quinta-feira, 22 de fevereiro de 2018

A Bacia Que Atravessou o Atlântico Três Vezes

Existe na Igreja Evangélica de Siegen, centro-oeste da Alemanha, uma bacia dourada que serve de pia batismal. O objeto mede cerca de 50 cm de diâmetro por 12 cm de fundo.

O Conde Maurício de Nassau recebeu essa bacia como presente quando da visita de uma delegação do Rei do Congo, D. Garcia II, ao Recife em 1643. Os africanos buscavam a intermediação de Nassau para disputa com o Conde do Sonho, que também enviou seus embaixadores ao Recife, pouco depois.

Em 1956, o historiador e arqueólogo alemão Friedrich Muthmann determinou, por comparação, que a bacia era originária da região de Cuzco, Peru, datando a peça por volta de 1580. Tinha sido produzida em prata, principal riqueza explorada pelos espanhóis no Novo Mundo. Segundo a Dra. Mariana Françozo, a peça deve ter sido usada como pagamento no tráfico de escravos pelos portugueses e assim chegou a Angola, na costa ocidental africana.

Descomissionado pela Companhia das Índias Ocidentais do seu cargo de governador do Brasil holandês, o Conde Maurício de Nassau volta à Europa em 1644, levando entre seus tesouros e curiosidades a bacia de prata peruana.

Elevado a Príncipe do Sacro Império Romano-Germânico em 1653, Maurício de Nassau viajou para Frankfurt em 1658 como representante do Grande Eleitor de Brandenburgo, Friedrich Wilhelm. Lá, encaminhou a bacia de prata ao ourives Hans Georg Bauch, encomendando-lhe que a revestisse de ouro e que adaptasse um pedestal, além de inserir no centro da peça o brasão de armas de Nassau.

Depois de pronta, a bacia foi doada pelo Conde Maurício de Nassau para a Igreja Evangélica de Siegen, onde permanece até hoje. A bacia, além do brasão de Nassau, possui em sua borda de 6,5 cm diversas figuras de animais, pessoas, prédios e plantas. Essa curiosa peça, originária da América andina, cruzou toda a América do Sul para ser enviada através do Atlântico sul para a África ocidental. Daí, volta, pelo mesmo oceano, para o Recife no litoral nordeste do Brasil. Por fim, cruza o Oceano Atlântico pela terceira vez, agora até o norte da Europa. Observam-se assim os caminhos dos interesses políticos e comerciais das potências do século XVII na parte ocidental do mundo.