dita Vila para o Val de Fontes, para o curral velho das vacas, que tudo é da dita casa de Nossa senhora do Monte.

E porque, por detrás do dito montinho, onde há de fazer o Senhor Governador a sua feitoria, até o varadouro da galeota, há de se abrir o rio Beberibe e lançar ao mar por entre as duas pontas de pedras, como tem assentado o Senhor Governador; entre o dito rio lançado novamente e as roças da banda de riba, de Paio Correia e da Senhora Dona Brites e o mato que está adiante, que ora é do Senhor Jerônimo de Albuquerque, há de ir uma rua de serventia ao longo do dito rio novo para serventia do povo, de que se possa servir de carros, que será de cinco ou seis braças de largo e rodeará pelo pé do montinho até o varadouro da galeota.

Todas as fontes e ribeiras ao redor desta Vila dois tiros de besta são para serviço da dita Vila e povo dela;   falas-a o povo alimpar e correger à sua custa.
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Isto foi assim dado e assentado pelo dito Governador e mandado a mim Escrivão que disto fizesse assento e foi assinado pelo dito governador a 12 de março de 1537 anos.


Denominado imprecisamente de Foral de Olinda, essa Carta de Doação do donatário Duarte Coelho definiu formalmente a vila de Olinda, citando também o Recife (arrecife dos navios). Em 1550, a Câmara de Olinda solicitou ao donatário uma cópia do documento, pois o original havia sido extraviado. Durante a invasão holandesa e o incêndio da vila em 1631, o documento foi novamente perdido. Após a restauração pernambucana em 1654, foi localizado no Mosteiro de São Bento de Olinda.

domingo, 13 de julho de 2014

O Incêndio de Olinda

Em 15 de fevereiro de  1630, com o desembarque das tropas da Companhia das Índias Ocidentais do coronel Waerdenbuch na praia de Pau Amarelo, um pouco ao norte, rapidamente os invasores seguiram para Olinda, sede da capitania de Pernambuco, encontrando resistência por parte dos luso-brasileiros no Rio Doce.

Dominaram a vila com relativa facilidade pois a maioria dos moradores fugiu levando o que puderam. Alguns bolsões de contenção foram eliminados, destacando-se a brava luta do capitão André Temudo em defesa da Igreja da Misericórdia no Alto da Sé.

Senhores do local e depois do porto, Recife, os comandantes das tropas da WIC, constataram que a geografia de Olinda era formada por elevações autodominantes, ou seja, cada monte era cercado por montes vizinhos, o que obrigava a que todos fossem ocupados para garantir a defesa da vila, acarretando a necessidade de um contingente que poderia ser melhor utilizado para o ataque de outros pontos.

O almirante Lonck, comandante da expedição, escreve ao Conselho dos XIX, diretoria da WIC nos Países Baixos, pedindo permissão para abandonar Olinda, concentrando as tropas no Recife. O pedido é negado pois os Heeren XIX não podiam compreender porque se deveria abandonar a sede da capitania, conhecida como uma das mais ricas vilas das colonias portuguesas. Após várias tentativas de convencer a WIC e o governo neerlandês da necessidade de concentrar esforços no Recife para poder atacar outros locais defendidos pelos luso-brasileiros, o príncipe Frederik Hendrik, autoriza aos seus comandantes que abandonem Olinda.

No dia 17 de novembro de 1631 começa a demolição dos prédios de Olinda e a retirada do material de construção, que era muito escasso, para o Recife. Em 24 de novembro a vila de Olinda é incendiada em vários pontos e quase totalmente arrasada. Segundo Duarte de Albuquerque Coelho, Olinda possuía 2.500 habitantes, quatro conventos, um colégio dos jesuítas e uma Casa de Misericórdia.

Os invasores proibiram que se reconstruísse em Olinda, o que só voltou a acontecer depois da chegada de Maurício de Nassau em 1637. O Recife e a Ilha de Antônio Vaz já estavam demasiadamente ocupadas devido ao intenso crescimento do porto e a construção de prédios para diversas finalidades.

sexta-feira, 23 de maio de 2014

W.I.C. II

Outro importante artigo comercial para os Países Baixos era o açúcar. Em Amsterdam, Holanda, havia refinarias de açúcar abastecidas pelo produto originário da Ilha da Madeira e depois do Brasil, colônias de Portugal. Quando, em 1580, Portugal fica sob domínio espanhol com um único rei, Felipe IV, o fornecimento de açúcar é interrompido pelo inimigo dos neerlandeses. A WIC decide então obter o açúcar, artigo de luxo na época, nos próprios centros produtores.

