segunda-feira, 6 de abril de 2020

O Arraial Novo do Bom Jesus


Após a invasão das tropas da Companhia das Índias Ocidentais a Pernambuco, Matias de Albuquerque tenta conter os invasores, primeiro em Olinda, no Rio Doce, e depois no Recife, mas consegue apenas atrasar o avanço inimigo. Dominados Olinda e sem meios para defender o porto, Recife, o comandante olindense manda queimar os armazéns de açúcar e afundar um navio para bloquear a entrada do porto, mas por fim os neerlandeses, com efetivos e material bélico superiores conquistam tudo.

Para centralizar a resistência e coordenar a guerra de emboscadas às tropas da WIC, Matias de Albuquerque constrói uma fortificação na propriedade de Antônio de Abreu, ao noroeste do Recife e próximo ao Rio Capibaribe, que passaria a ser chamada de Forte Real do Bom Jesus ou Arraial do Bom Jesus. Durante cinco anos esse bastião foi arregimentando moradores e combatentes que atacavam os destacamentos neerlandeses, principalmente os que se aventuravam fora dos fortes do Recife em busca de alimentos. No entanto, após um cerco de três meses e três dias, em 08 de junho de 1635, sem mais nenhum mantimento ou munição, o Arraial do Bom Jesus cai para as tropas do coronel Chrestofle Arciszewski. Na sequencia, os invasores conquistam o Forte de Nazaré, no Cabo de Santo Agostinho, ficando senhores dos principais pontos fortificados do Rio Grande ao centro sul de Pernambuco.

Dez anos depois, tem início a Insurreição Pernambucana para a expulsão dos holandeses do Nordeste brasileiro.  Em setembro de 1645 tem início, no antigo Engenho São Tomé, depois Rotterdam, uma légua a oeste do Recife, a construção do Arraial Novo do Bom Jesus, sob a orientação do mestre de campo Dirck van Hoogstraten. Recebe oito canhões de bronze conquistados aos holandeses no Forte de Bom Sucesso do Porto Calvo. A fortificação de terra batida será concluída em cerca de três meses.

Em 07 de outubro de 1645 João Fernandes Vieira é aclamado governador de Pernambuco e comandante do exército de libertação, pelos membros mais importantes da capitania, no Arraial Novo. Essa tomada de decisão não foi submetida às autoridades do Governo Geral de Salvador nem ao Rei de Portugal. Ao raiar do dia 01 de janeiro de 1646 a artilharia do Novo Forte do Bom Jesus se fez ouvir no Recife. Em fevereiro do ano seguinte o almirante Jean Cornelis Lichthardt escreve relatório aos Estados Gerais dando conta da construção de um forte no engenho de Willem Bierboom, a uma légua do Recife.

Um ano depois, em 20 de fevereiro de 1647, representantes de Olinda, Igarassu, Goiana, Sirinhaém e Paraíba, reunidos no Arraial Novo, mandam carta ao Rei D. João IV pedindo o envio de tropas para ajudar na guerra contra os holandeses e comprometendo-se a custear as despesas com tudo necessário para a libertação do Brasil dos invasores. Lembram que a luta dos portugueses contra os espanhóis para a confirmação da separação da Coroa Portuguesa da Espanha estava num estágio que permitia a liberação de parte do contingente para o Brasil.

Em 1648 tem lugar a primeira batalha dos Guararapes, inicio do fim da dominação holandesa no Brasil. No dia 16 de abril daquele ano, o mestre de campo general Francisco Barreto de Menezes, estacionado no Arraial Novo do Bom Jesus com suas tropas, recebe do governador-geral, Antônio Teles de Meneses, a confirmação de seu cargo de governador e comandante das tropas em Pernambuco.

Na noite do dia seguinte o coronel alemão Sigmund von Schkoppe desloca 4.500 homens das tropas da WIC do Recife, além de 300 índios Tapuias, marinheiros e os componentes do trem de guerra, até o Forte Prins Willem em Afogados. No mês anterior havia chegado ao Recife um comboio procedente da Holanda com 6.000 combatentes para romper o cerco imposto ao Recife pelos insurretos luso-brasileiros. O objetivo de Von Schkoppe é atacar Muribeca, cerca de três léguas ao sul do Recife e centro abastecedor de mantimentos do Arraial Novo do Bom Jesus. Deveriam também bloquear o acesso por terra ao Cabo de Santo Agostinho e seu porto.

Informado das manobras dos holandeses, o mestre de campo general Barreto de Meneses imagina que o ataque seria direcionado ao Arraial Novo do Bom Jesus, mas na tarde do dia 18 o veterano sargento-mor Antônio Dias Cardoso chega ao Arraial informando da direção da marcha dos holandeses. Barreto de Meneses convoca um conselho de guerra para decidir a linha de ação. Passa o comando da operação a Fernandes Vieira e Vidal de Negreiros muito mais experientes na região.

No dia 19 de abril de 1648 tem lugar a 1ª Batalha dos Guararapes nos montes de mesmo nome, onde um efetivo da WIC três vezes maior foi batido pelos luso-brasileiros. O coronel Schkoppe, gravemente ferido numa das pernas no início da luta, retorna ao Recife. Morreram no combate, além dos tenentes-coronéis neerlandeses Van Haus e Keerveer, cerca de 500 homens com mais 500 feridos. Pelos luso-brasileiros as baixas foram de 80 mortos e 400 feridos. Dentre os feridos, morre um mês depois no Arraial Novo, o mestre de campo Antônio Felipe Camarão (Poti), em consequência de ferimentos recebidos nos Guararapes. Pelos seus serviços na luta contra os holandeses havia recebido os títulos de Dom, Comendador da Ordem de Cristo e Governador-Geral dos Índios do Brasil. Foi enterrado inicialmente numa capela no próprio Arraial, e depois trasladado para a Igreja de Nossa Senhora do Rosário, na Várzea.

