sábado, 8 de dezembro de 2018

Josué Descreve o Recife


O Recife não é cidade duma só cor, nem dum só cheiro, como muitas encontradas por Kipling¹ em suas viagens, que depois as podia evocar admiravelmente num só adjetivo, expressão dum estado sensorial. Longe disto. Por seu arranjo arquitetônico, pela tonalidade própria de cada uma de suas ruas, o Recife é desconcertante, como unidade urbana, impossível mesmo de caracterizar-se. Casas de todos os estilos. Contrastes violentos nas cores gritantes das fachadas. Cidade feita de manchas locais diferentes, não há por onde se possa apanhar na fisionomia das casas o tom predominante da alma da cidade.

Quem diria que deste outro lado do Atlântico, no Brasil, país de mestiços e bem nos trópicos, o viajante iria topar com um espetáculo destes, logo no primeiro porto que o navio toca? Salta o viajante do paquete², desce ao longo dos armazéns e desemboca mesmo na praça monumental³. Cinco avenidas se abrindo em leque, com magníficos estabelecimentos comerciais. Ruas largas, limpas, retas, com as filas inquebrantáveis dos edifícios uniformemente solenes. Bancos, telégrafos, companhias de vapores... Prédios asseados com um ar de disciplina e de riqueza. É verdade que estas ruas são curtas, curtinhas mesmo, se acabando logo ali adiante na beira do rio. Mas quando elas se acabam, lá vem as pontes lançadas elegantemente sobre o Capibaribe. E depois outras praças: a da Independência e a da República, com seus palácios e palacetes, do Governo, da Justiça, do Diário de Pernambuco, todos feios, feiíssimos, mas também monumentais como grandes cidades europeias.

As pontes nos trazem ao bairro de Santo Antônio, das repartições públicas, das casas de modas, do comércio a varejo, dos cinemas e das confeitarias, e da elegância da Rua Nova, cheia de casas velhas. Casarões de três, quatro andares, pregados a meias-águas só de andar térreo. O bairro da Boa Vista continua, com magros sobrados de varandas de ferro espremidos pela Rua da Imperatriz abaixo.

Já São José tem um aspecto quase suburbano, inteiramente diferente, com suas ruas atropeladas, enoveladas, com suas casas em promiscuidade, com seus pequenos funcionários públicos de vida apertada para parecer classe média, morando em casinha de porta e janela, e com seu comércio de artigos baratos, com preços apregoados nas portas por árabes e turcos. Ruas estreitas, becos, travessas. Confusão. O aperto da Rua Direita e da Rua do Livramento. Cenário oriental. Mercado de miudezas e de chitas vistosas pregadas nas fachadas das casas, de nomes ingenuamente deliciosos: A Simpatia, A Magnólia, etc.

O Recife é todo esse mosaico de cores, de cheiros e de sons. Nesse desadorado caos urbano, reflexo confuso da fusão violenta de várias expressões culturais, só uma coisa tende a dar um sentido estético próprio à cidade. A absorver e a anular os efeitos dos contrastes desnorteadores, dando um selo inconfundível à cidade. É a paisagem natural que a envolve. O seu mundo circundante, com seus acidentes geográficos e sua atmosfera sempre em vibração, varada em todos os sentidos pelos reflexos da luz sobre as águas.

Heródoto4 dizia que o Egito era um dom do Nilo. Também o Recife é um dom dos seus rios. Das águas dos seus rios encontrando as águas do mar, formando bancos de pedras – recifes. Rios que deram origem à cidade e foram importantes fatores de sua história. Rios nativistas, como os chamou Artur Orlando, que ajudaram a expulsar da pátria o invasor holandês. Rios que vem de muito longe, disfarçando no acaso de seus coleios, a ânsia de se encontrarem.

Já dentro da cidade, o Capibaribe lança um braço para um lado, segue para outro lado, fazendo um cerco pro Beberibe não escapar. Alcança-o logo adiante, e aí os dois rios se entrelaçam, se confundem e afogam nas suas águas misturadas, esse prazer profundo de ânsias causadas pelas distâncias percorridas.

Recife, resumo das aventuras heroicas de que os rios contaram e continuam contando, ao se encontrarem numa praia do Atlântico. Recife: telhados, torres e cúpulas. Ondulações. Ruínas históricas. Lendas portuguesas, holandesas e afro-brasileiras. Recife, azulejo lavado de luz, à sombra dos coqueiros, boiando nas águas.

Cronica de Josué de Castro no livro Documentário do Nordeste, de 1937.

Josué de Castro, nascido no Recife em 1908, médico, geógrafo, professor, cientista social, político e embaixador, indicado quatro vezes para o Nobel da Paz, foi ainda Presidente do Conselho Executivo da FAO.