Invade Salvador, Bahia, em 1624 onde permanece até 1625 quando foram expulsos por uma armada luso-espanhola. Tendo conseguindo apreender a frota espanhola da prata em Cuba, 1628, a Companhia das Índias Ocidentais se capitaliza para outra invasão ao Brasil, desta feita a Pernambuco, maior produtor mundial de açúcar de então. Chegando em 1630, os neerlandeses permaneceram no Nordeste brasileiro por 24 anos, dominando, no seu apogeu, o território que ia do Maranhão ao Rio São Francisco.

Em menor escala, a Companhia das Índias Ocidentais também atuou na América do Norte, estabelecendo fortes na região do Rio Hudson e Ilha de Manhattan, atual Nova York. No intercurso da presença no chamado Brasil holandês, ou Nieuw Holland, como era designada nos Países Baixos, a WIC conquistou ainda posições na África como Elmina, São Tomé e Luanda.

O regulamento de concessão dos Estados Gerais à WIC determinava, em seus 45 artigos, o monopólio, por 24 anos, do comércio na costa ocidental da África, do Trópico de Câncer ao Cabo da Boa Esperança e nas costas orientais e ocidentais da América. Copiando o modelo da VOC, a diretoria da WIC era composta por dezenove membros que ficaram conhecidos por Heeren XIX – Conselho dos Dezenove. Como cidade mais importante, Amsterdam tinha oito representantes no conselho, a Zelândia, quatro, Groninga, Mosa e Hoorn, dois cada uma e os Estados Gerais designavam um representante.

A época de maior poder da Companhia das Índias Ocidentais foi entre 1630 e 1640. No período entre 1637 e 1644, esteve no Brasil holandês como governador e general o Conde João Maurício de Nassau-Siegen. Após a restauração do trono português em 1640, através da coroação de D. João IV, e a Insurreição Pernambucana a partir de 1645, a WIC foi perdendo territórios e acumulando prejuízos.


A WIC foi dissolvida em 1674, sendo aberta outra companhia no ano seguinte. Em 1791 a Companhia das Índias Ocidentais foi definitivamente fechada. 

sábado, 17 de maio de 2014

W. I. C.

A Companhia das Índias Ocidentais, em neerlandês Geoctroyeerde Westindische Compagnie ou WIC, foi uma das associações de comércio marítimo internacional fundadas no século XVII nos Países Baixos.

Desde 1565 o príncipe Guilherme de Orange tentava junto ao rei da Espanha, Felipe II, uma reforma política, redução dos impostos e maior liberdade religiosa para os calvinistas nos Países Baixos. A repressão espanhola aos neerlandeses desencadeou a Guerra dos Oitenta Anos pela independência do que viria a ser a República das Províncias Unidas dos Países Baixos.

Às margens do Mar do Norte e na desembocadura de três grandes rios (Reno, Waal e Mosa) os Países Baixos desenvolveram uma tecnologia naval avançada o que incrementou o comércio na Europa e depois com o resto do mundo. Em 1602 foi fundada a Vereenigde Oost-Indische CompagnieVOC, Companhia das Índias Orientais. Detinha o monopólio do comércio entre a Ásia, Japão e Oceania para a Europa. Apenas seus navios poderiam cruzar o Cabo da Boa Esperança e o Estreito de Magalhães pelo prazo de 21 anos.

Em 03 de junho de 1621 é fundada a WIC para desenvolver o comércio neerlandês com as Américas e costa ocidental da África. Não só isso: deveria combater o império espanhol estrangulando sua fonte de riqueza na América Latina, de onde recebia ouro, prata e madeiras de tinturaria entre outras valiosas  mercadorias. A idéia inicial de Willem Usselincx era uma empresa que promovesse a colonização e povoamento do Novo Mundo, mas seu projeto não foi aprovado pelos Estados Gerais, parlamento da República, que desejava um instrumento para levar a guerra contra os espanhois além da Europa.

sábado, 1 de março de 2014

A Batalha pelo Recife

Após desembarcar tropas em Pau Amarelo em 14 de fevereiro de 1630 e conquistar Olinda dois dias depois, a esquadra neerlandesa da Companhia das Índias Ocidentais (WIC) ataca o Recife, batendo com sua artilharia o Forte do Mar e o Forte de São Jorge que defendiam a barra do porto. O soldado Ambrosio Richshoffer, natural de Strasburgo, Alemanha e alistado na WIC, descreve os combates pela conquista da aldeia Povo, como era chamado o Recife de então:

Durante os dias 18 e 19 o Sr. General continuou bombardeando os fortes; fez seguir dois navios para a entrada do porto para reconhecerem se era possível penetrar nele com iates ou outras embarcações. Em seguida ordenou que seis navios deviam bater continuamente o grande forte de São Jorge.

