sexta-feira, 7 de fevereiro de 2020

Arciszewski – Um Polonês no Brasil Holandês

A Nova Holanda e em particular o Recife eram uma verdadeira Babel das Américas. Gente de toda a Europa e África, além dos portugueses, espanhóis e índios andavam pela Mauritsstad em busca da riqueza do açúcar e pau-brasil, ou nas fileiras do exército e escritórios da Companhia das Índias Ocidentais.

Integrando o quadro de oficiais da WIC, chegou à Pernambuco em 1630, junto com a força de invasão, o nobre polonês Krzysztof Arciszewski, nascido na cidade de Rogalin em 6 de dezembro de 1592. Ele havia sido banido do seu país chegando à Holanda em março de 1624 após ter matado um advogado que extorquia sua família na Polônia. Ingressando no exército das Províncias Unidas em agosto do mesmo ano, durante cinco anos participou de diversas batalhas contra as tropas espanholas e seus aliados na Europa. 

Arciszewski chegou ao Brasil com a patente de capitão, juntamente com outro oficial da mesma patente, o alemão Sigmund von Schkoppe. O polonês toma parte em diversas importantes batalhas como a conquista da Ilha de Itamaracá. Em 1633 retorna à Europa após o final do seu contrato de três anos com a WIC, já no posto de sargento-mor (major).

Em 9 de agosto de 1634 o nobre polonês volta ao Brasil Holandês, agora como coronel do Conselho Militar da WIC na conquista. Sem concordar com a nomeação de Arciszewski, o coronel Sigmund von Schkoppe pede seu desligamento do exército neerlandês e sua volta para a Europa. Os conselheiros da Companhia das Índias Ocidentais no Recife o convencem a permanecer devido à sua experiência na guerra brasílica, dividindo o comando com o coronel polonês. Neste mesmo ano Arciszewski participa de combates no interior da Paraíba e Rio Grande, conquistando os fortes da foz do Rio Paraíba em dezembro, após um mês de duros combates com as forças luso-brasileiras, tomando inclusive a vila de Filipéia de Nossa Senhora das Neves, atual João Pessoa, que passa a ser denominada Frederikstadt em homenagem ao Príncipe de Orange, Frederik Hendrik.

Arciszewski redige o acordo de rendição dos moradores da Paraíba garantindo inclusive a liberdade de religião, baseado no Regimento do Governo das Praças Conquistadas ou que Forem Conquistadas nas Índias Ocidentais, documento com 69 artigos aprovado pelo Conselho dos XIX da WIC.

As tropas comandadas por Krzysztof Arciszewski seguem então para Pernambuco para conquistar o maior bastião português que ainda resistia aos invasores neerlandeses, o Arraial do Bom Jesus, que havia sido construído por determinação de Matias de Albuquerque logo após a invasão, no atual bairro de Casa Amarela, Recife.

O Arraial ou Forte Real do Bom Jesus já estava sob cerco dos mercenários da WIC desde abril de 1635. O cerco vai ficando cada vez mais apertado até que as tropas de Arciszewski rendem os defensores do forte em 08 de junho. No Arraial não havia mais nenhum alimento nem munição, tendo sido consumidos até os animais domésticos e ratos. Ao ser recebida na Holanda a notícia da conquista do forte, a WIC manda cunhar uma medalha comemorativa com a efígie do coronel Arciszewski e uma vista do Arraial.

O próximo passo dos neerlandeses é apoderarem-se do sul da capitania de Pernambuco. Arciszewski leva seus homens para o Cabo de Santo Agostinho, Ipojuca e daí para Vila Formosa, hoje Sirinhaém. Próximo de Barra Grande, litoral norte de Alagoas, as tropas de Arciszewski se encontram com as de Von Schkoppe. Todo o efetivo da WIC na região está em perseguição a uma coluna de oito mil pessoas comandada por Matias de Albuquerque com retirantes do Bom Jesus e de todo sul pernambucano com destino à Bahia.

Passando por Porto Calvo as tropas neerlandesas seguem em direção ao sul de Alagoas. Enquanto isso, uma esquadra luso-espanhola de D. Rodrigo Lobo e D. Lope de Hoces y Córdoba, com 30 navios e 1.700 soldados sob comando do mestre de campo general espanhol D. Luiz de Rojas y Borjas aparece no litoral do Recife e segue para o sul, ancorando em Ponta de Jaraguá, onde hoje se situa o porto de Maceió. D. Rojas y Borjas vem substituir Matias de Albuquerque como comandante do exército luso-brasileiro.

Os homens de Rojas y Borjas seguem para Porto Calvo, assim como as tropas da WIC ao saberem das manobras inimigas. Os exércitos se enfrentam a cinco quilômetros ao sul de Porto Calvo em Mata Redonda. Após dois dias de ferozes combates as tropas de Borjas fogem para Porto Calvo, tendo o mestre de campo general sido morto na batalha.

Em janeiro de 1637 chega ao Recife, Maurício, o Conde Nassau, na condição de Governador e Capitão Geral de Terra e Mar. Depois de poucos dias, Nassau decide atacar as forças luso-brasileiras então alojadas em Porto Calvo sob o comando do general napolitano Giovanni Vicenzo de Sanfelice, Conde de Bagnuolo. Nassau e Von Schkoppe seguem com suas tropas por terra, enquanto Arciszewski leva seu efetivo por mar.

Dia 18 de fevereiro tem início a batalha pela posse de Porto Calvo. Não suportando o assédio neerlandês o Conde de Bagnuolo decide seguir para Alagoa do Sul com pequena tropa e os moradores locais. Em 07 de março os defensores do forte de Porto Calvo se rendem às tropas do Conde de Nassau.

Insatisfeito com a chegada de Maurício de Nassau como comandante supremo no Brasil, Krzysztof Arciszewski retorna à Europa, deixando um relatório denominado Memórias, sobre seus feitos militares e a administração da Nova Holanda. Ao chegar na Holanda ele também entrega uma cópia dessas Memórias aos Estados Gerais em Haia.

Arciszewski sempre enviou relatórios e solicitações para a Holanda cobrando, tanto da Companhia das Índias Ocidentais como dos Estados Gerais, meios para que se mantivessem e se ampliassem as conquistas neerlandesas no Brasil. Alertava sobre o péssimo gerenciamento dos depósitos de alimentos, armas e munições o que provocava a falta desses suprimentos. Reclamava principalmente da lentidão nas decisões do Conselho Político do Recife e na ganância pessoal dos dirigentes da WIC no Brasil. Para ele a solução seria nomear um comandante supremo, com experiência militar e política.