1–Rudyard Kipling, escritor e poeta britânico, famoso por livros de aventuras publicados no início do século XX, ambientados na África e Índia.
2-Paquete, antigo navio movido a vapor que encurtou as viagens entre a Europa e as Américas, sendo alguns de alto luxo.
3-Essa era a antiga Praça Rio Branco, hoje Praça do Marco Zero.
4-Heródoto, nascido em 485 A.C., geógrafo e historiador grego, é considerado o pai da historiografia.

sexta-feira, 2 de novembro de 2018

Joaquim Nabuco Descreve o Recife


Servindo de cicerone ao escritor português Ramalho Ortigão, o abolicionista Joaquim Aurélio Barreto Nabuco faz uma apaixonada descrição da nossa terra no jornal O Paiz do Rio de Janeiro, N. 1151, edição de quarta-feira, 30 de novembro de 1887.


Voltando de Olinda, Ramalho Ortigão percorreu esta cidade, que é para elle, como para todos que a tem visitado, a mais bella do Brazil, e a sua impressão foi a mesma que tem o estrangeiro que aqui desembarca depois de ter estado no Rio e na Bahia. O que primeiro fere a vista no Recife é a limpeza da cidade, a brancura de toda ella.

Ve-se bem a cidade de um povo de rio, que vive n’agua, como o pernambucano. É um reflexo da Hollanda que brilha ainda aqui!

O Recife é com effeito uma Veneza, não pelos palácios de mármore do grande canal, que mostram, a meu ver, a mais bella phase da architectura da Renascença, não por essa praça de S. Marcos, que só tem uma rival no mundo, na praça da velha Pisa, com os quatro incomparáveis e solitários edifícios da sua gloria. O Recife não tem nada disso, mas como Veneza, é uma cidade que sahe d’agua e que nella se reflecte, é uma cidade que sente a palpitação do oceano no mais profundo dos seus recantos; como Veneza ella tem um ceo azul que parece lavado em suas aguas, como se lavam os navios de grandes nuvens brancas como toldos, como Veneza basta uma canção na agua e uma bandeira solta ao vento para dar-lhe um aspecto festivo e risonho, e por fim como Veneza, ella tem um passado que a corôa como uma aureola e que brilha ao luar sobre suas pontes, e as suas torres como a alma de uma nacionalidade morta!      

Melhor porem do que Veneza, os canaes do Recife são rios, a cidade sahe da agua doce e não da marezia das lagunas, o seu horizonte é amplo e descoberto, as sua pontes são compridas como terraços suspensos sobre a agua e o oceano vem se quebrar diante della em um lençol de espumas por sobre o extenso recife que a guarda, como uma trincheira, genuflexório imenso, onde o eterno aluidor da terra se ajoelhara ainda por séculos diante da graça frágil dos coqueiros!

Recife, novembro de 1887.


quinta-feira, 11 de outubro de 2018

O Sermão dos Escravos do Açúcar


“Destes devem ser mais devotos, e nestes se devem mais exercitar, acompanhando a Cristo neles, como fez São João na sua Cruz. Mas, assim como entre todos os mistérios do Rosário estes são os que mais propriamente pertencem aos pretos, assim entre todos os pretos os que mais particularmente os devem imitar e meditar são os que servem e trabalham nos engenhos, pela semelhança e rigor do mesmo trabalho.

Encarecendo o mesmo Redentor o muito que padeceu em sua sagrada Paixão, que são os mistérios dolorosos, compara as suas dores às penas do inferno: Dolores inferni circumdederunt me (As dores do inferno me cercam). - E que coisa há na confusão deste mundo mais semelhante ao inferno que qualquer destes vossos engenhos, e tanto mais quanto de maior fábrica? Por isso foi tão bem recebida aquela breve e discreta definição de quem chamou a um engenho de açúcar doce inferno.

E, verdadeiramente, quem vir na escuridade da noite aquelas fornalhas tremendas perpetuamente ardentes; as labaredas que estão saindo a borbotões de cada uma, pelas duas bocas ou ventas por onde respiram o incêndio; os etíopes ou ciclopes banhados em suor, tão negros como robustos, que soministram a grossa e dura matéria ao fogo, e os forcados com que o revolvem e atiçam; as caldeiras, ou lagos ferventes, com os cachões sempre batidos e rebatidos, já vomitando escumas, já exalando nuvens de vapores mais de calor que de fumo, e tornando-os a chover para outra vez os exalar; o ruído das rodas, das cadeias, da gente toda da cor da mesma noite, trabalhando vivamente, e gemendo tudo ao mesmo tempo, sem momento de tréguas nem de descanso; quem vir, enfim, toda a máquina e aparato confuso e estrondoso daquela Babilônia, não poderá duvidar, ainda que tenha visto Etnas e Vesúvios, que é uma semelhança de inferno.

Mas, se entre todo esse ruído, as vozes que se ouvirem forem as do Rosário, orando e meditando os mistérios dolorosos, todo esse inferno se converterá em paraíso, o ruído em harmonia celestial, e os homens, posto que pretos, em anjos.”