Menos de um ano depois, em 19 de fevereiro de 1649 ocorre a 2ª Batalha dos Guararapes nos mesmos morros do primeiro confronto. O exército da WIC, agora sob as ordens do coronel Johan van den Brinck, já que Schkoppe ainda convalescia do ferimento da última batalha, sai do Recife na noite do dia 17 e na tarde do dia seguinte ocupam posições nas partes altas dos Montes Guararapes. Por volta das 10h00 do dia 18 os luso-brasileiros no Arraial Novo tomam conhecimento da marcha dos mercenários da WIC. Posteriormente sabendo da direção da expedição aos Guararapes, o conselho de guerra resolve enfrentar os inimigos.

Os 2.600 homens do mestre de campo general Barreto de Menezes, saindo do Arraial Novo do Bom Jesus em marcha batida chegam ao cair da noite e ocupam o sopé noroeste. Os neerlandeses permanecem durante toda manhã do dia 19 em suas posições no alto dos montes, sofrendo com o forte calor e a falta d’água. O conselho de guerra decide abandonar o plano de atingir a Muribeca e que voltariam ao Recife. Às 15h00 os holandeses começam a descer os montes e a artilharia neerlandesa ataca os insurretos, mas é contida. Ao tentarem sair dos morros as formações da WIC são atacadas e procuram resistir, mas são batidas e fogem em confusão, sendo perseguidas pelas tropas luso-brasileiras.

Os holandeses deixam para trás grande quantidade de armas e equipamentos, inclusive sua artilharia. Entre os mortos do lado da WIC estão o coronel Van den Brinck e o vice-almirante Giesseling, num total de 1.500 baixas entre mortos e feridos. Nas tropas luso-brasileiras houve cerca de 100 mortos e 450 feridos.

Em janeiro de 1654, após apertado cerco ao Recife e Mauritsstad, os neerlandeses se rendem às forças luso-brasileiras. Com o final do conflito o Arraial Novo do Bom Jesus é desativado.  

Segundo o arqueólogo Marcos Albuquerque, o Forte Novo do Bom Jesus é uma das poucas fortificações em terra construídas no Brasil, cujos resquícios ainda se encontram aparentes. Está localizado na Av. do Forte, bairro do Cordeiro, e pode ser observado um obelisco de granito implantado pelo Instituto Arqueológico, Histórico e Geográfico Pernambucano em 1872, em sua parte mais elevada.

terça-feira, 31 de março de 2020

As Duas Destruições de Olinda

Considerada a mais bela vila da América portuguesa, Olinda vivia em glória até que os mercenários da Companhia das Índias Ocidentais desembarcaram e tomaram suas praias e ladeiras em fevereiro de 1630.

Frei Manuel Calado do Salvador, em seu livro o Valeroso Lucideno apresenta o esplendor da capital do Pernambuco colonial: Era aquela república antes da chegada dos holandeses a mais deliciosa, próspera, abundante e não sei se me adiantarei muito se disser a mais rica de quantas ultramarinas o reino de Portugal tem debaixo de sua coroa e cetro. O ouro, a prata eram sem número e quase não se estimava; o açúcar tanto que não havia embarcações para o carregar.

Os invasores então se ocuparam em saquear toda aquela riqueza, se embebedando com o vinho que encontravam nas casas abandonadas, com as mesas repletas de comida, e por vezes também violadas pelos escravos negros repentinamente livres de seus senhores em fuga.

Ocupada a vila e o seu porto, o Recife, então apenas local de moradia de pescadores e marujos, as autoridades neerlandesas preocuparam-se em fortificar Olinda prevendo a ação dos luso-brasileiros para retomar seus domínios. Após a vistoria de militares e engenheiros, chegaram à conclusão de que seria inviável uma fortificação eficiente de todos os montes autodominantes que formavam o terreno. Ocupando uma elevação, esta poderia ser atacada pelo inimigo que ocupasse outra elevação próxima, e a WIC não poderia dispor de tantos soldados assim, pois precisava de todo seu efetivo para ampliar a conquista nas outras capitanias.

O comandante da expedição, almirante Hendrick Corneliszoon Lonck, escreve ao Conselho dos XIX, diretoria da WIC nos Países Baixos, pedindo permissão para abandonar Olinda, concentrando as tropas no Recife. O pedido é negado pois os Heeren XIX não podiam compreender porque se deveria abandonar a sede da capitania. Após diversas tentativas de convencer a WIC e os Estados Gerais da necessidade de concentrar esforços no Recife para poder atacar outros locais, o Príncipe Frederik Hendrik, autoriza aos seus comandantes que abandonem Olinda.

Em 17 de novembro de 1631 tem início a demolição dos prédios de Olinda e a retirada do material de construção, que era muito escasso, para o Recife. Em 24 de novembro a vila de Olinda é incendiada em vários pontos e quase totalmente arrasada. Segundo Duarte de Albuquerque Coelho, Olinda possuía 2.500 habitantes, quatro conventos, um colégio dos jesuítas e uma Casa de Misericórdia. Fica proibida qualquer nova construção na outrora bela vila.

Passados três séculos, a Marim dos Caetés é alvo de outro invasor, agora muito mais poderoso. As praias da região sul de Olinda, Milagres e Carmo, além das de São Francisco e do Farol, são fustigadas pelo avanço implacável do mar, que vai consumindo ruas e casas.

O primeiro registro da ação do mar em Olinda é de 1914, por conta das obras de ampliação do Porto do Recife iniciadas em 1909. A primeira rua a ser destruída na Praia dos Milagres foi a Rua do Nascente que ficava na beira mar, seguida pela Rua dos Milagres.

No início do século XX estava em voga a terapia pelos banhos salgados, a talassoterapia, e várias casas de veraneio e balneários (lojas de aluguel de roupas de banho) foram construídas onde havia apenas choupanas de pescadores e casebres. Tudo foi sendo irremediavelmente levado pelo mar.

Até o presidente Juscelino Kubitscheck veio a Olinda em 1955 para reunião com o prefeito Barreto Guimarães que solicitava verbas para as obras de contenção. Em 1960 o então deputado Josué de Castro fez pronunciamento no Congresso Nacional sobre o tema, falando das demandas de Barreto Guimarães para conseguir ajuda federal a fim de conter o avanço do mar e a destruição dos terrenos e prédios da cidade.