Em dezembro de 1638 a WIC envia da Holanda uma flotilha de sete navios com 1.200 homens sob o comando de Krzysztof Arciszewski no posto de general de artilharia. A expedição chega ao Recife em 20 de março de 1639 e aí começam os atritos entre o polonês e o Conde de Nassau.

Sem reconhecer a autoridade de Arciszewski, Nassau dissolve a tropa recém-chegada, distribuindo seu efetivo entre o contingente local. Nassau também toma conhecimento de uma carta que o polaco intencionava mandar para o burgomestre de Amsterdam, Albert Koenraats van der Borg, com várias denúncias sobre a administração de Nassau. Este convoca o Alto Conselho para que decidam sobre quem ficaria no comando: ele ou Arciszewski. O Conselho manda o polonês de volta para a Holanda, de onde ele não mais voltaria ao Brasil holandês.

Em agosto Arciszewski entrega um documento aos Estados Gerais denominado Apologie onde contesta as acusações que lhe foram imputadas pelo Alto e Secreto Conselho do Recife. Ele permaneceria na Holanda até 1646 quando partiu para a Polônia, onde viveu até sua morte em 1656 na cidade de Gdansk. 

Foi uma das mais importantes figuras do Brasil holandês, apesar de pouco conhecido na história daquele período.

sábado, 7 de setembro de 2019

O Cabo de Santo Agostinho

Com a invasão de Pernambuco pela expedição da Companhia das Índias Ocidentais em fevereiro de 1630, Portugal teve bloqueado o mais importante porto marítimo brasileiro para a exportação do açúcar, o Recife. Além do principal produto da colônia, havia o envio de fumo, pau-brasil e de outras madeiras nobres para a Portugal, sem contar com uma infinidade de mercadorias que chegavam da Europa para o Brasil através do porto do Recife.

A alternativa mais próxima foi a utilização do porto de Nazaré no Cabo de Santo Agostinho, distante cerca de 40 km ao sul do Recife. Mesmo assim, o acesso a esse ponto era muito dificultado pelo bloqueio naval imposto pelos invasores.

O Cabo de Santo Agostinho apesar de conhecido pelos navegantes de há muito, foi documentado em 26 de janeiro de 1500 pela expedição do espanhol Vicente Yáñez Pinzón que ancorou na enseada de Nazaré. A denominação do cabo foi dada por Américo Vespúcio, que esteve no local em 1501. Apesar de não ter grandes altitudes, o relevo do local se destacava das terras ao redor facilitando sua localização desde o oceano. Implantadas as capitanias hereditárias em 1534, o local estava contido na capitania de Pernambuco, de Duarte Coelho. No entanto, a colonização só foi implementada quase trinta anos depois por Duarte Coelho de Albuquerque, filho do primeiro donatário e seu sucessor na capitania. Ele expulsou os índios Caetés e distribuiu sesmarias onde foram plantadas lavouras de cana de açúcar e construídos engenhos por toda de região de Nazaré do Cabo.

Em 1627 alguns iates neerlandeses apresaram navios portugueses ao largo do Cabo. As pilhagens continuaram ano seguinte e outras naus de Portugal transportando açúcar, pau-brasil e tabaco foram tomadas pelos neerlandeses no litoral do Cabo de Santo Agostinho. Após a conquista de Olinda e do Recife em 1630 o Conde de Bagnuolo, designado comandante das tropas em Pernambuco e Matias de Albuquerque determinam a instalação de duas baterias na enseada de Calhetas, ao norte do porto de Nazaré, no final de 1631.

Já em março de 1632 os homens da Companhia das Índias Ocidentais em dezoito navios sob comando do tenente-coronel Steyn Callenfels tentavam conquistar o porto desembarcando em Calhetas e atacando as baterias de Nazaré. As tropas da WIC são rechaçadas pela guarnição do fortim e voltam para o Recife. Visando melhorar a defesa do porto os portugueses constroem outro forte mais ao sul, também denominado Forte de Nazaré.

Dois anos depois da primeira tentativa os holandeses atacam o Cabo de Santo Agostinho novamente com um desembarque na praia de Itapuama, bem mais ao norte do porto, mesmo assim sem sucesso. No dia seguinte, 05 de março de 1634, outros barcos da WIC penetram pela barra do porto do Cabo e fundeiam próximo à povoação do Pontal de Nazaré, desembarcando suas tropas, inclusive Domingos Calabar. Os locais queimam as casas e armazéns, mas os holandeses ainda tomam 1.300 caixas de açúcar e grande quantidade de pau-brasil. Em 06 de março Matias de Albuquerque traz tropas do Arraial do Bom Jesus para combater os invasores e no dia seguinte conseguem retomar algumas posições, mas são vencidas com a ajuda da artilharia dos navios ancorados no litoral.

No dia 08 de junho de 1635 cai o Arraial do Bom Jesus, a última e mais importante fortificação luso-brasileira no entorno do Recife. Alguns dias depois o coronel Chrestofle Arciszewski parte do Arraial com suas tropas em direção ao Cabo de Santo Agostinho. Em 02 de julho o restante da guarnição do Forte de Nazaré rende-se aos comandados de Arciszewski. A maioria dos defensores havia partido acompanhando a coluna chefiada por Matias de Albuquerque com destino às Alagoas. Os portugueses não tem mais nenhum bom porto em Pernambuco para enviar mercadorias ou receber tropas, armas e suprimentos para combater os invasores.

Somente com a chamada Insurreição Pernambucana a partir de 1645 é que as tropas luso-brasileiras retomam o Forte de Nazaré. Em 03 de setembro o capitão Van Hoogstraeten, com a participação do coronel Casper van der Ley e Albert Gerritsz Wedda entregam a fortificação a troco de 6 mil cruzados, supostamente para pagamento do soldo atrasado da guarnição.

Um dos objetivos do efetivo neerlandês que participou da primeira batalha dos Montes Guararapes em 18 de abril de 1648 era retomar a Muribeca e o Cabo de Santo Agostinho para interromper o fluxo de suprimentos para os insurretos, já que o Recife continuava nas mãos dos neerlandeses, que ainda tinham o domínio de boa parte do litoral nordestino.

