segunda-feira, 22 de dezembro de 2014

A Igreja Matriz do Corpo Santo

A mais antiga igreja do Recife e núcleo da cidade foi, lamentavelmente, demolida em nome do progresso.

A Igreja do Corpo Santo foi erguida no local onde havia a ermida de São Frei Pedro Gonçalves ou São Telmo, santo protetor dos pescadores e homens do mar. Ao seu redor, que hoje seria próximo ao Marco Zero, foram sendo construídas casas e armazéns das pessoas que viviam e trabalhavam do mar, para onde estava voltada a fachada da igreja.

Com a invasão dos holandeses em 1630, a igreja foi transformada em templo calvinista, inclusive servindo de cemitério para importantes figuras do Brasil holandês, como o irmão do Conde Maurício de Nassau, João Ernesto de Nassau, o conselheiro político e depois senhor-de-engenho, Servaes Carpentier e do almirante Lichthart. Segundo o arquiteto José Luiz Mota Menezes, os holandeses acrescentaram ao prédio uma torre sineira conforme o estilo arquitetônico neerlandês da época.

Expulsos os holandeses em 1654, a igreja foi reconciliada e começou a ocorrer a Procissão dos Passos, segundo promessa dos oficiais luso-brasileiros e cumprida até hoje, na quinta e sexta-feira, que antecedem em duas semanas a Semana Santa. Naquela época foi criada a Venerável Irmandade do Senhor Bom Jesus dos Passos do Corpo Santo. A procissão saia da Igreja do Corpo Santo para a igreja do Convento de Nossa Senhora do Carmo em Olinda.

No século XVIII a igreja foi ampliada, tornando-se um imponente prédio.

Em 06 de março de 1913 ocorreram os últimos eventos religiosos da Matriz do Corpo Santo, tendo sido rezada missa, com a comunhão e posterior transferência do Santíssimo Sacramento para a Igreja da Madre de Deus.  

Em outubro de 1913 a igreja começou a ser demolida, sendo concluído o processo no ano seguinte, para a construção da Av. Marques de Olinda e a ampliação do porto do Recife.

Conforme fotografias da época, a igreja tinha cinco portas na fachada principal, tendo a porta central cerca de 6 m de altura. O prédio mediria 25x50 m, com três pavimentos somando 15 m de altura até o alto da torre sineira.

quinta-feira, 4 de dezembro de 2014

João Fernandes Vieira II

Em agosto de 1644, André Vidal de Negreiros, vindo da Bahia, começa a fomentar a Insurreição no Recife e cercanias. Nessa época o Conde de Nassau já havia retornado à Europa e tudo apontava para a revolta. Também de larga importância nesse contexto é a restauração do trono lusitano através de D. João IV no final de 1640.

Na várzea do Capibaribe, em 23 de maio de 1645, é assinado, inclusive por Vieira, um compromisso de honra pelos patriotas que se comprometem a lutar e ajudar, inclusive financeiramente, para a expulsão dos holandeses do Brasil. No mês seguinte, apos receber diversas denuncias da iminente insurreição, o Alto Conselho manda prender Vieira, seu sogro Francisco Berenguer e outros lideres do movimento. Os insurretos reunem-se no engenho de Luis Bras Bezerra, também na várzea,  e juntam armas e homens para o combate.

Seguindo para o interior os luso-brasileiros chegam até o Monte das Tabocas, hoje Vitória de Santo Antão, aonde enfrentam e vencem as tropas holandesas. Foi a primeira grande batalha pela libertação do domínio neerlandês. Seguem-se vários combates com a ação de Vieira na frente de batalha como engenho Casa Forte e Forte de Nazaré (Cabo de Santo Agostinho), além de locais mais distantes como em Porto Calvo e Penedo.

Em 07 de outubro de 1645 os membros mais importantes do clero, da nobreza e das armas de Pernambuco elegem João Fernandes Vieira governador da capitania, com poderes civis e militares, ficando em pé de igualdade com os enviados pelo governador-geral em Salvador, André Vidal de Negreiros e Martim Soares Moreno. Um dia antes, em Salvador, o próprio governador Antônio Telles havia designado Vieira como mestre-de-campo do Terço de Pernambuco, com a missão de fazer a guerra de restauração.