Foram contratados estudos aos Laboratórios Grenoble, França, para a definição das obras a serem executadas para a proteção da orla olindense. Determinou-se a construção de diques transversais às praias e outros paralelos, com blocos de granito. As obras tiveram início em 1956. Os diques conseguiram reduzir em muito o avanço do mar, mas acabaram com o acesso às praias dos Milagres, Carmo, São Francisco, do Farol e Bairro Novo, pela colocação das pedras. Sem a faixa de areia as praias tornaram-se quase que proibidas ao banho, pois as pessoas não mais conseguiam chegar ao mar.

Em 2010 novas obras de contenção, desta feita nas praias de Bairro Novo, Casa Caiada e Rio Doce, foram iniciadas em Olinda. Também foram anunciadas adequações para urbanização e paisagismo. Em 2019, estudos do pesquisador Luís Augusto de Gois, do Departamento de Geociências da UFPE, demonstraram que as obras de contenção da década de 1950 estão provocando erosão nas praias de Olinda.

sexta-feira, 7 de fevereiro de 2020

Arciszewski – Um Polonês no Brasil Holandês

A Nova Holanda e em particular o Recife eram uma verdadeira Babel das Américas. Gente de toda a Europa e África, além dos portugueses, espanhóis e índios andavam pela Mauritsstad em busca da riqueza do açúcar e pau-brasil, ou nas fileiras do exército e escritórios da Companhia das Índias Ocidentais.

Integrando o quadro de oficiais da WIC chegou à Pernambuco em 1630, junto com a força de invasão, o nobre polonês Chrestofle d’Artischau Arciszewski, nascido em 6 de dezembro de 1592. Ele havia fugido do seu país chegando à Holanda em 1624 após ter matado um advogado que extorquia sua família na Polônia. Ingressando no exército das Províncias Unidas, durante cinco anos participou de diversas batalhas contra as tropas espanholas e seus aliados na Europa. Arciszewski chegou ao Brasil com a patente de capitão, juntamente com outro oficial da mesma patente, o alemão Sigmund von Schkoppe.

Arciszewski toma parte em diversas importantes batalhas como a conquista da Ilha de Itamaracá. Em 1633 o polaco retorna à Europa após o final do seu contrato com a WIC, já no posto de sargento-mor (major).

Em 9 de agosto de 1634 o nobre polonês volta ao Brasil Holandês, agora como coronel comandante das tropas da WIC. Sem concordar com a nomeação de Arciszewski, o coronel Sigmund von Schkoppe pede seu desligamento do exército neerlandês e sua volta para a Europa. Os conselheiros da Companhia das Índias Ocidentais no Recife o convencem a permanecer devido à sua experiência na guerra brasílica, dividindo o comando com o coronel polonês. Neste mesmo ano Arciszewski participa de combates no interior da Paraíba e Rio Grande, conquistando os fortes da foz do Rio Paraíba em dezembro, após um mês de duros combates com as forças luso-brasileiras, tomando inclusive a vila de Filipéia de Nossa Senhora das Neves, atual João Pessoa, que passa a ser denominada Frederikstadt em homenagem ao Príncipe de Orange, Frederik Hendrik.

Arciszewski redige o acordo de rendição dos moradores da Paraíba garantindo inclusive a liberdade de religião, baseado no Regimento do Governo das Praças Conquistadas ou que Forem Conquistadas nas Índias Ocidentais, documento com 69 artigos aprovado pelo Conselho dos XIX da WIC.

As tropas comandadas por Chrestofle Arciszewski seguem então para Pernambuco para conquistar o maior bastião português que ainda resistia aos invasores neerlandeses, o Arraial do Bom Jesus, que havia sido construído por determinação de Matias de Albuquerque logo após a invasão, no atual bairro de Casa Amarela, Recife.

O Arraial ou Forte Real do Bom Jesus já estava sob cerco dos mercenários da WIC desde abril de 1635. O cerco vai ficando cada vez mais apertado até que as tropas de Arciszewski rendem os defensores do forte em 08 de junho. No Arraial não havia mais nenhum alimento nem munição, tendo sido consumidos até os animais domésticos e ratos. Ao ser recebida na Holanda a notícia da conquista do forte, a WIC manda cunhar uma medalha comemorativa com a efígie do coronel Arciszewski e uma vista do Arraial.

O próximo passo dos neerlandeses é apoderarem-se do sul da capitania de Pernambuco. Arciszewski leva seus homens para o Cabo de Santo Agostinho, Ipojuca e daí para Vila Formosa, hoje Sirinhaém. Próximo de Barra Grande, litoral norte de Alagoas, as tropas de Arciszewski se encontram com as de Von Schkoppe. Todo o efetivo da WIC na região está em perseguição a uma coluna de oito mil pessoas comandada por Matias de Albuquerque com retirantes do Bom Jesus e de todo sul pernambucano com destino à Bahia.

Passando por Porto Calvo as tropas neerlandesas seguem em direção ao sul de Alagoas. Enquanto isso, uma esquadra luso-espanhola de D. Rodrigo Lobo e D. Lope de Hoces y Córdoba, com 30 navios e 1.700 soldados sob comando do mestre de campo general espanhol D. Luiz de Rojas y Borjas aparece no litoral do Recife e segue para o sul, ancorando em Ponta de Jaraguá, onde hoje se situa o porto de Maceió. D. Rojas y Borjas vem substituir Matias de Albuquerque como comandante do exército luso-brasileiro.

Os homens de Rojas y Borjas seguem para Porto Calvo, assim como as tropas da WIC ao saberem das manobras inimigas. Os exércitos se enfrentam a cinco quilômetros ao sul de Porto Calvo em Mata Redonda. Após dois dias de ferozes combates as tropas de Borjas fogem para Porto Calvo, tendo o mestre de campo general sido morto na batalha.

Em janeiro de 1637 chega ao Recife, Maurício, o Conde Nassau, na condição de Governador e Capitão Geral de Terra e Mar. Depois de poucos dias, Nassau decide atacar as forças luso-brasileiras então alojadas em Porto Calvo sob o comando do general napolitano Giovanni Vicenzo de Sanfelice, Conde de Bagnuolo. Nassau e Von Schkoppe seguem com suas tropas por terra, enquanto Arciszewski leva seu efetivo por mar.