A importância do Cabo de Santo Agostinho e do seu porto ainda estão presentes em Pernambuco, haja vista a implantação do Porto de Suape, um pouco ao sul dos locais mencionados no texto acima, sancionado em 1978 pelo governo pernambucano. É o quinto maior porto brasileiro e em seu entorno instalou-se um complexo industrial.

terça-feira, 19 de março de 2019

Visita aos Arrecifes

O engenheiro francês Louis-Léger Vauthier vem para o Recife em 1840 a convite do então Barão da Boa Vista, Francisco do Rego Barros, presidente da província de Pernambuco, para implementar obras no Recife e nas localidades vizinhas. Foi responsável pelo projeto e construção do Teatro de Santa Isabel, a ponte pênsil da Caxangá, projeto para distribuição de água potável e tratamento de águas servidas no Recife, do levantamento da planta da cidade, além de um mapa topográfico da província de Pernambuco.

Tendo partido do porto de Le Havre, França,  em 24 de julho de 1840, chegou ao Recife em 8 de setembro. No dia 7 de outubro o engenheiro Vauthier faz um passeio pelos arrecifes, assim descrito por ele em seu diário:

Visitei esta manhã o pequeno farol do Recife e o próprio recife. Fiz essa excursão num escaler¹ do Arsenal de Marinha, acompanhado pelo inspetor e pelo fiel² Acates.

Partimos às seis horas. Visitamos primeiro o farol – construído sem gosto e de forma pouco racional. Muito malconservado, data de 1817. Seu sistema de iluminação é constituído de 21 refletores parabólico, reunidos em três fileiras horizontais, sobre as três faces de um tronco de pirâmide triangular equilátera. Os sete refletores correspondentes a uma das faces tem do lado esquerdo vidros vermelhos. Os refletores de cada face são paralelos ao mesmo eixo e a luz é rotatória, movida de modo primitivo. O farol tem três luzes – duas brancas e uma vermelha.

Depois disso, percorri o recife. Em vários pontos, o mar agitado passava por cima da cadeia de rochedos. Desembarquei duas vezes, a princípio só com Monsieur Boulitreau³, depois uma segunda vez com o inspetor e alguns marinheiros. Da última vez, demos uns 400 passos pelo recife que, nessa parte, forma uma espécie da calçada lisa em sua superfície geral e tem cerca de 30 metros de largura. A massa do rochedo é de um grés4 fortemente aglutinado e muito fino. Em alguns lugares a superfície é irregular, em certos pontos, coberta de escassa vegetação marinha de textura mucilaginosa; em outros, há pequenas conchas – de forma especial, muito comuns nas costas da Bretanha – presas fortemente ao rochedo em que vivem.

Extraído do livro Pontes e Ideias de Claudia Poncioni, CEPE Editora

1 – escaler é um pequeno barco, ou bote, que serve para transporte de passageiros e/ou carga entre um navio e a praia ou porto e vice-versa.
2 – fiel é um antigo cargo da Intendência da Marinha.
3 – Pierre-Victor Bolitreau foi um engenheiro francês que veio com Vauthier para o Recife, tendo sido responsável por diversas obras. Depois tornou-se proprietário de um engenho de açúcar no Cabo de Santo Agostinho. Faleceu em 1882 no engenho São João.
4 – grés ou arenito é uma rocha sedimentar composta de grãos de areia unidos por material silicoso ou calcário.

sábado, 9 de março de 2019

A Ilha de Itamaracá


Itamaracá, 40 km ao norte do Recife, está registrada no início da história do Brasil, sendo colonizada a partir de 1516 pela construção do primeiro engenho de açúcar da América Portuguesa. Pero Capico, chegado na expedição de Cristovão Jaques, havia sido designado como capitão do litoral brasileiro pelo Alvará Régio de D. Manuel I. Outros portugueses teriam chegado à Ilha de Itamaracá por acaso devido a naufrágios na costa pernambucana.

O nome Itamaracá vem do Tupi-guarani e significa pedra que canta.  

O primeiro núcleo urbano da ilha estava localizado no alto de um lugar elevado, característica da colonização lusitana. Era a Vila de Nossa Senhora da Conceição, depois Vila Velha, na parte sul de Itamaracá e onde estava instalada a capela de Nossa Senhora da Conceição, que existe até hoje.

Em 1631 as tropas da WIC chegam até a ilha e constroem uma fortificação na extremidade sudeste de Itamaracá para controlar a entrada do Canal de Santa Cruz, que separa a ilha do continente, o Forte Orange, denominação em homenagem à Casa de Orange, da família real holandesa.

Apenas em 1633 os neerlandeses tomam a Vila Velha, denominando-a então de Vila Schkoppe, nome do comandante, o alemão Sigmund von Schkoppe. O Forte Orange é reforçado com artilharia.

Vários combates tiveram lugar na Ilha de Itamaracá, tendo sido aventada a possibilidade de transferência da capital do domínio neerlandês para aquele local devido à abundância de água potável e madeira. Da ilha partem ataques contra Igarassú e Goiana.

Em setembro de 1645, em prosseguimento à Insurreição Pernambucana, os luso-brasileiros atacam Itamaracá, mas são contidos pelos homens da WIC no local e por reforços vindos do Recife. Os insurretos recuam para Igarassu e depois seguem para a Várzea. Em abril de 1646 outra tentativa de expulsar os neerlandeses é fracassada, com muitas baixas nos insurretos. Em junho do mesmo ano os luso-brasileiros conseguem desembarcar 2.000 homens na ilha. Os holandeses abandonam a Vila Schkoppe e concentram-se no Forte Orange. Em julho, os invasores recebem reforços no Recife vindos da Europa e os insurretos abandonam Itamaracá temendo ataque pelos holandeses. Destroem as fortificações e levam os armamentos.

Em janeiro de 1654 os neerlandeses rendem-se no Recife, assinando um tratado em que devolviam todos os locais conquistados no Brasil.

O distrito de Itamaracá foi criado em 1866, tornando-se cidade em 1959, quando foi desmembrada de Igarassu.

quarta-feira, 6 de março de 2019

As Alagoas


Os registros históricos das terras das chamadas Alagoas vem de antes do descobrimento oficial do Brasil em 1500. As costas da região entre o Rio Una e o Rio São Francisco eram acessadas por navegantes europeus que mantinham contato com os índios Caetés em busca do pau brasil. O nome Alagoas era originário das duas lagoas costeiras que existem a meio caminho entre os dois rios citados antes. Chamam-se Mundaú e Manguaba, ricas em peixes e frutos do mar, inclusive o famoso sururu.