Sem conseguir eliminar por completo os invasores, a guerra entra numa fase semelhante ao inicio da invasão com pouca movimentação das tropas de ambos os lados.  Não havia armas, munições nem suprimentos suficientes para os luso-brasileiros nem para os holandeses empreender uma ofensiva decisiva. O prestigio de Vieira fica abalado frente aos insurretos, ocorrendo até uma emboscada contra ele, que escapou ferido à bala.  Apesar das vitórias anteriores, o período 1647 – 1648 é muito duro para os revoltosos, principalmente pela pouca ajuda recebida do Reino, e o ataque dos piratas da Zeelandia à navegação entre Europa e Brasil onde apreenderam mais de 200 navios portugueses nesse tempo.

Em 1648 e 1648 as duas batalhas dos Guararapes acabam de vez com as chances da conquista holandesa no Brasil. Vieira atuou de forma pessoal e decisiva nos dois combates onde seu Terço, que era o de maior efetivo, preencheu o centro do dispositivo das tropas do mestre-de-campo-general Barreto de Menezes, garantindo a derrota dos mercenários da WIC.

Na ofensiva final contra os holandeses no Recife o Terço de Vieira outra vez ataca na vanguarda das forças que investem contra o Forte do Rego ou das Salinas, onde hoje existe a Igreja de Santo Amaro, origem do bairro de mesmo nome. Alguns dias depois, acertada a rendição dos holandeses, as tropas de Barreto de Menezes, com os homens de Fernandes Vieira novamente à frente, entram no Recife em 27 de janeiro de 1654.

Em reconhecimento aos feitos na guerra de libertação, o Rei concedeu a João Fernandes Vieira diversas honrarias como os governos da Paraíba, Angola e Maranhão, titulo de mestre-de-campo, comenda da Ordem de Cristo, superintendente das fortificações do Nordeste, além de terras em diversas localidades nordestinas. 

Citado em documentos como proprietário de mais de 16 engenhos, possuía terras em Pernambuco, Paraíba, Rio Grande, não só nas sedes das capitanias como no “sertão” como eram denominados os territórios afastados do litoral. A ele foi doado, inclusive, o sobrado que abrigava a sinagoga da Rua dos Judeus no Recife. Tinha também casas e uma quinta em Lisboa.

Apesar de muito criticado pelo período que esteve ligado aos holandeses e pelas suas inúmeras dívidas junto aos invasores e depois ao Reino, Vieira é justamente reconhecido como um dos heróis da Insurreição Pernambucana, tendo despendido grandiosos esforços e recursos materiais para sustentar a guerra contra o invasor neerlandês, durante largo período sem auxilio de Portugal.

Faleceu em 10 de janeiro de 1681 em Olinda, sendo sepultado na Igreja do Carmo. Em 1942 seus restos foram trasladados para a Igreja de Nossa Senhora dos Prazeres, nos Montes Guararapes.

sábado, 29 de novembro de 2014

João Fernandes Vieira

A real origem deste importante personagem da Insurreição Pernambucana é controversa.  A maioria dos pesquisadores afirma que ele nasceu em 1613 em Funchal,  Ilha da Madeira. Enquanto uns dizem ser de família nobre, outros registram que tinha origem muito humilde, sendo o seu pai um degredado português e sua mãe uma negra. Segundo o pesquisador Rodrigo de Lima Felner seu verdadeiro nome seria Francisco de Ornelas Muniz Filho.

Descrito como mulato por vários autores, emigrou para Pernambuco onde chegou em 1624, tornado-se empregado de um marchante. Com a invasão holandesa em fevereiro de 1630, passa a combater os invasores, inclusive na defesa do Forte de São Jorge até sua tomada pelos neerlandeses em 02 de março.

Fernandes Vieira torna-se encarregado da distribuição de víveres às tropas luso-brasileiras, seguindo depois para o Arraial do Bom Jesus na mesma função até a rendição daquela fortificação em 1635. Vieira preferiu ficar no convivio dos holandeses a fugir com Matias de Albuquerque para o sul da capitania.