Dia 18 de fevereiro tem início a batalha pela posse de Porto Calvo. Não suportando o assédio neerlandês o Conde de Bagnuolo decide seguir para Alagoa do Sul com pequena tropa e os moradores locais. Em 07 de março os defensores do forte de Porto Calvo se rendem às tropas do Conde de Nassau.

Insatisfeito com a chegada de Maurício de Nassau como comandante supremo no Brasil, Chrestofle Arciszewski retorna à Europa, deixando um relatório denominado Memórias, sobre seus feitos militares e a administração da Nova Holanda. Ao chegar na Holanda ele também entrega uma cópia dessas Memórias aos Estados Gerais em Haia.

Arciszewski sempre enviou relatórios e solicitações para a Holanda cobrando, tanto da Companhia das Índias Ocidentais como dos Estados Gerais, meios para que se mantivessem e se ampliassem as conquistas neerlandesas no Brasil. Alertava sobre o péssimo gerenciamento dos depósitos de alimentos, armas e munições o que provocava a falta desses suprimentos. Reclamava principalmente da lentidão nas decisões do Conselho Político do Recife e na ganância pessoal dos dirigentes da WIC no Brasil. Para ele a solução seria nomear um comandante supremo, com experiência militar e política.

Em dezembro de 1638 a WIC envia da Holanda uma flotilha de sete navios com 1.200 homens sob o comando de Chrestofle Arciszewski no posto de general de artilharia. A expedição chega ao Recife em 20 de março de 1639 e aí começam os atritos entre o polonês e o Conde de Nassau.

Sem reconhecer a autoridade de Arciszewski, Nassau dissolve a tropa recém-chegada, distribuindo seu efetivo entre o contingente local. Nassau também toma conhecimento de uma carta que o polaco intencionava mandar para o burgomestre de Amsterdam, Albert Koenraats van der Borg, com várias denúncias sobre a administração de Nassau. Este convoca o Alto Conselho para que decidam sobre quem ficaria no comando: ele ou Arciszewski. O Conselho manda o polonês de volta para a Holanda, de onde ele não mais voltaria ao Brasil holandês.

Em agosto Arciszewski entrega um documento aos Estados Gerais denominado Apologie onde contesta as acusações que lhe foram imputadas pelo Alto e Secreto Conselho do Recife. Ele permaneceria na Holanda até 1646 quando partiu para a Polônia onde viveu até sua morte em 1656. Foi uma das mais importantes figuras do Brasil holandês, apesar de pouco conhecido na história daquele período.

sábado, 7 de setembro de 2019

O Cabo de Santo Agostinho

Com a invasão de Pernambuco pela expedição da Companhia das Índias Ocidentais em fevereiro de 1630, Portugal teve bloqueado o mais importante porto marítimo brasileiro para a exportação do açúcar, o Recife. Além do principal produto da colônia, havia o envio de fumo, pau-brasil e de outras madeiras nobres para a Portugal, sem contar com uma infinidade de mercadorias que chegavam da Europa para o Brasil através do porto do Recife.

A alternativa mais próxima foi a utilização do porto de Nazaré no Cabo de Santo Agostinho, distante cerca de 40 km ao sul do Recife. Mesmo assim, o acesso a esse ponto era muito dificultado pelo bloqueio naval imposto pelos invasores.

O Cabo de Santo Agostinho apesar de conhecido pelos navegantes de há muito, foi documentado em 26 de janeiro de 1500 pela expedição do espanhol Vicente Yáñez Pinzón que ancorou na enseada de Nazaré. Apesar de não ter grandes altitudes, o relevo do local se destacava das terras ao redor facilitando sua localização desde o oceano. Implantadas as capitanias hereditárias em 1534, o local estava contido na capitania de Pernambuco, de Duarte Coelho. No entanto, a colonização só foi implementada quase trinta anos depois por Duarte Coelho de Albuquerque, filho do primeiro donatário e seu sucessor na capitania. Ele expulsou os índios Caetés e distribuiu sesmarias onde foram plantadas lavouras de cana de açúcar e construídos engenhos por toda de região de Nazaré do Cabo.

Em 1627 alguns iates neerlandeses apresaram navios portugueses ao largo do Cabo. As pilhagens continuaram ano seguinte e outras naus de Portugal transportando açúcar, pau-brasil e tabaco foram tomadas pelos neerlandeses no litoral do Cabo de Santo Agostinho. Após a conquista de Olinda e do Recife em 1630 o Conde de Bagnuolo, designado comandante das tropas em Pernambuco e Matias de Albuquerque determinam a instalação de duas baterias na enseada de Calhetas, ao norte do porto de Nazaré, no final de 1631.

Já em março de 1632 os homens da Companhia das Índias Ocidentais em dezoito navios sob comando do tenente-coronel Steyn Callenfels tentavam conquistar o porto desembarcando em Calhetas e atacando as baterias de Nazaré. As tropas da WIC são rechaçadas pela guarnição do fortim e voltam para o Recife. Visando melhorar a defesa do porto os portugueses constroem outro forte mais ao sul, também denominado Forte de Nazaré.

Dois anos depois da primeira tentativa os holandeses atacam o Cabo de Santo Agostinho novamente com um desembarque na praia de Itapuama, bem mais ao norte do porto, mesmo assim sem sucesso. No dia seguinte, 05 de março de 1634, outros barcos da WIC penetram pela barra do porto do Cabo e fundeiam próximo à povoação do Pontal de Nazaré, desembarcando suas tropas, inclusive Domingos Calabar. Os locais queimam as casas e armazéns, mas os holandeses ainda tomam 1.300 caixas de açúcar e grande quantidade de pau-brasil. Em 06 de março Matias de Albuquerque traz tropas do Arraial do Bom Jesus para combater os invasores e no dia seguinte conseguem retomar algumas posições, mas são vencidas com a ajuda da artilharia dos navios ancorados no litoral.