O inimigo, porém, percebendo nossa intenção, meteu a pique na entrada do porto, vários navios carregados com açúcar e fumo, os quais, quando o açúcar se dissolveu, flutuaram até ficarem em seco. Por este motivo os nosso foram obrigados a retirarem-se, tendo sofrido avarias.

O Sr. General, com demais navios grandes, teve que fazer-se ao largo durante a noite e colocar-se fora do alcance dos tiros dos fortes; estando muitos dos navios tão varados de balas que se podia ver através dos dois costados, e perdendo muitos tripulantes, cabeças, braços e pernas, tão nutrido o canhoneio. Devido ao movimento das vagas, em constante agitação nas vizinhanças dos fortes, os artilheiros de bordo não puderam fazer tiros certeiros; causaram contudo considerável dano ao inimigo.

Dia 20, cerca de 100 homens atacaram o Forte de São Jorge na escuridão da noite, mas suas escadas não eram longas o suficiente para vencer as muralhas do forte e eles foram repelidos, perdendo quase a metade da força entre mortos e feridos. Os invasores decidem então instalar trincheiras cercando o forte português com 500 mercenários da WIC sob o comando do tenente-coronel van der Elst. A 28, três meios-canhões da frota são desembarcados e instalados na trincheira holandesa aumentando o poder do ataque.

Apesar da bravura dos luso-brasileiros contra a enorme força invasora, a maior a cruzar o equador até então, os navios holandeses em conjunto com a infantaria e a artilharia de campanha conseguiram cercar e vencer as defesas do porto, sendo assinado um acordo de rendição em 02 de março de 1630.

quinta-feira, 23 de janeiro de 2014

Nassau no Recife

Em 1636 os holandeses já estavam no Brasil há sete anos. Haviam conquistado Olinda, Recife, Itamaracá, Rio Grande do Norte, Paraíba, Vila de Nazaré (Cabo de Santo Agostinho), Ilha de Fernando de Noronha, Porto Calvo e Alagoas. Apesar do extenso território, a Cia. das Índias Ocidentais (WIC), que administrava o Brasil holandês, não estava em boa situação financeira. A guerra destruíra boa parte dos engenhos de açúcar e a produção caíra demasiadamente.

A administração, a cargo do Conselho Político, vivia em choque com os comandantes militares e as decisões eram lentas e inexpressivas. Diante das dificuldades, os Estados Gerais, pressionados pelo príncipe Frederik Hendrik, indicam à WIC Maurits von Nassau-Siegen, oficial alemão à serviço da Casa de Orange. Nassau, que construía seu palácio em Haia e precisava de recursos, aceitou a proposta para ser Governador e Capitão Geral de Terra e Mar da Nova Holanda.

Após uma travessia de três meses entre Texel (Holanda), Falmouth (Inglaterra) e Arquipélago de Cabo Verde, a flotilha de 4 navios de Nassau aporta no Recife em 23 de janeiro de 1637.

Seguem trechos da carta de Nassau aos Estados Gerais poucos dias após sua chegada: Aqui cheguei a 23 seguinte, graças a Deus, em boa disposição e juntamente com os demais, e fui recebido com muitas honras, achando o país um dos mais belos do mundo. A situação deste país é extremamente vantajosa e forte, e se Deus nos fizer a graça de pode-lo conquistar inteiramente, não duvidarei que todo o Estado dele tirará uma grande vantagem e serviço.
Maurício, Conde de Nassau
Antônio Vaz de Pernambuco, Brasil
3 de fevereiro de 1637

Maurício de Nassau conseguiu estender o território do Brasil holandês desde o Maranhão até o Rio São Francisco mas, seu maior legado foi a instalação no Recife de uma corte de cientistas, artistas e construtores que deixou sua marca para sempre.

sexta-feira, 3 de janeiro de 2014

Os Engenheiros do Brasil Holandês

Em 1600, por decisão do príncipe Maurits van Oranje-Nassau, é criada na Universidade de Leiden, Holanda, a Duytsche Mathematique, idealizada pelo matemático Simon Stevin. Era uma escola de caráter técnico-prático, cujo objetivo era a formação de engenheiros militares, agrimensores, mestres em carpintaria, mestres construtores de fortes e vilas, além de técnicos na confecção de mapas e traçados urbanos. Esses homens eram fundamentais para a conquista e desenvolvimento dos mares e territórios que a Holanda procurava dominar em todo mundo.