Estreitando relacionamento com o conselheiro político Jacob Stachouwer, Vieira consegue tornar-se seu criado quando o holandês adquire o Engenho do Meio, na várzea do Rio Capibaribe, a mais importante área produtora de açúcar de Pernambuco. Posteriormente ele passa a capataz e depois sócio do holandês na condução do engenho. Em 1638 Stachouwer, que agora possuía três engenhos, retorna à Holanda fazendo de Vieira seu procurador, estando este cada vez mais ligado aos invasores.

Agora senhor de engenho, Vieira consegue dos holandeses liberação para agenciar o comercio de açúcar com a Companhia das Índias Ocidentais, além da captura de escravos fugidos. Posteriormente ele obtem a concessão para a cobrança de diversos impostos para os holandeses. Também tinha concessão para a exploração do valioso pau-brasil.

Em 1640 João Fernandes Vieira representa os moradores portugueses da Várzea na assembléia convocada por Maurício de Nassau para tratar de assuntos administrativos da conquista, principalmente a fúria dos campanhistas que, havia alguns anos, circulavam pelo interior destruindo lavouras, engenhos e atacando as tropas invasoras.

Ao mesmo tempo que vai aumentando seus negócios e prestígio junto aos senhores da Nova Holanda, contrai dívidas de proporções gigantescas. É eleito escabino de Maurícia em 1641 ocupando o cargo por dois mandatos.

Observando a situação das dívidas dos senhores de engenho e outros negociantes, a WIC determina a Nassau e ao governo no Recife a cobrança das obrigações à Companhia. Os devedores alegam diversos fatores negativos à produção de açúcar na época (1641–1642) que não possibilitavam o saldamento dos empréstimos e impostos. Houve inundações devido às chuvas torrenciais, mortandade de escravos por epidemia de bexiga e praga de insetos nas lavouras. João Fernandes Vieira fica em posição delicada pois além de senhor de engenho, era cobrador de impostos. Sua dívida era a segunda maior entre os devedores da WIC no Brasil holandês.

Assim, começa a ser preparada a Insurreição Pernambucana a partir da várzea do Capibaribe. Apesar de intimamente ligado aos holandeses, Fernandes Vieira sempre procurou ajudar aos da terra, libertando aqueles presos e alguns já condenados à morte, através de elevadas somas entregues às autoridades do governo do Brasil holandês. 

Nesse meio tempo, em 1643, casou-se Vieira com D. Maria Cesar, filha de Francisco Berenguer de Andrade, também senhor de engenho, que havia sido preso em 1638 por suspeita de traição contra os neerlandeses.

sábado, 30 de agosto de 2014

W.I.C. III

Willem Usselincx era um mercador de Antuérpia que havia vivido na Espanha e Portugal, testemunhando o trafego de riquezas das colonias para a Europa. Sua ideia era que os Países Baixos fundassem uma empresa que além de promover o comercio com a America, desenvolvesse a colonização no Novo Mundo criando uma Nova Holanda. Além de negociar os metais preciosos já explorados pelos ibéricos, Usselincx projetava incrementar, através dos colonos neerlandeses, a produção de especiarias, madeiras e açúcar.  A base desse projeto era o estado de paz com a Espanha e o livre comércio com outras nações. Ao criar a WIC os Estados Gerais não aprovaram a ideia, pois queriam conquistar as terras americanas dominadas pela Espanha, enfraquecendo seu enorme império.

Tendo sido atraída ao Brasil pela produção de açúcar, a maior do mundo na época, a WIC não entendeu que simplesmente conquistar o país, ou parte dele, não garantiria para si os meios de produção do açúcar. Os engenhos e as plantações de cana eram propriedade dos portugueses que detinham a expertise na fabricação do valioso açúcar. Alguns holandeses chegaram a adquirir engenhos abandonados ou paralisados pela guerra de conquista dos invasores e posterior guerrilha dos luso-brasileiros contra os mercenários da WIC. No entanto, os neerlandeses nunca dominaram o processo produtivo, que sempre ficou nas mãos dos portugueses. A WIC precisava constantemente prover meios (escravos, financiamento, segurança) aos senhores de engenho para que estes mantivessem o fluxo de açúcar para as refinarias de Amsterdam. Quando os preços do açúcar na Europa despencaram e os senhores de engenho endividados se recusaram a saldar seus compromissos com os judeus e a companhia, a guerra de restauração explodiu em Pernambuco.