Padre Antônio Vieira       
Sermão XIV do Rosário, 1633

sábado, 6 de outubro de 2018

Gaspar Dias Ferreira


No dia 11 de maio de 1644 o Conde de Nassau deixa Mauritsstad com sua comitiva e segue para a Paraíba, de onde embarca em Cabedelo de volta à Europa.

Dentre as diversas pessoas que o acompanharam, inclusive alguns índios, estava o português Gaspar Dias Ferreira, seu secretário. Ferreira, cristão-novo nascido em Lisboa, viera ao Brasil em 1614, estabelecendo-se como comerciante, com vários armazéns no porto do Recife.

Em 1630 os holandeses invadem Olinda e o Recife através de uma expedição da WIC – Companhia das Índias Ocidentais. Gaspar Dias Ferreira é muito prejudicado pela guerra que se estabelece em Pernambuco e capitanias vizinhas que paralisa os negócios.

Insatisfeitos com o desenrolar dos acontecimentos na conquista, os Heeren XIX, conselho diretor da WIC, em conjunto com os Estados Gerais, decidem enviar ao Brasil holandês o Conde Johann Moritz von Nassau-Siegen como governador e Capitão Geral de Terra e Mar com plenos poderes para administrar e fazer a guerra contra os portugueses.

Chegando ao Recife em janeiro de 1637 Nassau contrata Ferreira como seu conselheiro, inclusive no trato com os judeus. Por influência de Nassau, Ferreira vai tornando-se cada vez mais poderoso e envolvido em toda sorte de negócios, honestos ou não, conseguindo comprar dois dos engenhos de açúcar confiscados pelos holandeses.

A Companhia das Índias Ocidentais desaprova cada vez mais os gastos crescentes de Nassau com atividades sem importância aos olhos dos seus diretores. No dia 30 de setembro de 1643 o Conde Maurício de Nassau recebe o comunicado de sua dispensa do cargo de governador da Nova Holanda. Gaspar Dias Ferreira já havia percebido que os neerlandeses não conseguiriam manter suas conquistas no Brasil após o retorno de Nassau à Europa e decide acompanhar seu protetor.

Nassau chega à Holanda e apresenta relatório aos Estados Gerais mostrando a difícil situação da conquista no Brasil, enfatizando a necessidade de investimento para manutenção dos territórios. No início de 1645 Gaspar Dias Ferreira consegue a cidadania neerlandesa.

Ferreira intencionava manter seus negócios no Brasil e em 20 de julho de 1645 envia uma carta ao Rei D. João IV descrevendo as riquezas brasileiras e o muito que representavam para a Coroa lusitana. Seu plano era que Portugal pagasse uma indenização às Províncias Unidas dos Países Baixos para reaver os territórios perdidos na invasão. No entanto, sua boa sorte acaba um mês depois, quando em um navio apresado pela WIC com destino a Portugal são encontradas cartas dele ao Rei português tratando da negociação para devolução da Nova Holanda a Portugal.

Em 26 de outubro Gaspar Dias Ferreira é preso na Holanda acusado de alta traição. Seu julgamento é realizado em maio de 1646 e ele é condenado a sete anos de trabalhos forçados e multa de 12 mil florins. Após cumprir a sentença seria deportado dos Países Baixos. No entanto, usando de sua influência e dinheiro, Ferreira consegue fugir da prisão em 1649 subornando a guarda da prisão e seguindo para Portugal.

Em sua terra natal, Gaspar Dias Ferreira continua a tirar proveito de suas relações com pessoas da Coroa, passando a ser conselheiro do Rei e posteriormente cavaleiro da Ordem de Cristo e da Casa Real. Faleceu em 1656.


segunda-feira, 16 de julho de 2018

Roteiro Geral da Costa Brasílica

Do rio de Igaruçu ao porto da vila de Olinda são quatro léguas, e está em altura de oito graus. Neste porto de Olinda [Recife] se entra pela boca de um arrecife de pedra ao su-sudoeste e depois norte-sul; e, entrando para dentro ao longo do arrecife, fica o rio Morto, pelo qual entram até acima navios de 100 tonéis até 200, tomam meia carga em cima e acabam de carregar onde chamam "o Poço", defronte da boca do arrecife, onde convém que os navios estejam bem amarrados, porque trabalham aqui muito por andar neste porto sempre o mar de levadio; por esta boca entra o salgado pela terra dentro uma légua ao pé da vila; e defronte do surgidouro dos navios faz este rio outra volta deixando no meio uma ponta de areia onde está uma ermida do Corpo Santo.