Com a implantação do sistema de Capitanias Hereditárias a região das Alagoas fazia parte da Capitania de Pernambuco, do donatário Duarte Coelho Pereira. A colonização teve início com a fundação de Penedo, cerca de 30 km do litoral, na margem esquerda do São Francisco. A região começou a produzir cana de açúcar e surgiram diversos engenhos. Também foram implantados currais de gado e lavouras de fumo. Quase tudo era levado para Olinda, Recife e arredores. Também importante foi a região de Porto Calvo, na zona da mata norte, com engenhos de açúcar, e que servia de pouso para viajantes com destino ao Rio São Francisco. No litoral, próximo às duas lagoas, estavam os portos de Jaraguá e do Francês.

Um fato que marcou Alagoas no século XVI foi a morte do bispo D. Pero Fernandes Sardinha em 1556. O navio em que o primeiro bispo do Brasil seguia de Salvador para Portugal naufragou no litoral da atual cidade de Coruripe e tendo conseguido chegar à praia, foi preso e depois devorado pelos índios Caetés. Em retaliação, os portugueses enviaram uma expedição sob comando de Jerônimo de Albuquerque que exterminou grande número dos indígenas daquela tribo.

Seguindo a invasão neerlandesa de 1630 o território alagoano foi palco de muitas lutas que destruíram plantações e engenhos de açúcar. Os principais focos das contendas foram Porto Calvo e Penedo, que trocaram de mão várias vezes. Os holandeses construíram fortes nas duas vilas e os luso-brasileiros foram empurrados para além do Rio São Francisco, tendo os homens da Companhia das Índias Ocidentais chegado até localidades de Serigipe d’El-Rey, hoje Sergipe, na margem oposta do grande rio.

Chegando a Penedo em 1637, o Conde Maurício de Nassau enxergava na região um grande potencial para a agricultura e pecuária, tendo escrito ao Príncipe de Orange, Frederik Hendrik, pedindo recursos humanos e materiais para colonizar aquelas localidades.

No século XVII nas terras das Alagoas também surgiu o Quilombo dos Palmares, na Serra da Barriga, hoje União dos Palmares. Reunia negros escravos fugidos de diversas localidades do Nordeste e que se organizaram em uma sociedade que cultivava diversas lavouras, além de praticar a caça, pesca e o artesanato, que trocavam por outros produtos com as comunidades vizinhas. Após um século de resistência aos ataques externos o Palmares foi conquistado em 1696 pelo bandeirante Domingos Jorge Velho, que matou o último chefe dos quilombolas, Zumbi. Sua cabeça foi levada ao Recife e exposta no Pátio do Carmo como exemplo de punição aos escravos.

A comarca de Alagoas foi criada pelo Ato Régio de 09 de outubro de 1710, sendo instalada no ano seguinte. Em 16 de setembro de 1817 ela foi desmembrada da capitania de Pernambuco em retaliação da Coroa pela Revolução Pernambucana daquele ano.

sábado, 8 de dezembro de 2018

Josué Descreve o Recife


O Recife não é cidade duma só cor, nem dum só cheiro, como muitas encontradas por Kipling¹ em suas viagens, que depois as podia evocar admiravelmente num só adjetivo, expressão dum estado sensorial. Longe disto. Por seu arranjo arquitetônico, pela tonalidade própria de cada uma de suas ruas, o Recife é desconcertante, como unidade urbana, impossível mesmo de caracterizar-se. Casas de todos os estilos. Contrastes violentos nas cores gritantes das fachadas. Cidade feita de manchas locais diferentes, não há por onde se possa apanhar na fisionomia das casas o tom predominante da alma da cidade.

Quem diria que deste outro lado do Atlântico, no Brasil, país de mestiços e bem nos trópicos, o viajante iria topar com um espetáculo destes, logo no primeiro porto que o navio toca? Salta o viajante do paquete², desce ao longo dos armazéns e desemboca mesmo na praça monumental³. Cinco avenidas se abrindo em leque, com magníficos estabelecimentos comerciais. Ruas largas, limpas, retas, com as filas inquebrantáveis dos edifícios uniformemente solenes. Bancos, telégrafos, companhias de vapores... Prédios asseados com um ar de disciplina e de riqueza. É verdade que estas ruas são curtas, curtinhas mesmo, se acabando logo ali adiante na beira do rio. Mas quando elas se acabam, lá vem as pontes lançadas elegantemente sobre o Capibaribe. E depois outras praças: a da Independência e a da República, com seus palácios e palacetes, do Governo, da Justiça, do Diário de Pernambuco, todos feios, feiíssimos, mas também monumentais como grandes cidades europeias.

As pontes nos trazem ao bairro de Santo Antônio, das repartições públicas, das casas de modas, do comércio a varejo, dos cinemas e das confeitarias, e da elegância da Rua Nova, cheia de casas velhas. Casarões de três, quatro andares, pregados a meias-águas só de andar térreo. O bairro da Boa Vista continua, com magros sobrados de varandas de ferro espremidos pela Rua da Imperatriz abaixo.

Já São José tem um aspecto quase suburbano, inteiramente diferente, com suas ruas atropeladas, enoveladas, com suas casas em promiscuidade, com seus pequenos funcionários públicos de vida apertada para parecer classe média, morando em casinha de porta e janela, e com seu comércio de artigos baratos, com preços apregoados nas portas por árabes e turcos. Ruas estreitas, becos, travessas. Confusão. O aperto da Rua Direita e da Rua do Livramento. Cenário oriental. Mercado de miudezas e de chitas vistosas pregadas nas fachadas das casas, de nomes ingenuamente deliciosos: A Simpatia, A Magnólia, etc.

O Recife é todo esse mosaico de cores, de cheiros e de sons. Nesse desadorado caos urbano, reflexo confuso da fusão violenta de várias expressões culturais, só uma coisa tende a dar um sentido estético próprio à cidade. A absorver e a anular os efeitos dos contrastes desnorteadores, dando um selo inconfundível à cidade. É a paisagem natural que a envolve. O seu mundo circundante, com seus acidentes geográficos e sua atmosfera sempre em vibração, varada em todos os sentidos pelos reflexos da luz sobre as águas.