A Companhia das Índias Ocidentais nunca conseguiu equilibrar suas finanças no Brasil holandês, pois sua política era de conquistar e explorar a conquista, sem pensar em ocupar o território com colonos para desenvolver a agricultura, a indústria ou o comércio e facilitar a manutenção do país sob seu domínio. Esse era o objetivo de Usselincx. Apesar da conquista de vasto território no Brasil, seus maiores feitos em termos de lucro foram o apresamento de navios que transportavam para a Europa os produtos explorados pela Espanha e Portugal: ouro e prata das colonias espanholas e açúcar e madeiras de tinturaria das colonias portuguesas.

Ao contrario da VOC, no oriente, que manteve sempre relações comerciais com os governos daquelas praças, a WIC esteve sempre em pé de guerra no Brasil, mesmo com a trégua decretada em 1640 quando da restauração do trono português através de D. João IV, época do governo de Maurício de Nassau no Recife. As despesas com a manutenção de navios, fortificações e tropas na conquista era muito além do que a Companhia podia suportar.      


sábado, 23 de agosto de 2014

Construindo o Brasil

Desde o inicio da colonização do Brasil as principais construções executadas pelos portugueses eram de caráter religioso (capelas, igrejas e conventos) e aquelas que visavam a defesa dos núcleos mercantis e de povoamento, como paliçadas, redutos e fortes.

Antes mesmo da fixação dos lusitanos no território descoberto, a preocupação preliminar era o levantamento e descrição das terras e mares através de desenhos e mapas do litoral e das primeiras povoações. Além dos portugueses, franceses, espanhóis, holandeses e ingleses já haviam visitado e mostrado as costas brasileiras em vários documentos.

A cartografia portuguesa dos séculos XVI e XVII é representada por Luis Teixeira e João Teixeira Albernaz (“O Velho” e “O Novo”) com alguns mapas onde aparecem Olinda, Recife, Cabo de Santo Agostinho e Baia de Todos os Santos. Dentre os engenheiros portugueses são conhecidos: Braz da Mata, de Lisboa, que ergueu a abóbada da Matriz de Olinda, Manuel Gonsalves, que fez o traçado de igrejas e conventos em Recife e Ipojuca, Francisco de Frias da Mesquita, engenheiro-mor do Brasil e responsável pela construção do Forte dos Reis Magos, Natal, e o florentino Baccio da Filicaia, que atuou como engenheiro militar e capitão de artilharia em Salvador.

Ao invadirem o Brasil, os holandeses usaram engenheiros portugueses em suas obras como Cristovão Álvares, responsável por obras no Castelo do Mar em Recife, baluartes na paliçada e torre da Matriz em Olinda e no Castelo Keulen (Reis Magos) em Natal.

Após a expulsão dos holandeses em 1654, a maioria dos prédios levantados pelos invasores foi destruído ou descaracterizado para que não houvesse lembrança da passagem dos neerlandeses no Brasil. O Forte de Cinco Pontas, assim conhecido até hoje, foi reformado, e de pentágono passou a quadrilátero. 

terça-feira, 29 de julho de 2014

Carta de Doação de Olinda

Duarte Coelho, Fidalgo da Casa de El-Rei Nosso Senhor, Capitão Governador destas Terras da Nova Lusitânia por El-Rei Nosso Senhor.

No ano de 1537 deu e doou o senhor governador a esta sua Vila de Olinda, para seu serviço e de todo o seu povo, moradores e povoadores, as cousas seguintes: Os assentos deste monte e fraldas dele, para casaria e vivendas dos ditos moradores e povoadores, os quais lhes dá livres de foros o isentas de todo o direito para sempre, a as Varzeas das Vacas e de Beberibe e as que vão pelo caminho que vai para o Paço do governador, e isto para os que que não têm onde pastem os seus gados, e isto será nas campinas para pacigo, e as reboteiras de matos para roças a quem o conselho as arrendar, que estão das campinas para o alagadiço e para os mangues, com que confinam as terras dadas a Rodrigo Álvares e outras pessoas.
...