Neste lugar vivem alguns pescadores e oficiais da ribeira, e estão alguns armazéns em que os mercadores agasalham os açúcares e outras mercadorias; e desta ponta da areia da banda de dentro se navega este rio até o varadouro, que está ao pé da vila, com caravelões e barcos, e do varadouro para cima se navega com barcos de navios obra de meia légua, onde se faz aguada fresca para as naus da ribeira que vem do engenho de Jerônimo de Albuquerque; também se metem neste rio outras ribeiras por onde vão os barcos dos navios a buscar os açúcares aos paços onde os trazem encaixados e em carros; este esteiro e limite do arrecife é muito farto de peixe de redes que por aqui pescam e do marisco; perto de uma légua da boca deste arrecife está outro boqueirão, que chamam a Barreta, por onde podem entrar barcos pequenos estando o mar bonançoso.

Desta Barreta por diante corre este arrecife ao longo da terra duas léguas, e entre ela e ele se navega com barcos pequenos que vêm do mar em fora, e quem puser os olhos na terra em que está situada esta vila, parecer-lheá que é o cabo de Santo Agostinho, por ser muito semelhante a ele.

Tratado Descritivo do Brasil em 1587
Capítulo XV
Gabriel Soares de Sousa

quinta-feira, 22 de fevereiro de 2018

A Bacia Que Atravessou o Atlântico Três Vezes

Existe na Igreja Evangélica de Siegen, centro-oeste da Alemanha, uma bacia dourada que serve de pia batismal. O objeto mede cerca de 50 cm de diâmetro por 12 cm de fundo.

O Conde Maurício de Nassau recebeu essa bacia como presente quando da visita de uma delegação do Rei do Congo, D. Garcia II, ao Recife em 1643. Os africanos buscavam a intermediação de Nassau para disputa com o Conde do Sonho, que também enviou seus embaixadores ao Recife, pouco depois.

Em 1956, o historiador e arqueólogo alemão Friedrich Muthmann determinou, por comparação, que a bacia era originária da região de Cuzco, Peru, datando a peça por volta de 1580. Tinha sido produzida em prata, principal riqueza explorada pelos espanhóis no Novo Mundo. Segundo a Dra. Mariana Françozo, a peça deve ter sido usada como pagamento no tráfico de escravos pelos portugueses e assim chegou a Angola, na costa ocidental africana.

Descomissionado pela Companhia das Índias Ocidentais do seu cargo de governador do Brasil holandês, o Conde Maurício de Nassau volta à Europa em 1644, levando entre seus tesouros e curiosidades a bacia de prata peruana.

Elevado a Príncipe do Sacro Império Romano-Germânico em 1653, Maurício de Nassau viajou para Frankfurt em 1658 como representante do Grande Eleitor de Brandenburgo, Friedrich Wilhelm. Lá, encaminhou a bacia de prata ao ourives Hans Georg Bauch, encomendando-lhe que a revestisse de ouro e que adaptasse um pedestal, além de inserir no centro da peça o brasão de armas de Nassau.

Depois de pronta, a bacia foi doada pelo Conde Maurício de Nassau para a Igreja Evangélica de Siegen, onde permanece até hoje. A bacia, além do brasão de Nassau, possui em sua borda de 6,5 cm diversas figuras de animais, pessoas, prédios e plantas. Essa curiosa peça, originária da América andina, cruzou toda a América do Sul para ser enviada através do Atlântico sul para a África ocidental. Daí, volta, pelo mesmo oceano, para o Recife no litoral nordeste do Brasil. Por fim, cruza o Oceano Atlântico pela terceira vez, agora até o norte da Europa. Observam-se assim os caminhos dos interesses políticos e comerciais das potências do século XVII na parte ocidental do mundo.

sexta-feira, 22 de dezembro de 2017

Porto Calvo

Porto Calvo, atualmente município de Alagoas, foi palco de intensas lutas entre luso-brasileiros e neerlandeses pela posse da região sul da então capitania de Pernambuco.

Distando 170 km ao sul do Recife, Porto Calvo foi fundado por Cristovão Lintz por volta de 1560, quando percorreu o litoral sul da capitania de Pernambuco. Posteriormente foi erguida uma igreja e dez engenhos de açúcar na região. Servia de pouso para viajantes com destino ao Rio São Francisco. Também era conhecida como Povoação dos Quatro Rios ou de Nossa Senhora da Apresentação.

Em 1630 os holandeses, através da Companhia das Índias Ocidentais - WIC, invadem Olinda e o Recife e começam a ocupar as outras povoações de Pernambuco. Um ano depois, uma frota portuguesa desembarca cerca de mil homens em Barra Grande, que seguem para Porto Calvo a fim de juntarem-se às tropas de Matias de Albuquerque. Daí, marcham para o Cabo de Santo Agostinho, porto que ainda estava em mãos portuguesas. O espião brabantino Adriaen Verdonck, radicado em Olinda, descreve o povoado de Porto Calvo como grande produtor de gado, que periodicamente é trazido ao Recife, além do cultivo de fumo.