Heródoto4 dizia que o Egito era um dom do Nilo. Também o Recife é um dom dos seus rios. Das águas dos seus rios encontrando as águas do mar, formando bancos de pedras – recifes. Rios que deram origem à cidade e foram importantes fatores de sua história. Rios nativistas, como os chamou Artur Orlando, que ajudaram a expulsar da pátria o invasor holandês. Rios que vem de muito longe, disfarçando no acaso de seus coleios, a ânsia de se encontrarem.

Já dentro da cidade, o Capibaribe lança um braço para um lado, segue para outro lado, fazendo um cerco pro Beberibe não escapar. Alcança-o logo adiante, e aí os dois rios se entrelaçam, se confundem e afogam nas suas águas misturadas, esse prazer profundo de ânsias causadas pelas distâncias percorridas.

Recife, resumo das aventuras heroicas de que os rios contaram e continuam contando, ao se encontrarem numa praia do Atlântico. Recife: telhados, torres e cúpulas. Ondulações. Ruínas históricas. Lendas portuguesas, holandesas e afro-brasileiras. Recife, azulejo lavado de luz, à sombra dos coqueiros, boiando nas águas.

Cronica de Josué de Castro no livro Documentário do Nordeste de 1937.

Josué de Castro, nascido no Recife em 1908, médico, geógrafo, professor, cientista social, político e embaixador, indicado quatro vezes para o Nobel da Paz, foi ainda Presidente do Conselho Executivo da FAO.

1–Rudyard Kipling, escritor e poeta britânico, famoso por livros de aventuras publicados no início do século XX, ambientados na África e Índia.
2-Paquete, antigo navio movido a vapor que encurtou as viagens entre a Europa e as Américas, sendo alguns de alto luxo.
3-Essa era a antiga Praça Rio Branco, hoje Praça do Marco Zero.
4-Heródoto, nascido em 485 AC, geógrafo e historiador grego, é considerado o pai da historiografia.

sexta-feira, 2 de novembro de 2018

Joaquim Nabuco Descreve o Recife


Servindo de cicerone ao escritor português Ramalho Ortigão, o abolicionista Joaquim Aurélio Barreto Nabuco faz uma apaixonada descrição da nossa terra no jornal O Paiz do Rio de Janeiro, N. 1151, edição de quarta-feira, 30 de novembro de 1887.

Voltando de Olinda, Ramalho Ortigão percorreu esta cidade, que é para elle, como para todos que a tem visitado, a mais bella do Brazil, e a sua impressão foi a mesma que tem o estrangeiro que aqui desembarca depois de ter estado no Rio e na Bahia. O que primeiro fere a vista no Recife é a limpeza da cidade, a brancura de toda ella.

Ve-se bem a cidade de um povo de rio, que vive n’agua, como o pernambucano. É um reflexo da Hollanda que brilha ainda aqui!

O Recife é com effeito uma Veneza, não pelos palácios de mármore do grande canal, que mostram, a meu ver, a mais bella phase da architectura da Renascença, não por essa praça de S. Marcos, que só tem uma rival no mundo, na praça da velha Pisa, com os quatro incomparáveis e solitários edifícios da sua gloria. O Recife não tem nada disso, mas como Veneza, é uma cidade que sahe d’agua e que nella se reflecte, é uma cidade que sente a palpitação do oceano no mais profundo dos seus recantos; como Veneza ella tem um ceo azul que parece lavado em suas aguas, como se lavam os navios de grandes nuvens brancas como toldos, como Veneza basta uma canção na agua e uma bandeira solta ao vento para dar-lhe um aspecto festivo e risonho, e por fim como Veneza, ella tem um passado que a corôa como uma aureola e que brilha ao luar sobre suas pontes, e as suas torres como a alma de uma nacionalidade morta!      

Melhor porem do que Veneza, os canaes do Recife são rios, a cidade sahe da agua doce e não da marezia das lagunas, o seu horizonte é amplo e descoberto, as sua pontes são compridas como terraços suspensos sobre a agua e o oceano vem se quebrar diante della em um lençol de espumas por sobre o extenso recife que a guarda, como uma trincheira, genuflexório imenso, onde o eterno aluidor da terra se ajoelhara ainda por séculos diante da graça frágil dos coqueiros!

Recife, novembro de 1887.


quinta-feira, 11 de outubro de 2018

O Sermão dos Escravos do Açúcar


“Destes devem ser mais devotos, e nestes se devem mais exercitar, acompanhando a Cristo neles, como fez São João na sua Cruz. Mas, assim como entre todos os mistérios do Rosário estes são os que mais propriamente pertencem aos pretos, assim entre todos os pretos os que mais particularmente os devem imitar e meditar são os que servem e trabalham nos engenhos, pela semelhança e rigor do mesmo trabalho.

Encarecendo o mesmo Redentor o muito que padeceu em sua sagrada Paixão, que são os mistérios dolorosos, compara as suas dores às penas do inferno: Dolores inferni circumdederunt me (As dores do inferno me cercam). - E que coisa há na confusão deste mundo mais semelhante ao inferno que qualquer destes vossos engenhos, e tanto mais quanto de maior fábrica? Por isso foi tão bem recebida aquela breve e discreta definição de quem chamou a um engenho de açúcar doce inferno.

E, verdadeiramente, quem vir na escuridade da noite aquelas fornalhas tremendas perpetuamente ardentes; as labaredas que estão saindo a borbotões de cada uma, pelas duas bocas ou ventas por onde respiram o incêndio; os etíopes ou ciclopes banhados em suor, tão negros como robustos, que soministram a grossa e dura matéria ao fogo, e os forcados com que o revolvem e atiçam; as caldeiras, ou lagos ferventes, com os cachões sempre batidos e rebatidos, já vomitando escumas, já exalando nuvens de vapores mais de calor que de fumo, e tornando-os a chover para outra vez os exalar; o ruído das rodas, das cadeias, da gente toda da cor da mesma noite, trabalhando vivamente, e gemendo tudo ao mesmo tempo, sem momento de tréguas nem de descanso; quem vir, enfim, toda a máquina e aparato confuso e estrondoso daquela Babilônia, não poderá duvidar, ainda que tenha visto Etnas e Vesúvios, que é uma semelhança de inferno.