A ribeira do mar até o arrecife dos navios, com suas praias, até o varadouro da galeota, subindo pelo rio Beberibe arriba, até onde faz um esteiro que está detrás da roça de Brás Pires, conjunta com outra de Rodrigo Álvares, tudo isto será para serviço da Vila e povo dela, até cinquenta braças do largo, do rio para dentro, para desembarcar e embarcar todo o serviço da Vila e povo dela, e daí para riba tudo que puder ser, demais dos mangues, pela várzea e pelo rio arriba é da serventia do Concelho.
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O Monte de Nossa Senhora do Monte, águas vertentes para toda a parte, tudo será para serviço da Vila e povo dela, tirando aquilo que se achar ser da casa de nossa senhora do monte, que é cem braças da casa ao redor de toda parte, e assim o Valinho que é da banda do nortee rodeia todo o monte pelo pé, até o caminho que vai da dita Vila para o Val de Fontes, para o curral velho das vacas, que tudo é da dita casa de Nossa senhora do Monte.

E porque, por detrás do dito montinho, onde há de fazer o Senhor Governador a sua feitoria, até o varadouro da galeota, há de se abrir o rio Beberibe e lançar ao mar por entre as duas pontas de pedras, como tem assentado o Senhor Governador; entre o dito rio lançado novamente e as roças da banda de riba, de Paio Correia e da Senhora Dona Brites e o mato que está adiante, que ora é do Senhor Jerônimo de Albuquerque, há de ir uma rua de serventia ao longo do dito rio novo para serventia do povo, de que se possa servir de carros, que será de cinco ou seis braças de largo e rodeará pelo pé do montinho até o varadouro da galeota.

Todas as fontes e ribeiras ao redor desta Vila dois tiros de besta são para serviço da dita Vila e povo dela;   falas-a o povo alimpar e correger à sua custa.
...

Isto foi assim dado e assentado pelo dito Governador e mandado a mim Escrivão que disto fizesse assento e foi assinado pelo dito governador a 12 de março de 1537 anos.


Denominado imprecisamente de Foral de Olinda, essa Carta de Doação do donatário Duarte Coelho definiu formalmente a vila de Olinda, citando também o Recife (arrecife dos navios). Em 1550, a Câmara de Olinda solicitou ao donatário uma cópia do documento, pois o original havia sido extraviado. Durante a invasão holandesa e o incêndio da vila em 1631, o documento foi novamente perdido. Após a restauração pernambucana em 1654, foi localizado no Mosteiro de São Bento de Olinda.

domingo, 13 de julho de 2014

O Incêndio de Olinda

Em 15 de fevereiro de  1630, com o desembarque das tropas da Companhia das Índias Ocidentais do coronel Waerdenbuch na praia de Pau Amarelo, um pouco ao norte, rapidamente os invasores seguiram para Olinda, sede da capitania de Pernambuco, encontrando resistência por parte dos luso-brasileiros no Rio Doce.

Dominaram a vila com relativa facilidade pois a maioria dos moradores fugiu levando o que puderam. Alguns bolsões de contenção foram eliminados, destacando-se a brava luta do capitão André Temudo em defesa da Igreja da Misericórdia no Alto da Sé.

Senhores do local e depois do porto, Recife, os comandantes das tropas da WIC, constataram que a geografia de Olinda era formada por elevações autodominantes, ou seja, cada monte era cercado por montes vizinhos, o que obrigava a que todos fossem ocupados para garantir a defesa da vila, acarretando a necessidade de um contingente que poderia ser melhor utilizado para o ataque de outros pontos.

O almirante Lonck, comandante da expedição, escreve ao Conselho dos XIX, diretoria da WIC nos Países Baixos, pedindo permissão para abandonar Olinda, concentrando as tropas no Recife. O pedido é negado pois os Heeren XIX não podiam compreender porque se deveria abandonar a sede da capitania, conhecida como uma das mais ricas vilas das colonias portuguesas. Após várias tentativas de convencer a WIC e o governo neerlandês da necessidade de concentrar esforços no Recife para poder atacar outros locais defendidos pelos luso-brasileiros, o príncipe Frederik Hendrik, autoriza aos seus comandantes que abandonem Olinda.