Uma expedição holandesa chega a Porto Calvo em 1632, procedente de Porto de Pedras, na foz do Rio Manguaba, que dá acesso àquele povoado. Após apresar açúcar e outras mercadorias, os invasores queimam os armazéns e voltam ao Recife. Neste mesmo ano, entra em cena o mais famoso personagem de Porto Calvo, o mestiço Domingos Fernandes Calabar. Profundo conhecedor da região, das táticas de guerrilha dos luso-brasileiros e com fácil diálogo com os índios, passa para o lado neerlandês e começa a levar os invasores a conquistar vitórias em toda a capitania de Pernambuco e nas terras vizinhas.

Nova incursão neerlandesa na região de Porto Calvo, em 1633, sob comando do sargento-mor Cloppenburch e acompanhada pelo conselheiro Johan Gijsselingh, apreende grande estoque de açúcar. Já em 1634 Matias de Albuquerque ordena a construção de uma fortificação de faxina e terra no povoado. Ainda em 1634, o coronel alemão Sigmund von Schkoppe e o almirante Lichthart deslocam tropas para aquele local, onde travam combate com os luso-brasileiros e tomam mais açúcar em Matriz de Camaragibe, 20 km ao sudoeste de Porto Calvo.

Em 1635 a situação das forças de resistência é desesperadora. O Arraial do Bom Jesus está cercado e quase sem mantimentos de boca e de guerra. Em Porto Calvo os mercenários da WIC derrotam os homens do Conde de Bagnuolo e fortificam o alto onde está a igreja. Em 08 de junho o Arraial do Bom Jesus rende-se às tropas do coronel Chrestofle Arciszewski. Matias de Albuquerque, então na região de Vila Formosa, hoje Serinhaém, recebe os retirantes e forma uma coluna com destino às Alagoas e daí para a Bahia.

Os neerlandeses, tendo conquistado também o Forte de Nazaré, no Cabo de Santo Agostinho, seguem para o sul da capitania. Em 19 de julho as tropas de Matias de Albuquerque tomam o forte de Porto Calvo. Aí prendem Calabar que é sumariamente julgado e condenado como traidor, sendo garroteado e esquartejado. Seus restos mortais foram pendurados na estacada do povoado. Chegando ao local dois dias depois com suas tropas, o coronel Arciszewski manda recolher os despojos de Calabar e enterra-los com honras militares.

No ano seguinte, em 17 de janeiro, ocorre a batalha de Mata Rendonda, duas milhas ao sul de Porto Calvo. Os homens de Arciszewski, derrotam os soldados do mestre de campo general D. Luiz de Rojas y Borjas, que havia substituído Matias de Albuquerque no comando do exército luso-brasileiro em Pernambuco. Borjas é morto no combate, havendo relatos de que foi vítima de fogo amigo. Em 12 de abril do mesmo ano, Duarte de Albuquerque eleva à condição de vila a povoação de Porto Calvo, que passa a se chamar de Vila do Bom Sucesso.

O Conde Maurício de Nassau aporta no Recife no dia 23 de janeiro de 1637. Apenas treze dias depois, Nassau ordena o ataque ao exército luso-brasileiro postado ao sul de Pernambuco. Soldados e índios comandados pelo coronel Von Schkoppe marcham para Porto Calvo a fim de combater as forças do Conde de Bagnuolo, formadas por portugueses, espanhóis, napolitanos, índios e negros. Outros oitocentos homens da WIC seguem por mar, ao comando de Arciszewski. O comando geral da expedição é do Conde de Nassau. Após três semanas de combate o grosso das tropas, juntamente com Bagnuolo, foge em direção ao Rio São Francisco, ficando novamente Porto Calvo em mãos dos neerlandeses.

Em 1645 começa a Insurreição Pernambucana, movimento liderado pelos senhores de engenho contra o domínio holandês, motivado pelas gigantescas dívidas deles para com a WIC. Em 16 de agosto os luso-brasileiros cercam o Forte de Porto Calvo, que só se rende aos insurretos em 17 de setembro. Oito canhões de bronze do forte são enviados ao Arraial Novo do Bom Jesus, então em construção.

A partir daí, Porto Calvo não mais troca de mão, sendo os holandeses derrotados por completo em 1654, assinando a rendição no Recife.

domingo, 12 de novembro de 2017

Josué de Castro

Nasci (no Recife) numa rua que tinha o nome ilustre de Joaquim Nabuco, o grande abolicionista dos escravos, nos tempos do Império. A casa em que nasci tinha ao lado um grande viveiro de peixes, de caranguejos e de siris. Se não nasci mesmo dentro do viveiro, como os caranguejos, já com dois anos estava dentro dele.


O grande Recifense Josué Apolônio de Castro nasceu no dia 05 de setembro de 1908 e atuou como médico, geógrafo, professor e principalmente, no combate à fome. Escreveu livros traduzidos em todo mundo: Geografia da Fome, Geopolítica da FomeSete Palmos de Terra e Um Caixão e Homens e Caranguejos.

Foi presidente do Conselho Executivo da Organização das Nações Unidas para Agricultura e Alimentação (FAO) e Embaixador brasileiro na ONU.