Com a invasão dos neerlandeses, primeiro em Salvador, entre 1624 e 1625, e depois em Pernambuco, onde dominaram de 1630 até 1654, ficou demonstrado que eles estudavam o litoral norte-nordeste brasileiro há muito tempo, através da cartografia levantada por técnicos e homens do mar. Destacaram-se: Abraham Ortelius (mapa mundi e carta do novo mundo), Isaak Comelin (mapas de Olinda, Cabo de Sto. Agostinho e da Baia de Todos os Santos), Jan Huigen van Linschoten (roteiro de navegação da Europa para os principais portos do Brasil), Dirck Symonsz (carta náutica da costa de Pernambuco), Claes Janzoon Visscher (mapa com frota da invasão de Olinda), Hessel Gerritsz (cartógrafo da WIC com trabalhos sobre a invasão de Salvador e de Pernambuco) e Cornelis Golijath (mapa detalhado do Recife e Olinda, 1648).

Além desses cartógrafos, os neerlandeses utilizaram vários engenheiros para traçar e construir prédios civis e militares no Brasil: Tobias Commersteijn, que veio na frota de invasão e projetou o Forte de Cinco Pontas e Pieter van Bueren, que executou o projeto do forte, além de plantas de Olinda. Andreas Drewisch, Forte do Brum e planta da ilha de Antonio Vaz, e Hendrik van Berchem, engenheiro do Conde de Nassau, morto no ataque a Salvador, 1638.

Os holandeses também utilizaram o serviço de técnicos portugueses como Cristovão Álvares, responsável por obras no Castelo do Mar e na vila de Olinda, e de outras nacionalidades a exemplo do inglês Richard Carr, que construiu o Forte Schoonenborch no Ceará e do francês Pierre Grondeville que traçou planta de Porto Calvo no ataque de Nassau em 1637. Finalmente, não podemos deixar de destacar o alemão Georg Marcgrave, cartógrafo, astrônomo e naturalista que Nassau trouxe para fazer um vasto levantamento das terras, céus, animais e plantas do Brasil holandês.    

domingo, 27 de outubro de 2013

Golijath

Natural de Schiedam, Holanda, nascido em data indeterminada por volta de 1610, Cornelis Bastiaanszoon Golijath, foi um dos cartógrafos que estiveram no Brasil holandês, desde os primeiros anos da conquista de Pernambuco.

Quando do ataque das tropas de Matias de Albuquerque, que saíam vencidas do Arraial do Bom Jesus, à Porto Calvo em 1635, Golijtah, que trabalhava como escrivão dos holandeses, foi capturado e enviado à Bahia e em seguida à Portugal. Conseguindo chegar à Holanda, ele retorna ao Brasil a tempo de participar do assalto de Nassau a Salvador em 1638, elaborando mapas do litoral e das fortificações da cidade, sendo esses documentos posteriormente enviados à Holanda. Após o retorno ao Recife da infrutífera expedição, Golijath continua seu trabalho na corte de Nassau, realizando levantamentos da costa e dos povoamentos do nordeste brasileiro, que foram levados à sede da WIC e aos Estados Gerais em abril de 1639.

Em 1641, enquanto seguia para Portugal como representante do Conde de Nassau para a aclamação do Rei D. João IV, o cartografo foi feito prisioneiro por piratas argelinos quando o navio em que viajava seguia da Ilha da Madeira para Lisboa. Após “passar pelas maiores misérias” segundo carta dele à Nassau, Golijath consegue voltar à Holanda onde se casa em 1644.

Pela terceira vez, Golijath volta ao Recife em julho de 1645, agora como capitão do navio Oranjeboom, permanecendo até março de 1646 quando parte para a Holanda. No ano seguinte é contratado como engenheiro da Ilha de Walcheren, província de Zeeland, Holanda.