No dia 17 de novembro de 1631 começa a demolição dos prédios de Olinda e a retirada do material de construção, que era muito escasso, para o Recife. Em 24 de novembro a vila de Olinda é incendiada em vários pontos e quase totalmente arrasada. Segundo Duarte de Albuquerque Coelho, Olinda possuía 2.500 habitantes, quatro conventos, um colégio dos jesuítas e uma Casa de Misericórdia.

Os invasores proibiram que se reconstruísse em Olinda, o que só voltou a acontecer depois da chegada de Maurício de Nassau em 1637. O Recife e a Ilha de Antônio Vaz já estavam demasiadamente ocupadas devido ao intenso crescimento do porto e a construção de prédios para diversas finalidades.

sexta-feira, 23 de maio de 2014

W.I.C. II

Outro importante artigo comercial para os Países Baixos era o açúcar. Em Amsterdam, Holanda, havia refinarias de açúcar abastecidas pelo produto originário da Ilha da Madeira e depois do Brasil, colônias de Portugal. Quando, em 1580, Portugal fica sob domínio espanhol com um único rei, Felipe IV, o fornecimento de açúcar é interrompido pelo inimigo dos neerlandeses. A WIC decide então obter o açúcar, artigo de luxo na época, nos próprios centros produtores.

Invade Salvador, Bahia, em 1624 onde permanece até 1625 quando foram expulsos por uma armada luso-espanhola. Tendo conseguindo apreender a frota espanhola da prata em Cuba, 1628, a Companhia das Índias Ocidentais se capitaliza para outra invasão ao Brasil, desta feita a Pernambuco, maior produtor mundial de açúcar de então. Chegando em 1630, os neerlandeses permaneceram no Nordeste brasileiro por 24 anos, dominando, no seu apogeu, o território que ia do Maranhão ao Rio São Francisco.

Em menor escala, a Companhia das Índias Ocidentais também atuou na América do Norte, estabelecendo fortes na região do Rio Hudson e Ilha de Manhattan, atual Nova York. No intercurso da presença no chamado Brasil holandês, ou Nieuw Holland, como era designada nos Países Baixos, a WIC conquistou ainda posições na África como Elmina, São Tomé e Luanda.

O regulamento de concessão dos Estados Gerais à WIC determinava, em seus 45 artigos, o monopólio, por 24 anos, do comércio na costa ocidental da África, do Trópico de Câncer ao Cabo da Boa Esperança e nas costas orientais e ocidentais da América. Copiando o modelo da VOC, a diretoria da WIC era composta por dezenove membros que ficaram conhecidos por Heeren XIX – Conselho dos Dezenove. Como cidade mais importante, Amsterdam tinha oito representantes no conselho, a Zelândia, quatro, Groninga, Mosa e Hoorn, dois cada uma e os Estados Gerais designavam um representante.

A época de maior poder da Companhia das Índias Ocidentais foi entre 1630 e 1640. No período entre 1637 e 1644, esteve no Brasil holandês como governador e general o Conde João Maurício de Nassau-Siegen. Após a restauração do trono português em 1640, através da coroação de D. João IV, e a Insurreição Pernambucana a partir de 1645, a WIC foi perdendo territórios e acumulando prejuízos.


A WIC foi dissolvida em 1674, sendo aberta outra companhia no ano seguinte. Em 1791 a Companhia das Índias Ocidentais foi definitivamente fechada. 

sábado, 17 de maio de 2014

W. I. C.

A Companhia das Índias Ocidentais, em neerlandês Geoctroyeerde Westindische Compagnie ou WIC, foi uma das associações de comércio marítimo internacional fundadas no século XVII nos Países Baixos.

Desde 1565 o príncipe Guilherme de Orange tentava junto ao rei da Espanha, Felipe II, uma reforma política, redução dos impostos e maior liberdade religiosa para os calvinistas nos Países Baixos. A repressão espanhola aos neerlandeses desencadeou a Guerra dos Oitenta Anos pela independência do que viria a ser a República das Províncias Unidas dos Países Baixos.