Mas, se entre todo esse ruído, as vozes que se ouvirem forem as do Rosário, orando e meditando os mistérios dolorosos, todo esse inferno se converterá em paraíso, o ruído em harmonia celestial, e os homens, posto que pretos, em anjos.”


Padre Antônio Vieira       
Sermão XIV do Rosário, 1633

sábado, 6 de outubro de 2018

Gaspar Dias Ferreira


No dia 11 de maio de 1644 o Conde de Nassau deixa Mauritsstad com sua comitiva e segue para a Paraíba, de onde embarcaria em Cabedelo de volta à Europa.

Dentre as diversas pessoas que o acompanharam, inclusive alguns índios, estava o português Gaspar Dias Ferreira, seu secretário. Ferreira, cristão-novo nascido em Lisboa, viera ao Brasil em 1614, estabelecendo-se como comerciante, com vários armazéns no porto do Recife.

Em 1630 os holandeses invadem Olinda e o Recife através de uma expedição da WIC – Companhia das Índias Ocidentais. Gaspar Dias Ferreira é muito prejudicado pela guerra que se estabelece em Pernambuco e capitanias vizinhas que paralisa os negócios.

Insatisfeitos com o desenrolar dos acontecimentos na conquista, os Heeren XIX, conselho diretor da WIC, em conjunto com os Estados Gerais, decidem enviar ao Brasil holandês o Conde Johann Moritz von Nassau-Siegen como governador e Capitão Geral de Terra e Mar com plenos poderes para administrar e fazer a guerra contra os portugueses.

Chegando ao Recife em janeiro de 1637 Nassau contrata Ferreira como seu conselheiro, inclusive no trato com os judeus. Por influência de Nassau, Ferreira vai tornando-se cada vez mais poderoso e envolvido em toda sorte de negócios, honestos ou não, conseguindo comprar dois dos engenhos de açúcar confiscados pelos holandeses. Tornou-se uma espécie de procurador geral do Conde.

A Companhia das Índias Ocidentais desaprova cada vez mais os gastos crescentes de Nassau com atividades sem importância aos olhos dos seus diretores. No dia 30 de setembro de 1643 o Conde Maurício de Nassau recebe o comunicado de sua dispensa do cargo de governador da Nova Holanda. Gaspar Dias Ferreira já havia percebido que os neerlandeses não conseguiriam manter suas conquistas no Brasil após o retorno de Nassau à Europa e decide acompanhar seu protetor.

Nassau chega à Holanda e apresenta relatório aos Estados Gerais mostrando a difícil situação da conquista no Brasil, enfatizando a necessidade de investimento para manutenção dos territórios. No início de 1645 Gaspar Dias Ferreira consegue a cidadania neerlandesa.

Ferreira intencionava manter seus negócios no Brasil e em 20 de julho de 1645 envia uma carta ao Rei D. João IV descrevendo as riquezas brasileiras e o muito que representavam para a Coroa lusitana. Seu plano era que Portugal pagasse uma indenização às Províncias Unidas dos Países Baixos para reaver os territórios perdidos na invasão. No entanto, sua boa sorte acaba um mês depois, quando em um navio apresado pela WIC com destino a Portugal são encontradas cartas dele ao Rei português tratando da negociação para devolução da Nova Holanda a Portugal.

Em 26 de outubro Gaspar Dias Ferreira é preso na Holanda acusado de alta traição. Seu julgamento é realizado em maio de 1646 e ele é condenado a sete anos de trabalhos forçados e multa de 12 mil florins. Após cumprir a sentença seria deportado dos Países Baixos. No entanto, usando de sua influência e dinheiro, Ferreira consegue fugir da prisão em 1649 subornando a guarda da prisão e seguindo para Portugal.

Em sua terra natal, Gaspar Dias Ferreira continua a tirar proveito de suas relações com pessoas da Coroa, passando a ser conselheiro do Rei e posteriormente cavaleiro da Ordem de Cristo e da Casa Real. Faleceu em 1656.


segunda-feira, 16 de julho de 2018

Roteiro Geral da Costa Brasílica

Do rio de Igaruçu ao porto da vila de Olinda são quatro léguas, e está em altura de oito graus. Neste porto de Olinda [Recife] se entra pela boca de um arrecife de pedra ao su-sudoeste e depois norte-sul; e, entrando para dentro ao longo do arrecife, fica o rio Morto, pelo qual entram até acima navios de 100 tonéis até 200, tomam meia carga em cima e acabam de carregar onde chamam "o Poço", defronte da boca do arrecife, onde convém que os navios estejam bem amarrados, porque trabalham aqui muito por andar neste porto sempre o mar de levadio; por esta boca entra o salgado pela terra dentro uma légua ao pé da vila; e defronte do surgidouro dos navios faz este rio outra volta deixando no meio uma ponta de areia onde está uma ermida do Corpo Santo.

Neste lugar vivem alguns pescadores e oficiais da ribeira, e estão alguns armazéns em que os mercadores agasalham os açúcares e outras mercadorias; e desta ponta da areia da banda de dentro se navega este rio até o varadouro, que está ao pé da vila, com caravelões e barcos, e do varadouro para cima se navega com barcos de navios obra de meia légua, onde se faz aguada fresca para as naus da ribeira que vem do engenho de Jerônimo de Albuquerque; também se metem neste rio outras ribeiras por onde vão os barcos dos navios a buscar os açúcares aos paços onde os trazem encaixados e em carros; este esteiro e limite do arrecife é muito farto de peixe de redes que por aqui pescam e do marisco; perto de uma légua da boca deste arrecife está outro boqueirão, que chamam a Barreta, por onde podem entrar barcos pequenos estando o mar bonançoso.

Desta Barreta por diante corre este arrecife ao longo da terra duas léguas, e entre ela e ele se navega com barcos pequenos que vêm do mar em fora, e quem puser os olhos na terra em que está situada esta vila, parecer-lheá que é o cabo de Santo Agostinho, por ser muito semelhante a ele.

Tratado Descritivo do Brasil em 1587
Capítulo XV
Gabriel Soares de Sousa

quinta-feira, 22 de fevereiro de 2018

A Bacia Que Atravessou o Atlântico Três Vezes

Existe na Igreja Evangélica de Siegen, centro-oeste da Alemanha, uma bacia dourada que serve de pia batismal. O objeto mede cerca de 50 cm de diâmetro por 12 cm de fundo.