No ano de 1648 foi publicado em Amsterdam, por Claes Janszoon Visscher um mapa, elaborado por Golijath, da região do Recife e Olinda, onde constam inúmeras informações da localização de casa, engenhos de açúcar, currais de gado, canaviais, fortes e trincheiras. Segundo o pesquisador José Antônio Gonsalves de Melo em seu excepcional trabalho A Cartografia Holandesa do Recife, esse é o melhor mapa do Recife elaborado durante o período holandês. Foi reeditado diversas vezes e inclusive, aparece no quadro do pintor neerlandês Cornelis de Man.

sexta-feira, 20 de setembro de 2013

Recife, século XVII

Parece que o Recife -que os documentos antigos chamam simplesmente de "Povo"- era um triste burgo nos primeiros anos do século XVII. Burgo triste e abandonado, que os nobres de Olinda deviam atravessar pisando em ponta de pé, receando os alagados e os mangues; burgo de marinheiros e de gente ligada ao serviço do porto; burgo triste, sem vida própria, para onde até a água tinha de vir de Olinda.

O Recife foi, porém, desde os primeiros tempos uma tentação para os piratas mais afoitos, de olhos compridos nas riquezas da terra. Porque o Recife era, apesar de tudo, a porta de entrada da capitania.

José Antônio Gonsalves de Mello
Tempo dos Flamengos, 1947

domingo, 15 de setembro de 2013

Vrijburg

Chegando ao Recife em 23 de janeiro de 1637, Mauricio de Nassau ocupou inicialmente uma casa, na época, às margens do Rio Capibaribe, local atualmente numa esquina entre as ruas do Imperador e 1º de Março.

Apaixonado pela arquitetura e urbanismo, Nassau tratou de construir para sua residência oficial um prédio à altura de sua condição de nobre europeu e principal autoridade do Brasil holandês. Em 1639 adquiriu uma extensa área ao norte da Ilha de Antônio Vaz, hoje correspondente à Praça da República, Teatro Santa Isabel e Palácio do Campo das Princesas. Segundo Barleus, “Era uma planície safara, inculta, despida de arvoredo e arbustos”. Próximo, ocupando o local do atual Palácio da Justiça, já havia o Forte Ernesto, que foi instalado no Convento de Santo Antônio.

Em 1640 são iniciadas as obras do parque que incluíam um horto e zoológico onde eram mantidos diversos animais domésticos e selvagens do Brasil e África, e cultivadas plantas e arvores das mais variadas espécies, destacando-se um imenso coqueiral com exemplares transplantados por Nassau, procedentes de locais próximos e trazidos em barcaças.

O palácio seria denominado Vrijburg ou Friburgo, também conhecido como Palácio das Torres pelas duas partes quadrangulares elevadas nas laterais do prédio. Estas torres serviam como posto de observação e farol para os navios em demanda ao porto do Recife. Nos arredores do edifício principal havia cacimbas com água doce e três tanques de criação de peixes.

Seus salões estavam decorados com pinturas de motivos do país e objetos trazidos de várias partes do mundo, formando uma coleção de curiosidades como era moda na Europa de então. O Conde de Nassau, além de tratar dos assuntos oficiais da conquista, recebia as pessoas gradas nos jardins do palácio para festas e encontros culturais.

Voltando à Europa em 1644, Nassau não pode ver a constante modificação do Palácio Friburgo e do entorno para fazer frente às lutas da Restauração Pernambucana que culminou com a rendição dos holandeses em 1654 quando restava apenas o prédio principal.

Friburgo serviu de residência oficial a vários governadores da província de Pernambuco passando por diversas reformas até ser demolido em 1786. No local foi construído o prédio do Erário Régio, que por sua vez também foi demolido, surgindo em 1840 a nova sede do governo. O edifício passou por reformas em 1852, 1873 e 1922 quando assumiu o aspecto atual. O Palácio do Campo das Princesas, como é denominado hoje, está sofrendo intervenção para recuperação, devendo ser reinaugurado em 2014.

quarta-feira, 4 de setembro de 2013

Fortes do Recife

Forte de Bruyn – é um belo forte quadrangular situado entre o rio Beberibe e o mar, no caminho que vai para Olinda, com dois baluartes completos e dois meio-baluartes. Os meio-baluartes estão localizados do lado da maré e as extremidades deles estão ligadas umas ás outras por uma linha de paliçadas. No meio dessa linha fica uma cortina de madeira, à prova de tiro de mosquetes, para flanquea-la de ambos os lados. Em razão de sua localização não pode ter fosso, mas é cercado por duas linhas de paliçadas e com estacas por cima. Os quartéis, o corpo-da-guarda e as portas foram feitas conforme se requeria. A casa da pólvora é razoável e as baterias estão em perfeito estado, estando nelas montadas as seguintes peças: 02 24lb, 01 18lb, 02 16lb, 01 10lb, 02 8lb, 02 6lb, 02 cortadas 6lb e 02 3lb (14 peças de bronze).