Às margens do Mar do Norte e na desembocadura de três grandes rios (Reno, Waal e Mosa) os Países Baixos desenvolveram uma tecnologia naval avançada o que incrementou o comércio na Europa e depois com o resto do mundo. Em 1602 foi fundada a Vereenigde Oost-Indische CompagnieVOC, Companhia das Índias Orientais. Detinha o monopólio do comércio entre a Ásia, Japão e Oceania para a Europa. Apenas seus navios poderiam cruzar o Cabo da Boa Esperança e o Estreito de Magalhães pelo prazo de 21 anos.

Em 03 de junho de 1621 é fundada a WIC para desenvolver o comércio neerlandês com as Américas e costa ocidental da África. Não só isso: deveria combater o império espanhol estrangulando sua fonte de riqueza na América Latina, de onde recebia ouro, prata e madeiras de tinturaria entre outras valiosas  mercadorias. A idéia inicial de Willem Usselincx era uma empresa que promovesse a colonização e povoamento do Novo Mundo, mas seu projeto não foi aprovado pelos Estados Gerais, parlamento da República, que desejava um instrumento para levar a guerra contra os espanhois além da Europa.

sábado, 1 de março de 2014

A Batalha pelo Recife

Após desembarcar tropas em Pau Amarelo em 14 de fevereiro de 1630 e conquistar Olinda dois dias depois, a esquadra neerlandesa da Companhia das Índias Ocidentais (WIC) ataca o Recife, batendo com sua artilharia o Forte do Mar e o Forte de São Jorge que defendiam a barra do porto. O soldado Ambrosio Richshoffer, natural de Strasburgo, Alemanha e alistado na WIC, descreve os combates pela conquista da aldeia Povo, como era chamado o Recife de então:

Durante os dias 18 e 19 o Sr. General continuou bombardeando os fortes; fez seguir dois navios para a entrada do porto para reconhecerem se era possível penetrar nele com iates ou outras embarcações. Em seguida ordenou que seis navios deviam bater continuamente o grande forte de São Jorge.

O inimigo, porém, percebendo nossa intenção, meteu a pique na entrada do porto, vários navios carregados com açúcar e fumo, os quais, quando o açúcar se dissolveu, flutuaram até ficarem em seco. Por este motivo os nosso foram obrigados a retirarem-se, tendo sofrido avarias.

O Sr. General, com demais navios grandes, teve que fazer-se ao largo durante a noite e colocar-se fora do alcance dos tiros dos fortes; estando muitos dos navios tão varados de balas que se podia ver através dos dois costados, e perdendo muitos tripulantes, cabeças, braços e pernas, tão nutrido o canhoneio. Devido ao movimento das vagas, em constante agitação nas vizinhanças dos fortes, os artilheiros de bordo não puderam fazer tiros certeiros; causaram contudo considerável dano ao inimigo.

Dia 20, cerca de 100 homens atacaram o Forte de São Jorge na escuridão da noite, mas suas escadas não eram longas o suficiente para vencer as muralhas do forte e eles foram repelidos, perdendo quase a metade da força entre mortos e feridos. Os invasores decidem então instalar trincheiras cercando o forte português com 500 mercenários da WIC sob o comando do tenente-coronel van der Elst. A 28, três meios-canhões da frota são desembarcados e instalados na trincheira holandesa aumentando o poder do ataque.

Apesar da bravura dos luso-brasileiros contra a enorme força invasora, a maior a cruzar o equador até então, os navios holandeses em conjunto com a infantaria e a artilharia de campanha conseguiram cercar e vencer as defesas do porto, sendo assinado um acordo de rendição em 02 de março de 1630.

quinta-feira, 23 de janeiro de 2014

Nassau no Recife

Em 1636 os holandeses já estavam no Brasil há sete anos. Haviam conquistado Olinda, Recife, Itamaracá, Rio Grande do Norte, Paraíba, Vila de Nazaré (Cabo de Santo Agostinho), Ilha de Fernando de Noronha, Porto Calvo e Alagoas. Apesar do extenso território, a Cia. das Índias Ocidentais (WIC), que administrava o Brasil holandês, não estava em boa situação financeira. A guerra destruíra boa parte dos engenhos de açúcar e a produção caíra demasiadamente.