Foi deputado federal por Pernambuco em dois mandatos. Durante o Regime Militar teve cassados seus direitos políticos enquanto era embaixador em Genebra, indo asilar-se em Paris. 

Recebeu o Prêmio Franklin D. Roosevelt da Academia de Ciências Políticas dos Estados Unidos, o Prêmio Internacional da Paz do Conselho Mundial da Paz e a comenda de Oficial da Legião de Honra da França. Foi indicado ao Premio Nobel da Paz nos anos de 1953, 1963, 1964 e 1965.

Faleceu ainda em Paris em 24 de setembro de 1973, estando enterrado no cemitério de São João Batista no Rio de Janeiro.


Bem ao lado da casa começava a zona compacta dos mocambos, das choças de palha e de barro, amontoadas umas por cima das outras num enovelado de ruelas, numa anarquia desesperadora. As casas entrando por dentro da maré, a maré invadindo as casas. Os braços do rio passando pelo meio da rua e a lama envolvendo tudo.

Criei-me nos mangues lamacentos do Capibaribe cujas águas, fluindo diante dos meus olhos ávidos de criança, pareciam estar sempre a me contar uma longa história.


Eu ficava horas e horas imóvel sentado no cais, ouvindo a história do rio, fitando as suas águas correrem como se fosse uma fita de cinema. Foi o rio o meu primeiro professor de história do Nordeste, da história desta terra quase sem história. A verdade é que a história dos homens do Nordeste me entrou muito mais pelos olhos do que pelos ouvidos. Entrou-me por dentro dos meus olhos ávidos de criança sob a forma destas imagens que estavam longe de serem sempre claras e risonhas. Josué de Castro, 1967.

sexta-feira, 21 de julho de 2017

Os Engenhos de Açúcar

Cuthbert Pudsey foi um mercenário inglês a serviço da WIC no Brasil desde a invasão em 1630, permanecendo até 1640 quando segue para as Antilhas, volta a Pernambuco e então retorna à Europa. Escreveu um diário onde narra a viagem marítima até Pernambuco, e descreve o país, seus habitantes, animais e plantas, além dos combates pela posse da terra:

Agora inventaram os engenhos para moer suas canas de açúcar. Seus escravos devem plantar e cortar sua cana, que só necessita ser plantada uma vez a cada sete anos.

Fundidores para fundir suas caldeiras. Pedreiros para fazer os fornos. Carpinteiros para fazer baús. Outros apressam-se a erguer igrejas. Em cada engenhou uma capela, uma escola, um padre, um barbeiro, um ferreiro, um sapateiro, um carpinteiro um marceneiro, um oleiro, um alfaiate, e todos os outros artífices necessários. Pois cada engenho é como um estado em si mesmo e o senhor do engenho justiceiro e juiz em si mesmo.

Quando o engenho mói, ha uma roda que gira por meio de água ou de bois, que movem dois grandes pilares que são construídos redondos, reforçados com ferro, dispostos de modo a estarem próximos um do outro sem se tocarem. E entre esses pilares costuma-se alimentá-los com as canas por dois ou três escravos que passam e repassam a cana. O suco é destilado em certas calhas que o levam até as caldeiras, que trabalham em sequencia, escumando e refinando essa sopa até que ela chega ao ponto de açúcar.

Costumam então, depois que ele está frio e espesso, colocá-lo em formas, e sobre estas, depois de ter ficado certo tempo, tem uma espécie de ciência de fazer uma mistura de cinzas de madeira e óleos com a qual cobrem suas formas para tomar seu açúcar branco e para fazer com que a escória purgue dele. Então, após ter ele estado por cerca de 4 meses no armazém para purgar, sacam-no das formas & quebram-no, secando-o ao sol, o que o torna tão branco como a neve. Feito isto, pesam-no & põem-no em caixas adaptadas para a venda.

Cuthbert Pudsey, Diário de uma permanência no Brasil

sábado, 24 de dezembro de 2016

A Fortaleza de Nossa Senhora dos Remédios

Descoberto o arquipélago de Fernando (ou Fernão) de Noronha entre 1501 e 1503, foi registrado em documentos em 10 de agosto de 1503, por Américo Vespúcio. O navio capitânia da expedição, de Gonçalo Coelho, afundou nos arrecifes do local.

A ilha serviu de entreposto para o comércio de pau-brasil com a Europa até 1512, quando a licença concedida pela Coroa portuguesa a Fernão de Noronha venceu e esta assumiu o controle dos negócios daquela madeira de tinturaria. A família de Noronha, no entanto, continuou com a posse da capitania até 1560.

Em 1629 o comandante holandês Cornelis Corneliszoon Jol, De Houtebeen (o perna-de-pau) invadiu as ilhas. Os neerlandeses tentaram povoar a ilha principal, que era desabitada, e introduzir o cultivo de alimentos, ficando até 1654, quando foram expulsos do Brasil. Na época da invasão, foi construído um fortim no alto de um penhasco de 45 m de altura, na parte norte da ilha, dominando o local mais apropriado para atracação das embarcações.