Forte Waerdenburgh ou O Triângulo – foi primitivamente um forte quadrangular, na confluência dos rios Capibaribe e Beberibe, numa ilha, com três baluartes em direção das Salinas, de onde podia ser aproximado; o quarto angulo era em direção de Antônio Vaz e não tinha baluarte, porque desse lado esperava-se pouco perigo. Nesse reduto há uma pequena casa de pólvora e em cada bateria estão montadas as seguintes peças: 02 5lb e 02 3lb (bronze); 03 5lb e 02 4lb (ferro).

Castelo da Terra ou São Jorge – é um castelo quadrangular no caminho ou dique entre o forte de Bruyn e o Recife, todo construído de pedra de cantaria. Na direção do forte do Brum e da cidade de Olinda tem um bastião completo e um meio-baluarte, o qual baluarte completo e dois meios-baluartes flanqueiam três lados; o lado dório é curvado a modo de tenalha, de modo que também este parcialmente pode  ser flanqueado. Este castelo está servindo há algum tempo como hospital e não tem atualmente guarnição, mas dispõe das seguintes peças de ferro: 09 6lb, 01 10lb, 01 4lb.

Forte Ernesto – é um belo forte quadrangular que circunscreve o convento com dois baluartes completos e dois meios-baluartes, situados do lado do rio, cujos pontos extremos estão ligados entre si por um muro que corre ao longo do rio, no qual fica a saída. No meio desse muro fica uma estacada de madeira, que varre todo o muro que, sem isso, não teria flancos. Este forte tem uma muralha bem pesada e também um fosso largo, mas não profundo. O forte tem cinco baterias, além da estacada de madeira, as quais estão montadas assim: 01 24lb, 01 20lb, 01 16lb e 02 12lb (bronze); 02 13lb e 01 2lb (ferro).

Forte Frederico Henrique ou As Cinco Pontas – é um grande forte pentagonal regular, com baluartes completos e tem uma pesada muralha e parapeito em redor com uma paliçada de faxina. Dentro estão dois baluartes isolados com paliçadas contra o parapeito. De fora, em direção ao Amélia, ficam dois hornaveques, arruinados na maior parte, e com as frentes parcialmente desmanteladas. Tem cinco baterias nos pontos e dez nos flancos, com as seguintes peças: 02 24lb, 01 18lb, 05 12lb, 03 8lb, 04 6lb e 01 6lb (bronze); 02 16lb, 02 8lb e 3 6lb (ferro).

Forte Príncipe Guilherme – é um grande forte quadrangular regular, situado no rio dos Afogados, com quatro baluartes completos. Tem fortes muralhas e parapeitos, com duas banquetas fora, na berma, com uma paliçada, e fora desta um fosso bem largo e razoavelmente profundo. Dentro há bons quartéis, corpo da guarda e casa da pólvora, com uma nova porta abobadada, sobre a qual está o alojamento do comandante. As baterias estão montadas segundo as necessidades, assim: 02 24lb, 02 18lb, 01 12lb, 02 8lb, 02 5lb e 02 3lb (bronze); 01 6lb e 01 5lb (ferro).


Relatório dos Conselheiros Hamel, Bullestrate e Bas ao Conselho dos XIX
1646

segunda-feira, 29 de julho de 2013

Olinda e Recife, 1630

Olinda era nesse tempo a capital da capitania de Pernambuco. Situada um pouco ao norte do cabo de Santo Agostinho é a cidade edificada em terreno elevado vizinho da costa. Contava, então, cerca de 2.000 habitantes, destacando-se várias pessoas abastadas e grande número de comerciantes em boa situação. Existiam quatro conventos de frades e um de religiosas, 130 eclesiásticos e 7 igrejas católicas.