No dia 08 de junho de 1635 cai o Arraial do Bom Jesus, a última e mais importante fortificação luso-brasileira no entorno do Recife. Alguns dias depois o coronel Chrestofle Arciszewski parte do Arraial com suas tropas em direção ao Cabo de Santo Agostinho. Em 02 de julho o restante da guarnição do Forte de Nazaré rende-se aos comandados de Arciszewski. A maioria dos defensores havia partido acompanhando a coluna chefiada por Matias de Albuquerque com destino às Alagoas. Os portugueses não tem mais nenhum bom porto em Pernambuco para enviar mercadorias ou receber tropas, armas e suprimentos para combater os invasores.

Somente com a chamada Insurreição Pernambucana a partir de 1645 é que as tropas luso-brasileiras retomam o Forte de Nazaré. Em 03 de setembro o capitão Van Hoogstraeten, com a participação do coronel Casper van der Ley e Albert Gerritsz Wedda entregam a fortificação a troco de 6 mil cruzados, supostamente para pagamento do soldo atrasado da guarnição.

Um dos objetivos do efetivo neerlandês que participou da primeira batalha dos Montes Guararapes em 18 de abril de 1648 era retomar a Muribeca e o Cabo de Santo Agostinho para interromper o fluxo de suprimentos para os insurretos, já que o Recife continuava nas mãos dos neerlandeses, que ainda tinham o domínio de boa parte do litoral nordestino.

A importância do Cabo de Santo Agostinho e do seu porto ainda estão presentes em Pernambuco, haja vista a implantação do Porto de Suape, um pouco ao sul dos locais mencionados no texto acima, sancionado em 1978 pelo governo pernambucano. É o quinto maior porto brasileiro e em seu entorno instalou-se um complexo industrial.

terça-feira, 19 de março de 2019

Visita aos Arrecifes

O engenheiro francês Louis-Léger Vauthier vem para o Recife em 1840 a convite do então Barão da Boa Vista, Francisco do Rego Barros, presidente da província de Pernambuco, para implementar obras no Recife e nas localidades vizinhas. Foi responsável pelo projeto e construção do Teatro de Santa Isabel, a ponte pênsil da Caxangá, projeto para distribuição de água potável e tratamento de águas servidas no Recife, do levantamento da planta da cidade, além de um mapa topográfico da província de Pernambuco.

Tendo partido do porto de Le Havre, França,  em 24 de julho de 1840, chegou ao Recife em 8 de setembro. No dia 7 de outubro o engenheiro Vauthier faz um passeio pelos arrecifes, assim descrito por ele em seu diário:

Visitei esta manhã o pequeno farol do Recife e o próprio recife. Fiz essa excursão num escaler¹ do Arsenal de Marinha, acompanhado pelo inspetor e pelo fiel² Acates.

Partimos às seis horas. Visitamos primeiro o farol – construído sem gosto e de forma pouco racional. Muito malconservado, data de 1817. Seu sistema de iluminação é constituído de 21 refletores parabólico, reunidos em três fileiras horizontais, sobre as três faces de um tronco de pirâmide triangular equilátera. Os sete refletores correspondentes a uma das faces tem do lado esquerdo vidros vermelhos. Os refletores de cada face são paralelos ao mesmo eixo e a luz é rotatória, movida de modo primitivo. O farol tem três luzes – duas brancas e uma vermelha.

Depois disso, percorri o recife. Em vários pontos, o mar agitado passava por cima da cadeia de rochedos. Desembarquei duas vezes, a princípio só com Monsieur Boulitreau³, depois uma segunda vez com o inspetor e alguns marinheiros. Da última vez, demos uns 400 passos pelo recife que, nessa parte, forma uma espécie da calçada lisa em sua superfície geral e tem cerca de 30 metros de largura. A massa do rochedo é de um grés4 fortemente aglutinado e muito fino. Em alguns lugares a superfície é irregular, em certos pontos, coberta de escassa vegetação marinha de textura mucilaginosa; em outros, há pequenas conchas – de forma especial, muito comuns nas costas da Bretanha – presas fortemente ao rochedo em que vivem.

Extraído do livro Pontes e Ideias de Claudia Poncioni, CEPE Editora

1 – escaler é um pequeno barco, ou bote, que serve para transporte de passageiros e/ou carga entre um navio e a praia ou porto e vice-versa.
2 – fiel é um antigo cargo da Intendência da Marinha.
3 – Pierre-Victor Bolitreau foi um engenheiro francês que veio com Vauthier para o Recife, tendo sido responsável por diversas obras. Depois tornou-se proprietário de um engenho de açúcar no Cabo de Santo Agostinho. Faleceu em 1882 no engenho São João.
4 – grés ou arenito é uma rocha sedimentar composta de grãos de areia unidos por material silicoso ou calcário.

sábado, 9 de março de 2019

A Ilha de Itamaracá


Itamaracá, 40 km ao norte do Recife, está registrada no início da história do Brasil, sendo colonizada a partir de 1516 pela construção do primeiro engenho de açúcar da América Portuguesa. Pero Capico, chegado na expedição de Cristovão Jaques, havia sido designado como capitão do litoral brasileiro pelo Alvará Régio de D. Manuel I. Outros portugueses teriam chegado à Ilha de Itamaracá por acaso devido a naufrágios na costa pernambucana.

O nome Itamaracá vem do Tupi-guarani e significa pedra que canta.  

O primeiro núcleo urbano da ilha estava localizado no alto de um lugar elevado, característica da colonização lusitana. Era a Vila de Nossa Senhora da Conceição, depois Vila Velha, na parte sul de Itamaracá e onde estava instalada a capela de Nossa Senhora da Conceição, que existe até hoje.

Em 1631 as tropas da WIC chegam até a ilha e constroem uma fortificação na extremidade sudeste de Itamaracá para controlar a entrada do Canal de Santa Cruz, que separa a ilha do continente, o Forte Orange, denominação em homenagem à Casa de Orange, da família real holandesa.

Apenas em 1633 os neerlandeses tomam a Vila Velha, denominando-a então de Vila Schkoppe, nome do comandante, o alemão Sigmund von Schkoppe. O Forte Orange é reforçado com artilharia.