O Conde Maurício de Nassau recebeu essa bacia como presente quando da visita de uma delegação do Rei do Congo, D. Garcia II, ao Recife em 1643. Os africanos buscavam a intermediação de Nassau para disputa com o Conde de Sonho (Mani Sonho) também do Congo, que enviou seus embaixadores ao Recife, pouco depois. A região do Sonho foi a primeira a manter contato com os portugueses em 1483 por ser um porto importante na foz do Rio Congo.

Em 1956, o historiador e arqueólogo alemão Friedrich Muthmann determinou, por comparação, que a bacia era originária da região de Cuzco, Peru, datando a peça por volta de 1580. Tinha sido produzida em prata, principal riqueza explorada pelos espanhóis no Novo Mundo. Segundo a Dra. Mariana Françozo, a peça deve ter sido usada como pagamento no tráfico de escravos pelos portugueses e assim chegou a Angola, na costa ocidental africana.

Descomissionado pela Companhia das Índias Ocidentais do seu cargo de governador do Brasil holandês, o Conde Maurício de Nassau volta à Europa em 1644, levando entre seus tesouros e curiosidades a bacia de prata peruana.

Elevado a Príncipe do Sacro Império Romano-Germânico em 1653, Maurício de Nassau viajou para Frankfurt em 1658 como representante do Grande Eleitor de Brandenburgo, Friedrich Wilhelm. Lá, encaminhou a bacia de prata ao ourives Hans Georg Bauch, encomendando-lhe que a revestisse de ouro e que adaptasse um pedestal, além de inserir no centro da peça o brasão de armas de Nassau.


Depois de pronta, a bacia foi doada pelo Conde Maurício de Nassau para a Igreja Evangélica de Siegen, onde permanece até hoje. A bacia, além do brasão de Nassau, possui em sua borda de 6,5 cm diversas figuras de animais, pessoas, prédios e plantas. Essa curiosa peça, originária da América andina, cruzou toda a América do Sul para ser enviada através do Atlântico sul para a África ocidental. Daí, volta, pelo mesmo oceano, para o Recife no litoral nordeste do Brasil. Por fim, cruza o Oceano Atlântico pela terceira vez, agora até o norte da Europa. Observam-se assim os caminhos dos interesses políticos e comerciais das potências do século XVII na parte ocidental do mundo.

sexta-feira, 22 de dezembro de 2017

Porto Calvo

Porto Calvo, atualmente município de Alagoas, foi palco de intensas lutas entre luso-brasileiros e neerlandeses pela posse da região sul da então capitania de Pernambuco.

Distando 170 km ao sul do Recife, Porto Calvo foi povoado pelo alemão de Augsburg, Cristovão Lintz, por volta de 1560, quando percorreu o litoral sul da capitania de Pernambuco. Posteriormente foi erguida uma igreja e dez engenhos de açúcar na região. Servia de pouso para viajantes com destino ao Rio São Francisco. Também era conhecida como Povoação dos Quatro Rios ou de Nossa Senhora da Apresentação.

Em 1630 os holandeses, através da Companhia das Índias Ocidentais - WIC, invadem Olinda e o Recife e começam a ocupar as outras povoações de Pernambuco. Um ano depois, uma frota portuguesa desembarca cerca de mil homens em Barra Grande, que seguem para Porto Calvo a fim de juntarem-se às tropas de Matias de Albuquerque. Daí, marcham para o Cabo de Santo Agostinho, porto que ainda estava em mãos portuguesas. O espião brabantino Adriaen Verdonck, radicado em Olinda, descreve o povoado de Porto Calvo como grande produtor de gado, que periodicamente é trazido ao Recife, além do cultivo de fumo.

Uma expedição holandesa chega a Porto Calvo em 1632, procedente de Porto de Pedras, na foz do Rio Manguaba, que dá acesso àquele povoado. Após apresar açúcar e outras mercadorias, os invasores queimam os armazéns e voltam ao Recife. Neste mesmo ano, entra em cena o mais famoso personagem de Porto Calvo, o mestiço Domingos Fernandes Calabar. Profundo conhecedor da região, das táticas de guerrilha dos luso-brasileiros e com fácil diálogo com os índios, passa para o lado neerlandês e começa a levar os invasores a conquistar vitórias em toda a capitania de Pernambuco e nas terras vizinhas.

Nova incursão neerlandesa na região de Porto Calvo, em 1633, sob comando do sargento-mor Cloppenburch e acompanhada pelo conselheiro Johan Gijsselingh, apreende grande estoque de açúcar. Já em 1634 Matias de Albuquerque ordena a construção de uma fortificação de faxina e terra no povoado. Ainda em 1634, o coronel alemão Sigmund von Schkoppe e o almirante Lichthart deslocam tropas para aquele local, onde travam combate com os luso-brasileiros e tomam mais açúcar em Matriz de Camaragibe, 20 km ao sudoeste de Porto Calvo.

Em 1635 a situação das forças de resistência é desesperadora. O Arraial do Bom Jesus está cercado e quase sem mantimentos de boca e de guerra. Em Porto Calvo os mercenários da WIC derrotam os homens do Conde de Bagnuolo e fortificam o alto onde está a igreja. Em 08 de junho o Arraial do Bom Jesus rende-se às tropas do coronel Chrestofle Arciszewski. Matias de Albuquerque, então na região de Vila Formosa, hoje Serinhaém, recebe os retirantes e forma uma coluna com destino às Alagoas e daí para a Bahia.

Os neerlandeses, tendo conquistado também o Forte de Nazaré, no Cabo de Santo Agostinho, seguem para o sul da capitania. Em 19 de julho as tropas de Matias de Albuquerque tomam o forte de Porto Calvo. Aí prendem Calabar que é sumariamente julgado e condenado como traidor, sendo garroteado e esquartejado. Seus restos mortais foram pendurados na estacada do povoado. Chegando ao local dois dias depois com suas tropas, o coronel Arciszewski manda recolher os despojos de Calabar e enterra-los com honras militares.

No ano seguinte, em 17 de janeiro, ocorre a batalha de Mata Rendonda, duas milhas ao sul de Porto Calvo. Os homens de Arciszewski, derrotam os soldados do mestre de campo general D. Luiz de Rojas y Borjas, que havia substituído Matias de Albuquerque no comando do exército luso-brasileiro em Pernambuco. Borjas é morto no combate, havendo relatos de que foi vítima de fogo amigo. Em 12 de abril do mesmo ano, Duarte de Albuquerque eleva à condição de vila a povoação de Porto Calvo, que passa a se chamar de Vila do Bom Sucesso.