Ao sul estende-se uma faixa de terra,  entre o rio Beberibe e o mar, no extremo da qual se formara um núcleo de gente humilde e onde se construiram armazéns e entrepostos dos negociantes de Olinda. Era esse povoado protegido pelo forte de São Jorge e tinha umas 150 casas. A pequena distância da costa há um arrecife que deixa de ser visível nas horas do preamar. Numa das pontas do arrecife, e defronte do forte de São Jorge, elevava-se o castelo de São Francisco todo de blocos de pedra e dominando inteiramente a entrada do porto. Entre os recifes e o continente, sobre outro banco de areia formado na embocadura do rio Capibaribe fica a ilha de Antônio Vaz.


Os Holandeses no Brasil
Pieter Marinus Netscher, 1853

domingo, 7 de julho de 2013

Pernambuco. O que significa?

... de este Pernambuco, vem próprio vocábulo, pernambuc (que quer dizer mar furado na lingoa do gentio). Ruy Pereira, 1561;

Em o meyo desta obra alpestre e dura,
Hua boca rompeo o Mar inchado,
Que na língua dos bárbaros escura,
Paranambuco, de todos He chamado
Bento Teixeira, 1601;

Este nome Pernambuco, derivado ou corrupção de Paranãbuca, com que os Cahetés designavam o Porto. Cazal, 1817;

Pernambuco não vem de Paraná-búca, nem significa boca do mar; porem vem de Pará-nã, rio, e de Mbucú ou Pucú, largo, longo; significando, Rio largo ou longo ou comprido. Os conhecimentos hydrographicos eram apenas rudimentares n’um povo infante e não admira que a linguagem se resinta desse estado de cousas. Ignacio Malta, 1859

As interpretações de Pernambuco, constantes das citações transcriptas, são: mar furado, cova do mar, pedra ou mar furado, excavado pelo mar, pedra furada ou buraco, rochedo cavado das águas, bocca do mar, rio largo ou longo ou comprido, braço de mar, mar cavando os rochedos, pedra furada, furo ou língua do mar. 
Baptista Caetano
Revista do Instituto Arqueológico, Histórico e Geográfico Pernambucano,
1901

domingo, 30 de junho de 2013

O Castelo do Mar

Como local de importância vital para a ligação entre o Recife/Olinda e o resto do mundo, o porto do Recife precisava ser fortemente defendido, tanto de ataques vindos do mar, quanto por terra.

Em terra foi construído o Forte de São Jorge, próximo à entrada da barra. Sobre os arrecifes foi erguido o Forte de São Francisco também próximo a entrada dos navios. Os dois fortes deveriam cruzar fogo sobre qualquer embarcação ou tropa que ameaçasse o porto do Recife.

Apesar de ter sua construção ordenada desde 1591 pelo governador Francisco de Souza, o forte de São Francisco teve suas obras iniciadas apenas em 1612 por determinação do governador Duarte de Albuquerque Coelho e projeto de Tibúrcio Espanhochi. Foi concluído dois anos depois executado pelo engenheiro Francisco de Frias. O forte era conhecido por várias denominações como: Forte da Barra, Forte do Picão e Castelo do Mar. Era construído em pedra e, segundo o prof. Marcos Albuquerque, teve durante algum tempo forma eneagonal. Existe uma planta baixa portuguesa em que é mostrado como hexagonal.

Por sofrer ação contínua do mar, tinha que ser reparado com frequência, o que não havia ocorrido quando da invasão holandesa em 1630. O Castelo do Mar, bem como os outros fortes da área, foram cercados por mar e terra e após alguns dias de combate tiveram que se render as tropas da WIC.

Ocupado pelos holandeses foi restaurado e num relatório de 1646 dos conselheiros Hamel, Bullestrate e Bas é descrito como “um castelo octogonal sem flancos no arrecife e somente acessível com barcos, tendo sete peças de bronze, sendo: 01 de 20 libras, 02 de 18 libras, 01 de 16 libras, 01 de 12 libras e 02 de 10 libras."

Após a expulsão dos holandeses o Forte de São Francisco foi reocupado pelos portugueses e passou por várias reformas até ser desarmado e ter seus canhões transferidos para servir de ponto de atracação dos navios no arrecife. O local foi utilizado como posto fiscal da Fazenda até ser demolido em 1910 para obras de adequação do porto.

Em 1822 o forte, além de recuperado, ganhou um farol para orientação dos navios em transito pelo porto. O farol atualmente tem forma semelhante ao antigo Castelo do Mar e está presente no escudo de Pernambuco.