Vários combates tiveram lugar na Ilha de Itamaracá, tendo sido aventada a possibilidade de transferência da capital do domínio neerlandês para aquele local devido à abundância de água potável e madeira. Da ilha partem ataques contra Igarassú e Goiana.

Em setembro de 1645, em prosseguimento à Insurreição Pernambucana, os luso-brasileiros atacam Itamaracá, mas são contidos pelos homens da WIC no local e por reforços vindos do Recife. Os insurretos recuam para Igarassu e depois seguem para a Várzea. Em abril de 1646 outra tentativa de expulsar os neerlandeses é fracassada, com muitas baixas nos insurretos. Em junho do mesmo ano os luso-brasileiros conseguem desembarcar 2.000 homens na ilha. Os holandeses abandonam a Vila Schkoppe e concentram-se no Forte Orange. Em julho, os invasores recebem reforços no Recife vindos da Europa e os insurretos abandonam Itamaracá temendo ataque pelos holandeses. Destroem as fortificações e levam os armamentos.

Em janeiro de 1654 os neerlandeses rendem-se no Recife, assinando um tratado em que devolviam todos os locais conquistados no Brasil.

O distrito de Itamaracá foi criado em 1866, tornando-se cidade em 1959, quando foi desmembrada de Igarassu.

quarta-feira, 6 de março de 2019

As Alagoas


Os registros históricos das terras das chamadas Alagoas vem de antes do descobrimento oficial do Brasil em 1500. As costas da região entre o Rio Una e o Rio São Francisco eram acessadas por navegantes europeus que mantinham contato com os índios Caetés em busca do pau brasil. O nome Alagoas era originário das duas lagoas costeiras que existem a meio caminho entre os dois rios citados antes. Chamam-se Mundaú e Manguaba, ricas em peixes e frutos do mar, inclusive o famoso sururu.

Com a implantação do sistema de Capitanias Hereditárias a região das Alagoas fazia parte da Capitania de Pernambuco, do donatário Duarte Coelho Pereira. A colonização teve início com a fundação de Penedo, cerca de 30 km do litoral, na margem esquerda do São Francisco. A região começou a produzir cana de açúcar e surgiram diversos engenhos. Também foram implantados currais de gado e lavouras de fumo. Quase tudo era levado para Olinda, Recife e arredores. Também importante foi a região de Porto Calvo, na zona da mata norte, com engenhos de açúcar, e que servia de pouso para viajantes com destino ao Rio São Francisco. No litoral, próximo às duas lagoas, estavam os portos de Jaraguá e do Francês.

Um fato que marcou Alagoas no século XVI foi a morte do bispo D. Pero Fernandes Sardinha em 1556. O navio em que o primeiro bispo do Brasil seguia de Salvador para Portugal naufragou no litoral da atual cidade de Coruripe e tendo conseguido chegar à praia, foi preso e depois devorado pelos índios Caetés. Em retaliação, os portugueses enviaram uma expedição sob comando de Jerônimo de Albuquerque que exterminou grande número dos indígenas daquela tribo.

Seguindo a invasão neerlandesa de 1630 o território alagoano foi palco de muitas lutas que destruíram plantações e engenhos de açúcar. Os principais focos das contendas foram Porto Calvo e Penedo, que trocaram de mão várias vezes. Os holandeses construíram fortes nas duas vilas e os luso-brasileiros foram empurrados para além do Rio São Francisco, tendo os homens da Companhia das Índias Ocidentais chegado até localidades de Serigipe d’El-Rey, hoje Sergipe, na margem oposta do grande rio.

Chegando a Penedo em 1637, o Conde Maurício de Nassau enxergava na região um grande potencial para a agricultura e pecuária, tendo escrito ao Príncipe de Orange, Frederik Hendrik, pedindo recursos humanos e materiais para colonizar aquelas localidades.

No século XVII nas terras das Alagoas também surgiu o Quilombo dos Palmares, na Serra da Barriga, hoje União dos Palmares. Reunia negros escravos fugidos de diversas localidades do Nordeste e que se organizaram em uma sociedade que cultivava diversas lavouras, além de praticar a caça, pesca e o artesanato, que trocavam por outros produtos com as comunidades vizinhas. Após um século de resistência aos ataques externos o Palmares foi conquistado em 1696 pelo bandeirante Domingos Jorge Velho, que matou o último chefe dos quilombolas, Zumbi. Sua cabeça foi levada ao Recife e exposta no Pátio do Carmo como exemplo de punição aos escravos.

A comarca de Alagoas foi criada pelo Ato Régio de 09 de outubro de 1710, sendo instalada no ano seguinte. Em 16 de setembro de 1817 ela foi desmembrada da capitania de Pernambuco em retaliação da Coroa pela Revolução Pernambucana daquele ano.

sábado, 8 de dezembro de 2018

Josué Descreve o Recife


O Recife não é cidade duma só cor, nem dum só cheiro, como muitas encontradas por Kipling¹ em suas viagens, que depois as podia evocar admiravelmente num só adjetivo, expressão dum estado sensorial. Longe disto. Por seu arranjo arquitetônico, pela tonalidade própria de cada uma de suas ruas, o Recife é desconcertante, como unidade urbana, impossível mesmo de caracterizar-se. Casas de todos os estilos. Contrastes violentos nas cores gritantes das fachadas. Cidade feita de manchas locais diferentes, não há por onde se possa apanhar na fisionomia das casas o tom predominante da alma da cidade.

Quem diria que deste outro lado do Atlântico, no Brasil, país de mestiços e bem nos trópicos, o viajante iria topar com um espetáculo destes, logo no primeiro porto que o navio toca? Salta o viajante do paquete², desce ao longo dos armazéns e desemboca mesmo na praça monumental³. Cinco avenidas se abrindo em leque, com magníficos estabelecimentos comerciais. Ruas largas, limpas, retas, com as filas inquebrantáveis dos edifícios uniformemente solenes. Bancos, telégrafos, companhias de vapores... Prédios asseados com um ar de disciplina e de riqueza. É verdade que estas ruas são curtas, curtinhas mesmo, se acabando logo ali adiante na beira do rio. Mas quando elas se acabam, lá vem as pontes lançadas elegantemente sobre o Capibaribe. E depois outras praças: a da Independência e a da República, com seus palácios e palacetes, do Governo, da Justiça, do Diário de Pernambuco, todos feios, feiíssimos, mas também monumentais como grandes cidades europeias.