O primitivo forte português foi erguido, após a saída dos invasores, sobre o antigo fortim holandês, com aproveitamento da topografia do local. Em 1736 a ilha foi novamente invadida, agora pelos franceses e retomada pelos portugueses em 1737. Nesse mesmo ano, com um projeto do engenheiro militar Diogo Silveira Veloso, foi iniciada a construção do Forte dos Remédios, um polígono irregular em pedra e cal.

O forte sofreu melhoramentos e ampliações, até que em 1877 foi transformado em prisão civil, apesar de continuar artilhado.

A fortaleza foi tombada pelo Instituto do Patrimônio Histórico e Artístico Nacional em 11 de novembro de 1937. Ainda assim, serviu como local de detenção para presos políticos durante o Estado Novo e como guarnição militar brasileira e norte-americana durante a 2ª Guerra Mundial.

Em 1988, o arquipélago de Fernando de Noronha foi declarado Parque Nacional e em 2001, reconhecido pela Unesco como Patrimônio Natural Mundial por acolher áreas de alimentação e reprodução de aves, peixes e mamíferos marinhos. Recentemente a Fortaleza de Nossa Senhora dos Remédios sofreu obras de restauração através do projeto PAC Cidades Históricas. 

sexta-feira, 5 de fevereiro de 2016

Recife e o início das ciências no hemisfério sul

Com a chegada de Maurício de Nassau ao Recife em 1637 começou o registro sistemático da natureza das capitanias do norte do Brasil. Na corte do Conde de Nassau havia a presença de artistas e cientistas que tinham a missão de levar para a Holanda os detalhes da geografia, fauna, flora e habitantes das terras conquistadas pelos mercenários da Companhia das Índias Ocidentais - WIC.

Em 1638 chega ao Brasil um jovem alemão da cidade de Liebstadt que iria introduzir os conceitos da moderna ciência na Nova Holanda, notadamente na astronomia: George Marcgrave. Havia estudado medicina, botânica, cartografia e astronomia na Universidade de Leiden, Holanda e vinha recomendado por Joannes de Laet, geógrafo e diretor da WIC.

Com o apoio de Nassau, Marcgrave montou um observatório astronômico na primeira casa do Conde no Recife, fazendo o registro documentado de diversos eventos celestes, além de outros observados em alguns pontos nas capitanias conquistadas pelos neerlandeses. Dentre seus feitos mais importantes destaca-se o registro de um eclipse lunar no Recife na noite de 20 de dezembro de 1638, cujos dados serviram para Marcgrave calcular a longitude do Recife com extrema precisão levando-se em conta a precariedade dos instrumentos da época. Com isso foi possível determinar a distância entre o Recife e as cidades da Europa, informação importantíssima para a navegação no Atlântico.

O Dr. Oscar Matsuura, astrofísico, escreveu:

O naturalista e cosmógrafo alemão Marcgrave, ficou muito conhecido por seus trabalhos em história natural e cartografia publicados após sua morte.

Para o Brasil, embora as atividades astronômicas de Marcgrave tenham ocorrido sob dominação estrangeira, o seu resgate histórico deve nos interessar por se tratar de um episódio ocorrido em nosso território, e que não deixa de se constituir no fato fundador da ciência em nosso país. Com efeito, o complexo formado pelo observatório astronômico de Marcgrave no Recife, pelos jardins botânico e zoológico do museu de historia natural, atuou como um campus avançado da Universidade de Leiden para observação da natureza do Novo Mundo. O observatório foi o primeiro do Brasil, das Américas e do hemisfério sul com edificação própria, com instrumentos de grande porte e de ultima geração na época.” (História da Astronomia no Brasil,  vol I – CEPE, 2014).

quinta-feira, 4 de fevereiro de 2016

Gestores políticos do Brasil holandês

10. fev.1630
5.mai.1630
Governador
Hendrick Corneliszoon Lonck
14.mar.1630
dez.1632
Conselho Político
Johan de Bruyne
Philips Serooskerken
Horatio Calendrini
Johannes van Walbeeck
Servaes Carpentier
5.mai.1630
9.mar.1633
Governador
Diederik van Waerdernburch
jan.1633
1.set.1634
Diretoria delegada
Mathijs van Keulen
2.set.1634
1638
Conselho Político
Servaes Carpentier
Willem Scholte
Jacob Stachouwer
Balthasar Wijntges
Ippo Eyssens
28.jan.1637
6.mai.1644
Governador e Capitão general de terra e mar
Johann Moritz von Nassau-Siegen
28. jan.1637
6.mai.1644
Alto e Secreto Conselho
Mathias van Ceulen
Johan Gysselingh
Adriaen van der Dussen
Hendrick Hamel
Dirck Codde van den Burgh
Adrian van Bullestraten
6.mai.1644
15.ago.1646
Alto e Secreto Conselho
Hendrick Hamel
Adriaen van Bullestraten
Dirck Codde van den Burgh
Pedro S. Bas
16.ago.1646
27.jan.1654
Alto Governo
Michel van Goch
Simon van Beaumont
Walter van Schonenburgh
Hendrik Haecxs