O Conde Maurício de Nassau aporta no Recife no dia 23 de janeiro de 1637. Apenas treze dias depois, Nassau ordena o ataque ao exército luso-brasileiro postado ao sul de Pernambuco. Soldados e índios comandados pelo coronel Von Schkoppe marcham para Porto Calvo a fim de combater as forças do Conde de Bagnuolo, formadas por portugueses, espanhóis, napolitanos, índios e negros. Outros oitocentos homens da WIC seguem por mar, ao comando de Arciszewski. O comando geral da expedição é do Conde de Nassau. Após três semanas de combate o grosso das tropas, juntamente com Bagnuolo, foge em direção ao Rio São Francisco, ficando novamente Porto Calvo em mãos dos neerlandeses.

Em 1645 começa a Insurreição Pernambucana, movimento liderado pelos senhores de engenho contra o domínio holandês, motivado pelas gigantescas dívidas deles para com a WIC. Em 16 de agosto os luso-brasileiros cercam o Forte de Porto Calvo, que só se rende aos insurretos em 17 de setembro. Oito canhões de bronze do forte são enviados ao Arraial Novo do Bom Jesus, então em construção.

A partir daí, Porto Calvo não mais troca de mão, sendo os holandeses derrotados por completo em 1654, assinando a rendição no Recife.

domingo, 12 de novembro de 2017

Josué de Castro

Nasci (no Recife) numa rua que tinha o nome ilustre de Joaquim Nabuco, o grande abolicionista dos escravos, nos tempos do Império. A casa em que nasci tinha ao lado um grande viveiro de peixes, de caranguejos e de siris. Se não nasci mesmo dentro do viveiro, como os caranguejos, já com dois anos estava dentro dele.


O grande Recifense Josué Apolônio de Castro nasceu no dia 05 de setembro de 1908 e atuou como médico, geógrafo, professor e principalmente, no combate à fome. Escreveu livros traduzidos em todo mundo: Geografia da Fome, Geopolítica da FomeSete Palmos de Terra e Um Caixão e Homens e Caranguejos.

Foi presidente do Conselho Executivo da Organização das Nações Unidas para Agricultura e Alimentação (FAO) e Embaixador brasileiro na ONU.

Foi deputado federal por Pernambuco em dois mandatos. Durante o Regime Militar teve cassados seus direitos políticos enquanto era embaixador em Genebra, indo asilar-se em Paris. 

Recebeu o Prêmio Franklin D. Roosevelt da Academia de Ciências Políticas dos Estados Unidos, o Prêmio Internacional da Paz do Conselho Mundial da Paz e a comenda de Oficial da Legião de Honra da França. Foi indicado ao Premio Nobel da Paz nos anos de 1953, 1963, 1964 e 1965.

Faleceu ainda em Paris em 24 de setembro de 1973, estando enterrado no cemitério de São João Batista no Rio de Janeiro.


Bem ao lado da casa começava a zona compacta dos mocambos, das choças de palha e de barro, amontoadas umas por cima das outras num enovelado de ruelas, numa anarquia desesperadora. As casas entrando por dentro da maré, a maré invadindo as casas. Os braços do rio passando pelo meio da rua e a lama envolvendo tudo.

Criei-me nos mangues lamacentos do Capibaribe cujas águas, fluindo diante dos meus olhos ávidos de criança, pareciam estar sempre a me contar uma longa história.


Eu ficava horas e horas imóvel sentado no cais, ouvindo a história do rio, fitando as suas águas correrem como se fosse uma fita de cinema. Foi o rio o meu primeiro professor de história do Nordeste, da história desta terra quase sem história. A verdade é que a história dos homens do Nordeste me entrou muito mais pelos olhos do que pelos ouvidos. Entrou-me por dentro dos meus olhos ávidos de criança sob a forma destas imagens que estavam longe de serem sempre claras e risonhas. Josué de Castro, 1967.

sexta-feira, 21 de julho de 2017

Os Engenhos de Açúcar

Cuthbert Pudsey foi um mercenário inglês a serviço da WIC no Brasil desde a invasão em 1630, permanecendo até 1640 quando segue para as Antilhas, volta a Pernambuco e então retorna à Europa. Escreveu um diário onde narra a viagem marítima até Pernambuco, e descreve o país, seus habitantes, animais e plantas, além dos combates pela posse da terra:

Agora inventaram os engenhos para moer suas canas de açúcar. Seus escravos devem plantar e cortar sua cana, que só necessita ser plantada uma vez a cada sete anos.

Fundidores para fundir suas caldeiras. Pedreiros para fazer os fornos. Carpinteiros para fazer baús. Outros apressam-se a erguer igrejas. Em cada engenhou uma capela, uma escola, um padre, um barbeiro, um ferreiro, um sapateiro, um carpinteiro um marceneiro, um oleiro, um alfaiate, e todos os outros artífices necessários. Pois cada engenho é como um estado em si mesmo e o senhor do engenho justiceiro e juiz em si mesmo.

Quando o engenho mói, ha uma roda que gira por meio de água ou de bois, que movem dois grandes pilares que são construídos redondos, reforçados com ferro, dispostos de modo a estarem próximos um do outro sem se tocarem. E entre esses pilares costuma-se alimentá-los com as canas por dois ou três escravos que passam e repassam a cana. O suco é destilado em certas calhas que o levam até as caldeiras, que trabalham em sequencia, escumando e refinando essa sopa até que ela chega ao ponto de açúcar.

Costumam então, depois que ele está frio e espesso, colocá-lo em formas, e sobre estas, depois de ter ficado certo tempo, tem uma espécie de ciência de fazer uma mistura de cinzas de madeira e óleos com a qual cobrem suas formas para tomar seu açúcar branco e para fazer com que a escória purgue dele. Então, após ter ele estado por cerca de 4 meses no armazém para purgar, sacam-no das formas & quebram-no, secando-o ao sol, o que o torna tão branco como a neve. Feito isto, pesam-no & põem-no em caixas adaptadas para a venda.

Cuthbert Pudsey, Diário de uma permanência no Brasil