As pontes nos trazem ao bairro de Santo Antônio, das repartições públicas, das casas de modas, do comércio a varejo, dos cinemas e das confeitarias, e da elegância da Rua Nova, cheia de casas velhas. Casarões de três, quatro andares, pregados a meias-águas só de andar térreo. O bairro da Boa Vista continua, com magros sobrados de varandas de ferro espremidos pela Rua da Imperatriz abaixo.

Já São José tem um aspecto quase suburbano, inteiramente diferente, com suas ruas atropeladas, enoveladas, com suas casas em promiscuidade, com seus pequenos funcionários públicos de vida apertada para parecer classe média, morando em casinha de porta e janela, e com seu comércio de artigos baratos, com preços apregoados nas portas por árabes e turcos. Ruas estreitas, becos, travessas. Confusão. O aperto da Rua Direita e da Rua do Livramento. Cenário oriental. Mercado de miudezas e de chitas vistosas pregadas nas fachadas das casas, de nomes ingenuamente deliciosos: A Simpatia, A Magnólia, etc.

O Recife é todo esse mosaico de cores, de cheiros e de sons. Nesse desadorado caos urbano, reflexo confuso da fusão violenta de várias expressões culturais, só uma coisa tende a dar um sentido estético próprio à cidade. A absorver e a anular os efeitos dos contrastes desnorteadores, dando um selo inconfundível à cidade. É a paisagem natural que a envolve. O seu mundo circundante, com seus acidentes geográficos e sua atmosfera sempre em vibração, varada em todos os sentidos pelos reflexos da luz sobre as águas.

Heródoto4 dizia que o Egito era um dom do Nilo. Também o Recife é um dom dos seus rios. Das águas dos seus rios encontrando as águas do mar, formando bancos de pedras – recifes. Rios que deram origem à cidade e foram importantes fatores de sua história. Rios nativistas, como os chamou Artur Orlando, que ajudaram a expulsar da pátria o invasor holandês. Rios que vem de muito longe, disfarçando no acaso de seus coleios, a ânsia de se encontrarem.

Já dentro da cidade, o Capibaribe lança um braço para um lado, segue para outro lado, fazendo um cerco pro Beberibe não escapar. Alcança-o logo adiante, e aí os dois rios se entrelaçam, se confundem e afogam nas suas águas misturadas, esse prazer profundo de ânsias causadas pelas distâncias percorridas.

Recife, resumo das aventuras heroicas de que os rios contaram e continuam contando, ao se encontrarem numa praia do Atlântico. Recife: telhados, torres e cúpulas. Ondulações. Ruínas históricas. Lendas portuguesas, holandesas e afro-brasileiras. Recife, azulejo lavado de luz, à sombra dos coqueiros, boiando nas águas.

Cronica de Josué de Castro no livro Documentário do Nordeste, de 1937.

Josué de Castro, nascido no Recife em 1908, médico, geógrafo, professor, cientista social, político e embaixador, indicado quatro vezes para o Nobel da Paz, foi ainda Presidente do Conselho Executivo da FAO.

1–Rudyard Kipling, escritor e poeta britânico, famoso por livros de aventuras publicados no início do século XX, ambientados na África e Índia.
2-Paquete, antigo navio movido a vapor que encurtou as viagens entre a Europa e as Américas, sendo alguns de alto luxo.
3-Essa era a antiga Praça Rio Branco, hoje Praça do Marco Zero.
4-Heródoto, nascido em 485 A.C., geógrafo e historiador grego, é considerado o pai da historiografia.

sexta-feira, 2 de novembro de 2018

Joaquim Nabuco Descreve o Recife


Servindo de cicerone ao escritor português Ramalho Ortigão, o abolicionista Joaquim Aurélio Barreto Nabuco faz uma apaixonada descrição da nossa terra no jornal O Paiz do Rio de Janeiro, N. 1151, edição de quarta-feira, 30 de novembro de 1887.

Voltando de Olinda, Ramalho Ortigão percorreu esta cidade, que é para elle, como para todos que a tem visitado, a mais bella do Brazil, e a sua impressão foi a mesma que tem o estrangeiro que aqui desembarca depois de ter estado no Rio e na Bahia. O que primeiro fere a vista no Recife é a limpeza da cidade, a brancura de toda ella.

Ve-se bem a cidade de um povo de rio, que vive n’agua, como o pernambucano. É um reflexo da Hollanda que brilha ainda aqui!

O Recife é com effeito uma Veneza, não pelos palácios de mármore do grande canal, que mostram, a meu ver, a mais bella phase da architectura da Renascença, não por essa praça de S. Marcos, que só tem uma rival no mundo, na praça da velha Pisa, com os quatro incomparáveis e solitários edifícios da sua gloria. O Recife não tem nada disso, mas como Veneza, é uma cidade que sahe d’agua e que nella se reflecte, é uma cidade que sente a palpitação do oceano no mais profundo dos seus recantos; como Veneza ella tem um ceo azul que parece lavado em suas aguas, como se lavam os navios de grandes nuvens brancas como toldos, como Veneza basta uma canção na agua e uma bandeira solta ao vento para dar-lhe um aspecto festivo e risonho, e por fim como Veneza, ella tem um passado que a corôa como uma aureola e que brilha ao luar sobre suas pontes, e as suas torres como a alma de uma nacionalidade morta!      

Melhor porem do que Veneza, os canaes do Recife são rios, a cidade sahe da agua doce e não da marezia das lagunas, o seu horizonte é amplo e descoberto, as sua pontes são compridas como terraços suspensos sobre a agua e o oceano vem se quebrar diante della em um lençol de espumas por sobre o extenso recife que a guarda, como uma trincheira, genuflexório imenso, onde o eterno aluidor da terra se ajoelhara ainda por séculos diante da graça frágil dos coqueiros!