A administração, a cargo do Conselho Político, vivia em choque com os comandantes militares e as decisões eram lentas e inexpressivas. Diante das dificuldades, os Estados Gerais, pressionados pelo príncipe Frederik Hendrik, indicam à WIC Maurits von Nassau-Siegen, oficial alemão à serviço da Casa de Orange. Nassau, que construía seu palácio em Haia e precisava de recursos, aceitou a proposta para ser Governador e Capitão Geral de Terra e Mar da Nova Holanda.

Após uma travessia de três meses entre Texel (Holanda), Falmouth (Inglaterra) e Arquipélago de Cabo Verde, a flotilha de 4 navios de Nassau aporta no Recife em 23 de janeiro de 1637.

Seguem trechos da carta de Nassau aos Estados Gerais poucos dias após sua chegada: Aqui cheguei a 23 seguinte, graças a Deus, em boa disposição e juntamente com os demais, e fui recebido com muitas honras, achando o país um dos mais belos do mundo. A situação deste país é extremamente vantajosa e forte, e se Deus nos fizer a graça de pode-lo conquistar inteiramente, não duvidarei que todo o Estado dele tirará uma grande vantagem e serviço.
Maurício, Conde de Nassau
Antônio Vaz de Pernambuco, Brasil
3 de fevereiro de 1637

Maurício de Nassau conseguiu estender o território do Brasil holandês desde o Maranhão até o Rio São Francisco mas, seu maior legado foi a instalação no Recife de uma corte de cientistas, artistas e construtores que deixou sua marca para sempre.

sexta-feira, 3 de janeiro de 2014

Os Engenheiros do Brasil Holandês

Em 1600, por decisão do príncipe Maurits van Oranje-Nassau, é criada na Universidade de Leiden, Holanda, a Duytsche Mathematique, idealizada pelo matemático Simon Stevin. Era uma escola de caráter técnico-prático, cujo objetivo era a formação de engenheiros militares, agrimensores, mestres em carpintaria, mestres construtores de fortes e vilas, além de técnicos na confecção de mapas e traçados urbanos. Esses homens eram fundamentais para a conquista e desenvolvimento dos mares e territórios que a Holanda procurava dominar em todo mundo.

Com a invasão dos neerlandeses, primeiro em Salvador, entre 1624 e 1625, e depois em Pernambuco, onde dominaram de 1630 até 1654, ficou demonstrado que eles estudavam o litoral norte-nordeste brasileiro há muito tempo, através da cartografia levantada por técnicos e homens do mar. Destacaram-se: Abraham Ortelius (mapa mundi e carta do novo mundo), Isaak Comelin (mapas de Olinda, Cabo de Sto. Agostinho e da Baia de Todos os Santos), Jan Huigen van Linschoten (roteiro de navegação da Europa para os principais portos do Brasil), Dirck Symonsz (carta náutica da costa de Pernambuco), Claes Janzoon Visscher (mapa com frota da invasão de Olinda), Hessel Gerritsz (cartógrafo da WIC com trabalhos sobre a invasão de Salvador e de Pernambuco) e Cornelis Golijath (mapa detalhado do Recife e Olinda, 1648).

Além desses cartógrafos, os neerlandeses utilizaram vários engenheiros para traçar e construir prédios civis e militares no Brasil: Tobias Commersteijn, que veio na frota de invasão e projetou o Forte de Cinco Pontas e Pieter van Bueren, que executou o projeto do forte, além de plantas de Olinda. Andreas Drewisch, Forte do Brum e planta da ilha de Antonio Vaz, e Hendrik van Berchem, engenheiro do Conde de Nassau, morto no ataque a Salvador, 1638.

Os holandeses também utilizaram o serviço de técnicos portugueses como Cristovão Álvares, responsável por obras no Castelo do Mar e na vila de Olinda, e de outras nacionalidades a exemplo do inglês Richard Carr, que construiu o Forte Schoonenborch no Ceará e do francês Pierre Grondeville que traçou planta de Porto Calvo no ataque de Nassau em 1637. Finalmente, não podemos deixar de destacar o alemão Georg Marcgrave, cartógrafo, astrônomo e naturalista que Nassau trouxe para fazer um vasto levantamento das terras, céus, animais e plantas do Brasil holandês.