terça-feira, 15 de setembro de 2015

A Guerra da Fome

Uma das principais características da guerra pela posse do Brasil holandês foi a extrema falta de recursos materiais para o desenvolvimento das ações de ataque e contenção dos pontos de interesse de Portugal e dos Países Baixos. Segundo Gonsalves de Mello, a palavra “fome” era das mais comuns nos relatórios dos conselheiros e comandantes da Companhia das Índias Ocidentais - WIC no Recife.

Ao chegar ao litoral pernambucano em 1630, os combatentes da WIC encontraram um sistema de defesa inadequado para fazer frente ao grande exército enviado pelos neerlandeses, em que pese as vastidões das terras portuguesas no nordeste brasileiro. Ocupadas Olinda e o Recife, os invasores começaram a sentir a falta de mantimentos e até mesmo de água potável, já que a maioria das fontes fornecia água salobra.

Notando a dificuldade dos neerlandeses em receber suprimentos da Europa, os luso-brasileiros intensificam a guerrilha para impedir o acesso dos invasores aos locais de armazenamento de víveres, fruteiras e lenha. Isso sem contar a dificuldade inicial dos europeus em se adaptar aos alimentos da terra.

Aumentando as regiões ocupadas a partir de 1632 e a organização da conquista com a chegada de Maurício de Nassau em 1637, os holandeses passam a ter melhores condições de viver no Brasil holandês. Ainda assim, em suas cartas aos Estados Gerais e aos Heeren XIX, Nassau reclama da penúria por que passava o país. Os dirigentes da WIC no Recife tentaram transformar vários locais como Itamaracá, Alagoas e Fernando de Noronha em centros de cultivo de lavouras para abastecer os núcleos urbanos, mas sem sucesso.

Mesmo em Salvador, sede do governo colonial português, houve falta de alimentos quando, em 1639 o Conde da Torre aportou com sua esquadra e 3.000 homens que deveriam libertar Pernambuco dos invasores neerlandeses. Houve assalto dos soldados famintos às casas para saquear comida, o que descambou para estupros e assassinatos.

Os combatentes portugueses e brasileiros internados nas matas contavam apenas com os suprimentos vindos da Bahia e o que conseguiam em alguns engenhos de açúcar. No entanto, a política de terra arrasada empregada por ambas as partes, destruindo as construções, plantações e criação de gado dos aliados tanto de holandeses quanto de portugueses, contribuía para aumentar a falta de alimentos. O episódio da marcha das tropas de Luis Barbalho em 1640, que após duro combate naval desembarcou seus comandados no Cabo de São Roque, Rio Grande do Norte, seguindo pelo interior até o Rio São Francisco e daí até Salvador, ilustra bem esse tipo de ação.

Com a volta do Conde de Nassau para a Europa, em 1644, o desabastecimento volta a infernizar os que dependiam da Companhia das Índias Ocidentais para viver no Brasil holandês. Em 1645, tem início a Insurreição Pernambucana com o avanço das tropas luso-brasileiras em direção ao Recife.

Os estoques foram minguando a tal ponto, que os habitantes do Recife sitiado tiveram que recorrer aos animais, inclusive cachorros e ratos para ter o que comer. Em 1646, a situação chegou a um extremo em que os comandantes de dois navios que trouxeram suprimentos da Holanda para o Recife foram agraciados com medalhas de ouro onde estava gravado: O Falcão Dourado e o Elizabeth salvaram o Recife.

Dependendo da situação de momento, a deserção ocorria de ambos os lados com frequência, muitas vezes por causa da fome. Os portugueses ofereciam aos mercenários da WIC o pagamento dos soldos atrasados e rações duplas para os que trocassem de lado na guerra. As tripulações dos navios holandeses também se amotinavam por falta de provisões e retornavam com seus barcos para os Países Baixos, sem a autorização dos comandantes.

Após as duas batalhas dos Guararapes, 1648 e 1649, os neerlandeses tiveram suas tropas reduzidas a poucas companhias e o assédio ao Recife ficou mais apertado, mas por falta de apoio do Rei D. João IV, a guerra só teve seu desfecho cinco anos depois, com a rendição dos homens da WIC em 1654. Segundo relatório dos conselheiros da WIC no Recife: “A maioria dos soldados estava em farrapos, arrastando-se pelas ruas da cidade como mendigos e comendo as sobras encontradas nas sarjetas". A situação dos homens da Insurreição também não era muito melhor da que a dos holandeses, a diferença era que estes estavam lutando por sua terra e suas famílias, enquanto que os mercenários da Cia. das Índias Ocidentais estavam abatidos física e moralmente.