Recife, novembro de 1887.


quinta-feira, 11 de outubro de 2018

O Sermão dos Escravos do Açúcar


“Destes devem ser mais devotos, e nestes se devem mais exercitar, acompanhando a Cristo neles, como fez São João na sua Cruz. Mas, assim como entre todos os mistérios do Rosário estes são os que mais propriamente pertencem aos pretos, assim entre todos os pretos os que mais particularmente os devem imitar e meditar são os que servem e trabalham nos engenhos, pela semelhança e rigor do mesmo trabalho.

Encarecendo o mesmo Redentor o muito que padeceu em sua sagrada Paixão, que são os mistérios dolorosos, compara as suas dores às penas do inferno: Dolores inferni circumdederunt me (As dores do inferno me cercam). - E que coisa há na confusão deste mundo mais semelhante ao inferno que qualquer destes vossos engenhos, e tanto mais quanto de maior fábrica? Por isso foi tão bem recebida aquela breve e discreta definição de quem chamou a um engenho de açúcar doce inferno.

E, verdadeiramente, quem vir na escuridade da noite aquelas fornalhas tremendas perpetuamente ardentes; as labaredas que estão saindo a borbotões de cada uma, pelas duas bocas ou ventas por onde respiram o incêndio; os etíopes ou ciclopes banhados em suor, tão negros como robustos, que soministram a grossa e dura matéria ao fogo, e os forcados com que o revolvem e atiçam; as caldeiras, ou lagos ferventes, com os cachões sempre batidos e rebatidos, já vomitando escumas, já exalando nuvens de vapores mais de calor que de fumo, e tornando-os a chover para outra vez os exalar; o ruído das rodas, das cadeias, da gente toda da cor da mesma noite, trabalhando vivamente, e gemendo tudo ao mesmo tempo, sem momento de tréguas nem de descanso; quem vir, enfim, toda a máquina e aparato confuso e estrondoso daquela Babilônia, não poderá duvidar, ainda que tenha visto Etnas e Vesúvios, que é uma semelhança de inferno.

Mas, se entre todo esse ruído, as vozes que se ouvirem forem as do Rosário, orando e meditando os mistérios dolorosos, todo esse inferno se converterá em paraíso, o ruído em harmonia celestial, e os homens, posto que pretos, em anjos.”


Padre Antônio Vieira       
Sermão XIV do Rosário, 1633

sábado, 6 de outubro de 2018

Gaspar Dias Ferreira


No dia 11 de maio de 1644 o Conde de Nassau deixa Mauritsstad com sua comitiva e segue para a Paraíba, de onde embarcaria em Cabedelo de volta à Europa.

Dentre as diversas pessoas que o acompanharam, inclusive alguns índios, estava o português Gaspar Dias Ferreira, seu secretário. Ferreira, cristão-novo nascido em Lisboa, viera ao Brasil em 1614, estabelecendo-se como comerciante, com vários armazéns no porto do Recife.

Em 1630 os holandeses invadem Olinda e o Recife através de uma expedição da WIC – Companhia das Índias Ocidentais. Gaspar Dias Ferreira é muito prejudicado pela guerra que se estabelece em Pernambuco e capitanias vizinhas que paralisa os negócios.

Insatisfeitos com o desenrolar dos acontecimentos na conquista, os Heeren XIX, conselho diretor da WIC, em conjunto com os Estados Gerais, decidem enviar ao Brasil holandês o Conde Johann Moritz von Nassau-Siegen como governador e Capitão Geral de Terra e Mar com plenos poderes para administrar e fazer a guerra contra os portugueses.

Chegando ao Recife em janeiro de 1637 Nassau contrata Ferreira como seu conselheiro, inclusive no trato com os judeus. Por influência de Nassau, Ferreira vai tornando-se cada vez mais poderoso e envolvido em toda sorte de negócios, honestos ou não, conseguindo comprar dois dos engenhos de açúcar confiscados pelos holandeses. Tornou-se uma espécie de procurador geral do Conde.

A Companhia das Índias Ocidentais desaprova cada vez mais os gastos crescentes de Nassau com atividades sem importância aos olhos dos seus diretores. No dia 30 de setembro de 1643 o Conde Maurício de Nassau recebe o comunicado de sua dispensa do cargo de governador da Nova Holanda. Gaspar Dias Ferreira já havia percebido que os neerlandeses não conseguiriam manter suas conquistas no Brasil após o retorno de Nassau à Europa e decide acompanhar seu protetor.

Nassau chega à Holanda e apresenta relatório aos Estados Gerais mostrando a difícil situação da conquista no Brasil, enfatizando a necessidade de investimento para manutenção dos territórios. No início de 1645 Gaspar Dias Ferreira consegue a cidadania neerlandesa.

Ferreira intencionava manter seus negócios no Brasil e em 20 de julho de 1645 envia uma carta ao Rei D. João IV descrevendo as riquezas brasileiras e o muito que representavam para a Coroa lusitana. Seu plano era que Portugal pagasse uma indenização às Províncias Unidas dos Países Baixos para reaver os territórios perdidos na invasão. No entanto, sua boa sorte acaba um mês depois, quando em um navio apresado pela WIC com destino a Portugal são encontradas cartas dele ao Rei português tratando da negociação para devolução da Nova Holanda a Portugal.

Em 26 de outubro Gaspar Dias Ferreira é preso na Holanda acusado de alta traição. Seu julgamento é realizado em maio de 1646 e ele é condenado a sete anos de trabalhos forçados e multa de 12 mil florins. Após cumprir a sentença seria deportado dos Países Baixos. No entanto, usando de sua influência e dinheiro, Ferreira consegue fugir da prisão em 1649 subornando a guarda da prisão e seguindo para Portugal.

Em sua terra natal, Gaspar Dias Ferreira continua a tirar proveito de suas relações com pessoas da Coroa, passando a ser conselheiro do Rei e posteriormente cavaleiro da Ordem de Cristo e da Casa Real. Faleceu em 1656.